PÂNCREAS, ESSE DESCONHECIDO

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PÂNCREAS, ESSE DESCONHECIDO

  Tupam Editores

De forma alongada e cónica, o pâncreas (do grego págkreas – todo carnoso) é uma glândula do aparelho digestivo situada transversalmente na parte superior da cavidade abdominal, atrás do estômago, entre o duodeno e o baço. Possui 10 a 15 cm de extensão e, no adulto, pesa aproximadamente 100g.

Podem distinguir-se três segmentos diferentes neste órgão: a cabeça, que corresponde à zona mais larga, orientada para a direita e adjacente ao duodeno, para onde desaguam as secreções digestivas; o corpo, que corresponde à parte central, mais extensa, que cruza a cavidade abdominal até à esquerda, por detrás do estômago e à frente da coluna vertebral; a cauda, que corresponde à área mais fina e estreita, que se prolonga até ao lado esquerdo do abdómen, próximo do baço.

O pâncreas é uma glândula mista, ou seja, tem uma dupla função: exócrina e endócrina. O pâncreas exócrino secreta enzimas digestivas, reunidas em estruturas denominadas ácinos. Os ácinos pancreáticos estão ligados através de finos canais, por onde a secreção é levada até um canal de maiores dimensões, desaguando no duodeno, durante a digestão.

O pâncreas endócrino é o responsável pela produção e secreção das hormonas insulina e glucagon. Quando a insulina não é produzida em quantidades suficientes para satisfazer as necessidades do organismo, origina a diabetes. Por seu lado, a hormona glucagon é responsável pela regulação dos níveis de açúcar.

Esta dupla actividade reflecte-se na anatomia do órgão. O pâncreas endócrino é composto por uma série de microscópicos grupos de células – os ilhéus de Langerhans –, distribuídos por todo o órgão, embora se situem principalmente na cauda, rodeados de acumulações de tecido pancreático, sendo responsáveis pela produção das enzimas digestivas, conhecidas por ácinos pancreáticos.

Os ilhéus de Langerhans têm uma estrutura muito simples, possuindo apenas dois tipos de células especiais: as células alfa, que fabricam o glucagon, e as células beta, que produzem a insulina. Ambos os tipos de células libertam as suas secreções para os pequenos capilares sanguíneos adjacentes.

Até à década de 70 era considerado um "órgão escondido" devido ao facto de a sua localização retroperitoneal dificultar o estudo pela radiologia convencional. É no entanto uma glândula que, devido à sua importância na digestão e produção de hormonas, é responsável por algumas doenças com relevância bastante significativa na prática clínica.

Sintomas e doenças do pâncreas

Quando o pâncreas deixa de funcionar adequadamente, a deficiência de produção e/ou da acção da insulina provoca a doença conhecida como diabetes mellitus. Este distúrbio envolve o metabolismo da glicose, das gorduras e das proteínas, tendo graves consequências, quer surja subitamente, quer se instale de forma progressiva.

A patologia apresenta duas formas clínicas. A diabetes tipo I, em que o pâncreas deixa de funcionar abruptamente em apenas algumas semanas ou dias, ocasionada pela destruição das células beta do pâncreas, as produtoras de insulina. Ocorre geralmente em função de um processo auto-imune, conduzindo a uma deficiência absoluta de insulina e surge na infância e adolescência.

A diabetes tipo II desenvolve-se predominantemente devido a um estado de resistência à acção da insulina, associada a uma relativa deficiência na sua secreção. Nesta situação o pâncreas passa a funcionar mais lentamente. A doença surge com mais frequência a partir dos 40 anos de idade e ainda se desconhecem as causas deste tipo de diabetes, que representa 90 por cento dos casos. As pessoas com predisposição genética, obesas ou com prática de vida sedentária e stressada estão mais susceptíveis.

Outro dos distúrbios do pâncreas, potencialmente muito sério, é a pancreatite. Trata-se de uma inflamação causada normalmente pela activação das próprias enzimas do suco pancreático no interior do órgão.

Os sintomas incluem enjôo e dor, podendo ser muito grave na área da junção das costelas com a zona média do peito. A pele do ventre também pode revelar-se muito macia e dolorosa ao toque.

pancreatite

São vários os factores que podem provocar a falha dos mecanismos protectores; a mais frequente é uma complicação provocada pela presença de cálculos nas vias biliares. Outra das causas conhecidas é o abuso do álcool, substância tóxica para o pâncreas cujo consumo excessivo origina a contracção do esfíncter de Oddi, a válvula que regula a passagem de suco pancreático e bílis para o intestino.

