AZIA

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A azia, cujo termo médico corresponde a pirose, manifesta-se sob a forma de uma sensação de ardor ou queimadura no estômago que irradia do peito em direção ao pescoço e/ou à boca, sendo algumas vezes confundida com um Enfarte Agudo do Miocárdio.

É sintoma de uma perturbação digestiva e não uma doença em si mesma e, não raras vezes, tem o seu diagnóstico adiado pelo próprio paciente que, com pouca frequência, procura ajuda profissional para a diagnosticar ou tratar. Esta sensação incómoda é mais comum após as refeições ou quando o paciente está deitado, isto porque o refluxo gastroesofágico está associado à pressão exercida sobre o estômago.

Podendo durar minutos ou horas, a azia é um dos sintomas mais comuns da Doença do Refluxo Gastroesofágico, conhecida pela sigla DRGE. Quando esporádica, a situação é considerada normal. Porém, se o contacto do ácido com o estômago for frequente, torna-se anormal e muito incomodativo, dando origem a doença com necessidade de tratamento.

O refluxo gastroesofágico é uma das queixas gastrointestinais mais frequentes na prática clínica.

Os números refletem a dimensão do problema, que é essencialmente uma doença do mundo ocidental, sendo muito prevalente na Europa e nos países mais desenvolvidos.

Comprimidos para a azia

Apesar da escassez de dados estatísticos sobre a doença, sabe-se que é bastante comum em Portugal. De acordo com dados do Observatório Nacional de Saúde (ONSA), a DRGE afeta cerca de 35 por cento da população nacional com mais de 18 anos. No Reino Unido 60 por cento das pessoas apresentaram em alguma ocasião sintomas de azia, afetando mais as mulheres que os homens. No ocidente a prevalência dos sintomas de refluxo situa-se entre 12 a 54 por cento e nos EUA a prevalência estimada é de 19 milhões de novos casos por ano.

Ainda que seja mais frequente acima dos 30 anos, a DRGE pode surgir em qualquer idade, estando a aparecer cada vez mais em pessoas idosas (na faixa etária dos 55-64 anos).

As causas e os fatores desencadeantes do problema são vários, mas antes de se identificarem é importante entender como ocorre o processo digestivo normal.

O processo digestivo normal

A digestão do alimento tem início na boca onde ocorre a sua trituração mecânica através da mastigação. A mastigação mistura o alimento com a saliva, lubrificando-o e tornando-o mais fácil de ser deglutido. O alimento mastigado e misturado à saliva é chamada de bolo.

A língua compacta o bolo de alimento e inicia a deglutição, levando-o da boca através da garganta para o esófago (um tubo de cerca de 25 cm de comprimento que vai da garganta até ao estômago). Apesar da maior parte do esófago estar localizada na cavidade torácica, a sua extremidade inferior passa pelo diafragma, abaixo do qual ele se une ao estômago.

O esófago é separado da garganta e do estômago por anéis de tecido semelhantes a válvulas, conhecidos como esfíncteres. O esfíncter, que separa a garganta da extremidade superior do esófago é denominado esfíncter esofágico superior (EES), e o esfíncter que separa o estômago da extremidade inferior do esófago é conhecido como esfíncter esofágico inferior (EEI).

Quando não há alimento a transportar da boca para o estômago, ambos os esfíncteres permanecem fechados. Quando o alimento é deslocado para a parte posterior da boca, o EES abre-se e o bolo alimentar é empurrado para o interior do esófago pela língua. O alimento é então impulsionado através do esófago por ondas sucessivas de contração muscular conhecidas como movimentos peristálticos. Na extremidade inferior do esófago, o efeito combinado da força física e do peso do bolo faz com que o esfíncter esofágico inferior se abra, permitindo que o alimento ingerido penetre no estômago. O EEI desempenha um importante papel na proteção do esófago contra danos que resultariam de uma exposição ao conteúdo altamente ácido do estômago.

O estômago é um órgão semelhante a um odre, localizado logo abaixo do diafragma, que possui um formato típico em "J". Quando o alimento entra ao estômago produz sucos digestivos e ácido gástrico (ou suco gástrico). A mistura de alimento, sucos digestivos e ácido é denominada quimo.

