OSTEOPOROSE, A DOENÇA SILENCIOSA

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OSTEOPOROSE, A DOENÇA SILENCIOSA

  Tupam Editores

Ao longo da vida, os nossos ossos passam por um processo de incessante reciclagem, sendo constantemente decompostos e regenerados. Esse trabalho é executado pelos osteoclastos e pelos osteoblastos, respectivamente.

Quando se verifica hiperactividade dos osteoclastos, comparativamente com a actividade dos osteoblastos, resulta uma diminuição drástica da massa óssea sem aparente alteração da sua forma, tornando os ossos frágeis e, consequentemente, expondo-os a um maior risco de fracturação. Estima-se que este fenómeno, designado por osteoporose, seja responsável pela quase totalidade das fracturas ósseas nas pessoas com mais de 65 anos.

Existem vários tipos de osteoporose, a osteoporose pós-menopáusica - tem como origem a falta de estrogénio -, a osteoporose senil - resulta de uma insuficiência de cálcio associada à idade, afectando as pessoas com mais de 70 anos -, osteoporose secundária - deriva de outras causas patológicas ou da toma de alguns medicamentos -, osteoporose juvenil idiopática - uma patologia rara, cuja origem ainda não é conhecida e que vitima crianças e jovens adultos sem distúrbios hormonais aparentes ou carência de vitaminas.

Os mistérios do crescimento ósseo começaram por ser desvendados no século XVIII, em resultado das investigações de John Hunter. Foi este cirurgião inglês que descobriu, através de experiências em animais, que a estrutura óssea humana era submetida a um contínuo processo de reciclagem: os ossos mais velhos eram gradativamente destruídos e substituídos por novos. Porém, não conseguiu descobrir qual o mecanismo responsável por esta reciclagem.

Foram necessários mais cem anos de investigação, até se chegar à descoberta das células ósseas: os osteoclastos e os osteoblastos. Devido à acção desta complexa fábrica de (de)composição, o esqueleto humano é substituído por um novo a cada dez anos.

As descobertas de Hunter foram da máxima importância para o conhecimento da nossa estrutura óssea. Porém, só na década de 30 do século XIX é que o médico Jean Georges Lobstein procedeu à sua identificação, ao aperceber-se que os ossos de alguns pacientes apresentavam cavidades maiores do que o normal, tendo denominado esse fenómeno de osteoporose, que significa "ossos porosos".

Tido como facto adquirido pela comunidade científica da época, que a osteoporose era consequência natural da idade ou da imobilidade, não mais se investigou esta área.

Porém, em 1930, o médico Fuller Albright, hoje considerado pai da doença metabólica do osso e possivelmente da moderna endocrinologia, intrigado com o facto de os doentes osteoporóticos serem, na sua grande maioria, mulheres mais velhas ou que estavam na menopausa, debruçou-se sobre o estudo desta doença e inicou a montagem do puzzle.

Quatro anos mais tarde, dois anatomistas verificaram que os ossos das pombas em ovulação eram mais maciços comparativamente com os ossos dos pombos, levando-os a questionar-se sobre a importância do estrogénio, produzido maioritariamente pelos ovários.

Esta foi a peça final do puzzle necessária a Albright, que em 1940 revolucionou o mundo científico com a apresentação da sua tese: o estrogénio despoleta a construção de reservas de cálcio, deste modo, este pode ser libertado durante a gravidez e amamentação para suprir as necessidades do feto e do recém-nascido. Consequentemente, uma drástica redução de estrogénio durante a menopausa leva à redução da massa óssea, fazendo com que a sua destruição supere a produção. Ele foi também o primeiro a sugerir que essa perda era a responsável pelas fracturas e pelo colapso da espinal medula. Para além de ter identificado a doença, ele também propôs um tratamento - injecções regulares de estrogénio. Desde então, vários especialistas têm vindo a investigar os mecanismos responsáveis pelo desenvolvimento ósseo e pela osteoporose.