Com menor frequência, a pancreatite também surge em consequência do abuso na toma de determinados fármacos, principalmente alguns analgésicos e anti-inflamatórios. Pode também ficar a dever-se a infecção do órgão, traumatismos abdominais (especialmente em crianças), a complicações do cancro do pâncreas ou das vias biliares.

Há dois tipos de pancreatite, a aguda e a crónica. A pancreatite aguda requer a administração de analgésicos para reduzir a dor, bem como a total suspensão da ingestão de alimentos por via oral, de modo a evitar os estímulos à produção de enzimas pancreáticas. É necessário a hospitalização do doente e a permanência em unidade de cuidados intensivos para controle da evolução do distúrbio.

A pancreatite crónica requer, em primeiro lugar, o tratamento ou a interrupção de todos os factores que possam ter causado a inflamação, como por exemplo a suspensão absoluta da ingestão de álcool. As dores podem ser aliviadas com a administração de analgésicos (anti-inflamatórios não esteróides, acetaminofeno, propoxifeno e tramadol), com doses ajustadas a cada caso em particular.

A falta de suco pancreático e o consequente distúrbio digestivo são compensados com a administração de preparados enzimáticos por via oral que devem ser tomados às refeições.

Se, ainda assim, a dor for tão intensa e contínua que impeça uma vida normal ou se aparecerem complicações locais, poderá recorrer-se a cirurgia.

Para além das patologias referidas, a mais temida e letal é o cancro do pâncreas, conhecido como a doença silenciosa. Em Portugal é a sexta causa de morte por cancro no sexo masculino e a sétima no feminino, sendo responsável por quatro e cinco por cento das mortes por cancro, respectivamente.

Quando comparadas com outros países da União Europeia, estas taxas são relativamente baixas, mas os valores têm vindo a crescer significativamente nas últimas décadas (cerca de 0,9 por cento nos homens e 1,1 por cento nas mulheres, por ano).

A incidência desta neoplasia é ligeiramente superior no sexo masculino, sendo a diferença menos significativa nos mais idosos. O pico ocorre na sétima década de vida, sendo que dois terços dos doentes atingidos têm mais de 65 anos.

Nos indivíduos de raça negra a incidência é cerca de 40 por cento superior, sendo também mais elevada no sexo masculino. É um dos tumores mais letais, com poucos casos de sobrevivência após cinco anos.

Alguns dos factores de risco para a doença são o tabagismo (o risco aumenta proporcionalmente ao número de cigarros fumados, diminuindo 10 a 15 anos após a cessação do hábito), a obesidade, o historial familiar e algumas síndromes genéticas (síndrome de Lynch e síndrome do melanoma familiar).

Também a gastrectomia (ressecção do estômago) parcial, diabetes mellitus, pancreatites hereditárias, dermatomiosite (doença auto-imune da pele e músculos) e o alcoolismo são de destacar.

A exposição a certos químicos, como, por exemplo, naftilaminas do petróleo, benzidina, derivados da gasolina e insecticidas como o DDT, também aumentam o risco. Nas profissões incluem-se os trabalhadores das indústrias do petróleo, metais, gás industrial e químicos.

Distintos tumores malignos podem desenvolver-se no pâncreas. Primitivamente são do tipo carcinoma, formados a partir de células que constituem os ácinos glandulares, canalículos e canais pancreáticos. Podem surgir em qualquer zona do órgão, mas cerca de 70 por cento localizam-se na cabeça do pâncreas, 20 por cento no corpo e apenas 10 por cento se desenvolvem na cauda.

Os que se desenvolvem no corpo e na cauda passam despercebidos até às fases mais avançadas de evolução. Quando se manifestam já é tarde para aplicar tratamentos curativos. Os que se localizam na cabeça do órgão têm, por vezes, manifestações características que indiciam o problema, propiciando o seu diagnóstico.

Os sintomas mais frequentes da doença são a dor abdominal epigástrica, com frequente irradiação para a região dorsal, perda de peso, anorexia e icterícia, nos tumores da cabeça do pâncreas que comprimem as vias biliares excretoras. Os menos frequentes incluem fadiga, náuseas e vómitos, depressão, indigestão, falta de ar, pernas inchadas (edema), tosse e diarreia. O exame físico pode detectar caquexia (extremo emagrecimento e fraqueza, com perda da gordura subcutânea), uma massa abdominal palpável, ascite (líquido e distensão do abdómen) e icterícia.

A ausência de especificidade de qualquer destes sintomas em muito contribui para atrasar o adequado diagnóstico, por vezes em meses.

O diagnóstico do cancro do pâncreas implica a utilização de técnicas radiológicas de imagem. O teste definitivo é o exame patológico de uma amostra do tumor – a biópsia ou peça cirúrgica.