A partir do estômago, o quimo passa pelos restantes órgãos do sistema gastrintestinal, onde é acrescido de outros sucos digestivos, sendo todos os nutrientes posteriormente absorvidos pela corrente sanguínea.

Em pacientes portadores de DRGE, alguns ou mesmo todos estes eventos não ocorrem de maneira normal, e o ácido reflui para o esófago – o chamado refluxo ácido. E enquanto o estômago possui um revestimento protetor que resiste a qualquer dano provocado por este ácido erosivo, o mesmo não acontece com o delicado revestimento interno do esófago.

Causas e fatores desencadeantes

Diversas alterações fisiológicas podem levar ao refluxo do ácido gástrico para o interior do esófago:

Uma reduzida produção de saliva aumenta a duração da exposição do esófago ao ácido. A saliva é um componente crítico do mecanismo antirrefluxo pois ela neutraliza o ácido no esófago.

Um EEI debilitado. O esfíncter esofágico inferior é mais frágil em alguns indivíduos e "cede" quando a pressão no estômago aumenta (por exemplo, quando está cheio). Isto permite que o ácido gástrico retorne (reflua) para o esófago.

O relaxamento inadequado do EEI. O esfíncter esofágico inferior relaxa de forma inadequada durante 30 segundos de cada vez. Este é o tempo suficiente para que o conteúdo do estômago retorne ao esófago. A razão específica porque isto ocorre é desconhecida. Este mecanismo explica o refluxo na maioria das pessoas.

Esvaziamento demorado do estômago. O esvaziamento demorado do estômago pode causar refluxo ácido ao aumentar o volume do estômago causando um enchimento mais rápido. Isto leva à presença de uma quantidade maior de ácido perto do EEI, aumentando, portanto, a quantidade de refluxo ácido.

Além destas causas o refluxo esofágico também pode ser iniciado ou agravado por uma série de outros fatores que têm a ver com o estilo de vida, como a dieta e o tabagismo.

Homem com azia

Para as pessoas que sofrem frequentemente de azia, as causas podem ser atribuídas: à forma como come (ingerir fartas refeições, alimentar-se de forma irregular ou muito rapidamente, comer antes de se deitar); ao tipo de alimentos que ingere (alimentos gordurosos, picantes, chocolate, cebola, produtos derivados do tomate); às bebidas que ingere (bebidas com cafeína e álcool, sumos de citrinos, bebidas muito quentes).

Ser fumador(a), tomar determinadas classes de medicamentos (nitratos, estrogénios, contracetivos orais, bloqueadores dos canais do cálcio, alendronato), ter excesso de peso ou usar roupas justas também são fatores de agressão a ter em conta.

Apesar de a azia ser a manifestação mais frequente da DRGE, existem outros sintomas e complicações que afetam os portadores desta doença crónica.

Sintomatologia e Complicações

A sensação de ardor, queimadura e muitas vezes dor (que surge no peito e se pode estender ao pescoço, garganta ou mesmo à cara) é regularmente acompanhada de regurgitação do conteúdo do estômago para a boca ou salivação excessiva.

Dificuldade na deglutição dos alimentos, tosse, laringite, dor de ouvidos, rouquidão, asma, gengivite, cáries e erosões dentárias estão também entre os sintomas observados. Em alguns casos a doença poderá manifestar-se por anemia, carência de ferro e, mais raramente, por vómitos com sangue devido a lesões na mucosa.

Poderão ainda surgir outras complicações como: erosão do esófago (esofagite péptica); hemorragia, que pode levar a anemia; estenose (aperto) do esófago – que impede a passagem dos alimentos sólidos para o estômago; a membrana da parte inferior do esófago (mucosa) é alterada para uma mucosa semelhante à do intestino e estômago – esófago de Barret. Esta é uma situação rara, podendo evoluir para cancro, o que obriga a um controle apertado com endoscopia e biópsia.

Também a hérnia do hiato, uma alteração estrutural anatómica, pode estar presente em doentes com refluxo ou ser a sua causa. Consiste na passagem de uma porção do estômago para a zona do tórax onde só deveria estar o esófago. Esta deslocação acontece devido ao mau funcionamento da pressão do esfíncter.

O conhecimento dos sintomas, só por si, pode em muitos casos levar a considerar a presença da doença de refluxo. Por esta razão, o relato do doente pode ajudar no diagnóstico.