Diagnóstico e Prevenção

Actualmente, devido à evolução da ciência, há outras formas de tratar a osteoporose - que se tornou um problema de saúde pública, contribuindo para o aumento das despesas na área da saúde -, apostando-se por isso, cada vez mais na prevenção.

Osteoporose, a doença silenciosa

Também os meios de diagóstico evoluíram, apesar de o processo ser semelhante a outras patologias, ou seja, tem como base a história clínica - hábitos alimentares, consumo de tabaco, café e álcool, prática de exercício físico, idade da menopausa - à realização de exames físicos - verifica-se a deformação da coluna, recorre-se ao hemograma, a testes que avaliem a eletroforese de proteínas, à função renal, os níveis de cálcio e fósforo, a fosfatase alcalina e calciúria, à radiografia (mostra a diminuição da massa óssea) e à densitometria (determina a dimensão da perda) - e análises de dados.

Devido à introdução de tecnologias de Inteligência Artificial, a partir do ano 2000 passou a contar-se com a possibilidade de realização de análises de maior qualidade, que permitem a avaliação de 8 parâmetros através das metáfises das falanges dos dedos 2 e 5, em vez do tradicional método na coluna lombar.

Como se trata de uma doença frequentemente assintomática, pertencendo à classe das doenças silenciosas, apenas episodicamente se manifesta através de uma fractura ocasional. A dor dorso-lombar pode ser também outro sintoma, sendo o espasmo muscular o principal responsável pelos sintomas.

Muitos dos medicamentos usados para tratar a osteoporose, tais como a toma de suplementos de cálcio e vitamina D, a Terapia Hormonal de Substituição (THS), a calcitonina, os bifosfonatos e mais recentemente os Inibidores selectivos do receptor de estrogénio (SERMs) e a hormona paratiróide recombinante de ADN, são também usados na prevenção.

Porém, os especialistas afirmam que a prevenção deve começar na infância, devendo a criança/adolescente ingerir regularmente doses adequadas de cálcio (1,2 g a 1,5 g por dia) e vitamina D (entre 5 mg a 10 mg).

Já na idade adulta, as pessoas devem continuar a ingerir suplementos de cálcio - os valores variam entre 800 mg, 1 g e 1,5 g, dependendo de ser homem, mulher na pré-menopausa ou na menopausa, respectivamente - e vitamina D. Simultaneamente deve-se praticar exercício físico com regularidade, evitar o consumo de café e de álcool em excesso e não fumar. É necessário não esquecer que apesar de ter uma maior incidência no sexo feminino, especialmente em mulheres pós-menopáusicas, os homens também são vítimas desta doença.

Como a toma de cálcio e vitamina D é muito importante para manter os ossos saudáveis em qualquer idade, se a pessoa não conseguir atingir os níveis recomendados através da sua alimentação habitual, poderá recorrer à toma de suplementos de cálcio e de vitamina D, prática muito vulgarizada nos nossos dias.

Outra das possibilidades de combate à doença, é o recurso à toma de suplementos de calcitonina. A calcitonina é uma hormona produzida na glândula da tiróide que inibe a reabsorção óssea. Os suplementos podem ser obtidos a partir de fontes naturais, como o salmão, ou serem sintetizados artificialmente.

Já os bifosfonatos são um grupo de fármacos que se ligam aos minerais nos ossos, reduzindo assim, os níveis de destruição óssea. Há certos bifosfonatos que estão aprovados para tratar a osteoporose quer em mulheres quer em homens.

Tratamento

O raloxifeno, uma substância que pertence à classe dos moduladores selectivos do receptor de estrogénio, é um fármaco aprovado para o tratamento e prevenção da osteoporose apenas em mulheres que já passaram a menopausa e que estejam a fazer THS.

A teriparatida é a primeira substância incluída numa nova classe de tratamento da osteoporose. A teriparatida é a hormona humana da paratiróide, criada através do ADN recombinante. Esta substância age como se de hormona natural se tratasse, estimulando a formação dos ossos, uma diferença notável relativamente aos anteriores fármacos, que se limitavam a retardar o desgaste ósseo.