A ultrassonografia, a ecografia e a tomografia axial computorizada (TAC) do abdómen são os exames mais úteis. A colangiopancreatografia endoscópica retrógrada é um método mais invasivo mas importante no diagnóstico diferencial de tumores da junção pancreatobiliar, onde 85 por cento são originários do pâncreas, permitindo o estudo citológico do suco pancreático e por vezes a biópsia de áreas suspeitas.

Em tumores avançados, inoperáveis ou metastáticos, deve realizar-se uma biópsia aspirativa percutânea para confirmação do diagnóstico. Nos tumores aparentemente localizados e operáveis a biópsia está contra-indicada devido ao perigo de disseminação. Estes doentes são submetidos a cirurgia, sendo o diagnóstico confirmado pelo exame patológico da peça cirúrgica.

Pancreas

O tratamento da doença depende fundamentalmente do estádio de evolução do tumor. Na maioria dos casos o tratamento é muito difícil e a cura só é possível quando detectado precocemente, o que, pela ausência de sintomas na fase inicial, raras vezes sucede.

É essencial que o tratamento da doença seja conduzido por uma equipa médica multidisciplinar que inclua cirurgiões, oncologistas clínicos, radioterapêutas e endocrinologistas, entre outros especialistas.

A cirurgia é ainda o único tratamento curativo deste tipo de cancro, mas o procedimento cirúrgico depende da sintomatologia do paciente, tipo, localização e estádio do cancro.

A radioterapia é utilizada para atacar as células cancerosas, de forma a impedir que o tumor se desenvolva ou mesmo como recurso pré-cirúrgico, para fazer com que o tumor diminua de tamanho e possa ser removido.

A quimioterapia pode ser usada isoladamente ou concomitantemente com a radioterapia, para a redução do tumor, alívio dos sintomas e tratamento pós-cirúrgico.

Quando não há condições para a cirurgia, o tratamento deste tipo de cancro é meramente paliativo, incluindo, além da quimioterapia, o uso de medicação e procedimentos para alívio dos sintomas. Têm surgido nos últimos anos medicamentos eficazes, com reduzidos efeitos colaterais e de óptima tolerância que, apesar de ainda não proporcionarem a cura, possibilitam uma melhoria na qualidade de vida dos pacientes.

Investigação cria esperança

Ainda que actualmente o prognóstico deste tipo de cancro seja previsível, a comunidade científica tem vindo a desenvolver várias investigações com o objectivo de detectar e tratar precocemente a patologia.

Durante o ano passado foi desenvolvido um trabalho pioneiro no Centro de Investigação em Meio Ambiente Genética e Oncologia (CIMAGO) da Faculdade de Medicina de Coimbra, cujos resultados permitem prever, a curto prazo, uma metodologia capaz de distinguir as lesões que no futuro poderiam evoluir para cancro.

A investigação consistiu em análises genéticas de vários marcadores no ADN do líquido ou aspirado pancreático, recolhidos na biópsia, identificando as mutações que prevêem a evolução para a malignidade.

Desta forma, a análise genética seria feita muito antes da degeneração, o que poderia permitir uma terapêutica preventiva, ou seja, a cirurgia – que continua a ser o tratamento mais eficaz para estes tumores.

O objectivo dos cientistas é conseguir desenvolver uma técnica de diagnóstico mais segura e fiável, que permita detectar as lesões que poderão evoluir para malignidade, por forma a actuar preventivamente.

Uma outra investigação, muito recentemente divulgada pelo Gastroenterology, realizada por um grupo de cientistas de várias Universidades da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), revelou a utilização de biomarcadores para detecção da doença.

A equipa descobriu que a saliva contém biomarcadores para a detecção do cancro do pâncreas quando no primeiro estágio. Esta descoberta pode vir a permitir uma maior eficácia no tratamento da doença, até agora uma das mais mortais por ser sintomática apenas em fases mais avançadas.

Segundo Lei Zhang, um dos autores do estudo e investigador assistente na Faculdade de Odontologia da UCLA, os resultados do estudo vieram realçar o potencial dos diagnósticos salivares, que podem vir a desempenhar um papel fundamental na detecção do cancro e de outras doenças.

O cancro do pâncreas apresenta um índice de mortalidade elevado. Os exames de rotina não costumam detectar a doença precocemente. Por isso, a única forma viável das pessoas não se exporem é evitar os factores de risco.

Conhecendo o seu historial e os factores de risco mais comuns ao seu aparecimento, cabe a cada um afastar-se de hábitos que geram o tumor e procurar um profissional de saúde para uma avaliação mais detalhada. O médico poderá sugerir outros métodos eficazes de acompanhamento que visem a detecção precoce do cancro do pâncreas.

E a detecção precoce pode salvar-lhe a vida!

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