Diagnóstico e Tratamento da doença

É condição indispensável confirmar o diagnóstico. Para descartar a existência de complicações podem fazer-se estudos radiológicos, uma esofagoscopia (exame do esófago com um tubo flexível de visualização), medição da pressão (manometria) do esfíncter esofágico inferior, testes de determinação do pH esofágico (acidez) e prova de Bernstein (teste de infusão de ácido no esófago).

Diagnóstico Gastroesofágico

O exame mais eficaz para demonstrar que os sintomas são causados pelo refluxo de ácido é a biópsia (exame ao microscópio duma amostra de tecido) ou a prova de Bernstein, independentemente do que se tenha detetado com a radiologia ou a esofagoscopia. A biópsia é também o único método fiável para detetar a síndrome de Barret.

Uma vez que a DRGE é uma doença crónica, prevalente, e está associada a uma elevada tendência para a recidiva, é necessário uma estratégia de tratamento a longo prazo para a maioria dos doentes.

Durante o tratamento existem períodos em que os sintomas são mais evidentes e outros em que diminuem ou desaparecem. O objetivo do tratamento é diminuir a agressão do ácido sobre o esófago para eliminar os sintomas e curar a esofagite, nos casos em que esta se manifesta, evitando o surgimento de novos períodos com queixas e complicações.

Para aliviar o refluxo de ácido podem ser adotadas várias medidas. Os fatores relacionados com o estilo de vida implicados na DRGE são inúmeros, mas a implementação de algumas alterações simples podem reduzir consideravelmente os sintomas da doença, quando ligeira a moderada.

Entre essas alterações saliente-se a necessidade de reduzir o peso corporal, deixar de fumar (a nicotina enfraquece o esfíncter), não usar roupa apertada, evitar atividades que aumentem a pressão intra-abdominal logo após as refeições, como, por exemplo, a jardinagem, e elevar a cabeceira da cama cerca de 15 a 20 cm.

Esta elevação da cabeceira deve ser feita colocando tacos ou tijolos nos pés da cama. Aumentar o número de almofadas não tem o mesmo efeito.

No que respeita à alimentação, o paciente deve passar a fazer refeições menos abundantes, comendo mais vezes ao dia e menos quantidade de cada vez, deve evitar alimentos ricos em gordura ou demasiado condimentados. Devem evitar-se igualmente o chocolate, alimentos ou bebidas ácidas, bebidas gaseificadas, colas, chá, café e álcool, comidas picantes e refogados à base de tomate.

É igualmente importante que o doente não se deite com o estômago cheio. Devem aguardar-se duas a três horas entre a última refeição e a hora de dormir.

Se as modificações do estilo de vida não controlarem de forma adequada os sintomas de DRGE, ou se não forem aceites pelo doente, então deverá dar-se início a terapêutica medicamentosa.

Por não ser uma doença homogénea o tratamento da DRGE deverá ser individualizado, dependendo da presença de esofagite ou outras complicações, assim como da intensidade e da apresentação diária ou ocasional dos sintomas.

Sabe-se que o ácido gástrico é produzido pelas células parietais do estômago. O estômago humano contém aproximadamente mil milhões de células parietais, que produzem entre 2 e 3 litros de ácido por dia.

A parte específica que produz o ácido na célula parietal é denominada bomba de protões. Três substâncias químicas diferentes regulam a atividade da bomba de protões da célula parietal: a acetilcolina, a gastrina, e a histamina. Cada uma destas substâncias químicas pode aumentar a produção de ácido com base nos sinais recebidos do cérebro. Em cada caso, a substância química liga-se a um sítio na célula parietal, e transmite um sinal para que seja produzido mais ácido.

A inibição da ação destas substâncias químicas diminui a produção de ácidos, reduzindo assim os sintomas da DRGE. Existem duas classes de medicamentos que conseguem fazê-lo.

Um grupo inibe a ação da histamina, e é conhecido como antagonistas dos recetores de histamina. Estes medicamentos reduzem a produção de ácido através do bloqueio de uma das três principais vias para a produção de ácido.

Comprimidos

Conhecidos como supressores de ácido, o seu efeito pode durar até 12 horas, ou seja, durante todo o dia ou toda a noite, mas no entanto o seu início de ação não é rápido. Cimetidina, famotidina, ranitidina, ou nizatidina são exemplos de substâncias ativas presentes nos antagonistas dos recetores H2 da histamina.