Uma outra terapêutica a que se recorre é a THS com estrogénio, estrogénio associado a progestogénio ou à tibolona. Contudo, este tipo de tratamento está envolto numa certa polémica devido à suspeita de ligação ao cancro da mama, quando mantido por períodos muito longos.

Os resultados do estudo desenvolvido pela Million Women Study, em 2003, no qual participaram cerca de um milhão de britânicas pós-menopáusicas, sobre o efeito dos vários tipos de THS nas mulheres, vieram confirmar as suspeitas de alguns investigadores.

Osteoporose, a doença silenciosa

Este evidencia que 32 mulheres em cada 1000, que não recorrem à THS, vão ser vítimas de cancro entre os 50 e os 65 anos. Nas mulheres que se submetem à THS com estrogénio, o número de casos aumenta para mais um a dois casos, após 5 anos de utilização e para mais cinco, após 10 anos.

No grupo feminino de THS de associação, o número de vítimas de cancro aumenta consideralvelmente, para mais seis casos, após 5 anos de utilização e para mais dezanove, após 10 anos.

Também se constatou no estudo, que quanto maior fosse a duração do tratamento, maiores eram as probabilidades de a mulher vir a sofrer de cancro. Porém, em todos os casos, o risco diminuía depois de o tratamento ter sido interrompido, e decorrido um período de 5 anos, as mulheres voltavam ao mesmo nível de risco das mulheres que nunca tinham recebido o tratamento.

Devido a este estudo, as autoridades europeias competentes, reavaliaram a relação risco-benefício desta terapêutica e concluíram que esta relação é desfavorável na prevenção da osteoporose por longos períodos de tempo, em mulheres com risco acrescido de fracturas.

Deste modo, a THS só deverá ser utilizada na prevenção quando as mulheres não toleram outras terapêuticas ou os medicamentos utilizados não estão a ter os efeitos esperados.

Em mulheres saudáveis, sem sintomas, a relação risco-benefício é também desfavorável. Esta relação é, porém, favorável para tratar os sintomas de climatério durante um curto período de tempo.

Divulgação

A divulgação é também parte indispensável da prevenção, permitindo assim diminuir a incidência da osteoporose, através do conhecimento.

O dia 20 de Outubro foi o escolhido para dar voz a esta doença silenciosa, assinalando-se, assim, o Dia Mundial da Osteoporose, instituído pela European Foundation for Osteoporosis (EFFO) em 1996 e reconhecido oficialmente pela OMS em 1998.

Para assinalar este dia, farmácias por todo o País associaram-se ao evento, promovendo rastreios gratuitos para determinar a densitometria óssea, um teste com a duração de 5 minutos.

Em Portugal estima-se que em cada cem mulheres, quarenta e uma sofram de osteoporose. Estes são os dados do mais recente estudo, realizado em Portugal, que teve como base 9.880 rastreios, durante a campanha "saúde sobre rodas".

Ainda de acordo com o estudo, entre o grupo feminino, 11% sofria de osteoporose e 30% apresentava sintomatologia de osteopenia. As restantes, cerca de 59%, apresentavam níveis normais de densidade mineral óssea.

No grupo masculino, os resultados foram semelhantes: 11% sofria de osteoporose, 31% de osteopenia e os restantes não foram diagnosticados com nenhuma das condições. A maioria dos casos de osteoporose nas mulheres verifica-se entre os 56 e os 65 anos de idade, enquanto que a maioria dos casos no grupo masculino se situa entre os 66 e 75 anos.

O Dia Mundial da Menopausa assinalado a 18 de Outubro, também chama a atenção para esta condição, uma vez que ambas, menopausa e osteoporose estão interligadas.

Devido à panóplia de tratamentos já disponíveis, à contínua investigação científica, a uma maior divulgação e à melhoria das técnicas de diagnóstico, os doentes que sofrem de osteoporose não devem perder a esperança e acima de tudo, devem prevenir. É necessário praticar exercício físico com regularidade, ter uma alimentação equilibrada e manter adequados níveis de cálcio e vitamina D.

Ver mais:
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Autor:
Tupam Editores

Última revisão:
26 de Maio de 2017

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