Um segundo grupo, denominado inibidores da bomba de protões (IBPs), são os melhores medicamentos disponíveis até o momento. Estes agentes reduzem a produção do ácido gástrico, interferindo diretamente com a atividade da bomba de protões. Por terem como alvo a etapa final da produção de ácido, os inibidores da bomba de protões bloqueiam a secreção de ácido, independentemente da natureza do sinal, atuando sobre a célula parietal.

Os IBPs não se limitam a tratar os sintomas da Doença do Refluxo Gastroesofágico, mas também reparam as lesões causadas pelo ácido no esófago dos pacientes. Apesar de proporcionarem um alívio prolongado, o início de ação demora algum tempo. omeprazol, pantoprazol, lansoprazol, rabeprazol e esomeprazol. são exemplos de substâncias ativas presentes nos IBPs.

Algumas pessoas, porém, continuam a ter sintomas de azia e indigestão, mesmo a tomar IBPs. Os alginatos (como o Gaviscon, por exemplo) podem ser tomados em simultâneo com os IBPs para ajudar a aliviar os sintomas.

Estes atuam pela formação de uma barreira física no topo do conteúdo do estômago, o que previne o refluxo do conteúdo ácido para o esófago. Atuam, em geral, rapidamente, e têm um efeito calmante, proporcionando alívio até 4 horas. O alginato de sódio é um exemplo de substância ativa presente nos alginatos.

A ingestão de um antiácido, uma hora depois das refeições e outro ao deitar, também é benéfica.

Os antiácidos são de natureza alcalina e neutralizam os ácidos do estômago. Estão normalmente disponíveis sob a forma de comprimidos – mas também se podem obter sob a forma líquida ou comprimidos mastigáveis. Têm um início de ação rápida, no entanto, normalmente, não resolvem os problemas a longo prazo. Carbonato de cálcio, hidróxido de magnésio e hidróxido de alumínio são alguns exemplos de substâncias ativas presentes nos antiácidos.

O médico pode ainda prescrever um medicamento colinérgico (por exemplo betanecol, metoclopramida ou cisaprida) para fazer com que o EEI se feche com mais energia.

Quando a doença é considerada grave a ponto de obrigar à toma de medicamentos durante toda a vida ou quando, com a medicação, os sintomas só melhoram e não desaparecem ou não se consegue curar a esofagite, a cirurgia pode ser indicada. Através da intervenção cirúrgica pode ser corrigida uma parte da alteração a nível do EEI. O objetivo é construir uma nova válvula usando o fundo do estômago. Atualmente este tipo de cirurgia já pode ser realizada por via laparoscópica.

A DRGE tem, sem dúvida, um impacto muito negativo na qualidade de vida e realização das atividades diárias dos doentes que dela padecem. Pode mesmo comparar-se à qualidade de vida de doenças crónicas graves como a diabetes, a artrite ou a insuficiência cardíaca congestiva.

Refluxo Gastroesofágico

Os sintomas mencionados com mais frequência para esta situação são a dor generalizada, alterações do sono, diminuição da vitalidade, alterações da sexualidade e ansiedade sobre as origens da sintomatologia. A doença tem, assim, um impacto considerável na produtividade, absentismo laboral e na vida social dos doentes.

A juntar a todos os aspetos negativos já referidos deverão ser considerados ainda os impactos económicos de uma doença crónica que, pelo seu prolongado tratamento, contribui para o aumento dos custos com a saúde, tanto para os doentes como para o próprio sistema.

A cronicidade da situação torna necessário, em muitos casos, uma terapêutica de manutenção prolongada para evitar recidivas mas, juntamente com algumas mudanças simples no estilo de vida, é possível aumentar a qualidade de vida destes doentes.

Apesar de tudo, a DRGE não deve ser considerada uma doença grave de acordo com o conceito habitual deste termo, até porque na maioria das situações, a medicação e a modificação de alguns hábitos de vida são eficazes.

Para estes doentes, seguir com rigor o tratamento indicado pelo médico, aderir a estilos de vida e hábitos alimentares saudáveis e controlar o peso são regras de ouro a instituir.

ARTIGO

Autor:
Tupam Editores

Última revisão:
26 de Maio de 2017

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