ADOLESCENTES GORDOS

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ADOLESCENTES GORDOS

  Tupam Editores

A prevalência de excesso de peso e de obesidade infantil e juvenil tem vindo a aumentar significativamente em todo o mundo. De tal forma que a OMS a definiu como a epidemia do século XXI dado que, pela primeira vez na história do Homem excedeu a da desnutrição, subnutrição e as doenças infecciosas.

Definida geralmente como uma acumulação anormal ou excessiva de gordura no tecido adiposo, a obesidade contribui anualmente para 2,6 milhões de mortes, revelando-se um fator de risco independente para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, estando por isso associada a um elevado risco de morbilidade e mortalidade, bem como à diminuição de anos de vida.

Nas duas últimas décadas tem-se assistido a um dramático aumento dos encargos com os cuidados de saúde, em crianças e adolescentes, devido à patologia e aos problemas que lhe estão associados. Segundo dados da International Obesity Task Force (IOTF), a nível mundial, uma em cada dez crianças é classificada como pré-obesa e aproximadamente 30 a 45 milhões são obesas.

Em Portugal o cenário é ainda pior. A taxa de prevalência de excesso de peso é de 53,6 por cento acima dos 18 anos de idade, sendo de 14,2 por cento os casos de obesidade. Em crianças entre os 7 e os 9 anos de idade a prevalência de excesso de peso é de 31,5 por cento, fazendo com que o país ocupe a segunda posição na lista de prevalência da obesidade infantil na Europa. Em média, a prevalência de pré-obesidade e obesidade aos 13 anos é de 14,4 por cento nos rapazes e 9,3 por cento nas raparigas, e de 8,2 e 6 por cento aos 15 anos, respetivamente.

No complexo período da adolescência, entre os 10 a 19 anos de idade, 14,8 por cento têm excesso de peso e 3,1 são obesos. Nesta fase de transição para a idade adulta, em que se processam importantes alterações bio psicológicas, o adolescente não só se encontra sob pressão das leis do crescimento e desenvolvimento corporal, mas fica também sujeito a uma renovação na estrutura e dinâmica de sua sensibilidade e percepções. Todos os efeitos da inter-relação do desenvolvimento pubertário com o desenvolvimento psico-afetivo e emocional acarretam, constantemente, perturbações de ordem emocional e instabilidade de natureza psicológica e afetiva, que a obesidade só vem exacerbar.

obese teenager

As preocupações com o corpo na adolescência são importantíssimas, não só pela noção ou opinião que os adolescentes têm de si, mas também pela ideia que têm, em relação aos olhares dos outros.

A aparência física assume, assim, um papel muito importante. A imagem que tem do seu corpo é fortemente influenciada pelo facto de o jovem se considerar como fisicamente robusto, o que pode conduzir a um estado de saúde populacional epidemiológico, com graves consequências para todos, que urge prevenir.

As causas e os responsáveis

A obesidade torna-se um problema de difícil solução, não só pela complexidade que apresenta, mas também pela complicada análise das suas causas.

Não é surpresa para ninguém que as principais causas da epidemia da obesidade sejam as mudanças no comportamento e no estilo de vida, especialmente no que respeita aos padrões alimentares.

Outros fatores como a genética, possuem, no entanto, igual peso no desenvolvimento da patologia. A obesidade costuma ser comum entre os membros da mesma família, o que sugere causa genética. No entanto, não se pode desprezar o facto de que os membros de uma família não partilham apenas os genes, mas a dieta e os hábitos de vida, o que pode contribuir para o aumento de peso.

Fatores ambientais, como o estilo de vida dos adolescentes, contribuem igualmente para a obesidade. E ainda que não se possa mudar a carga genética, podem mudar-se os hábitos alimentares e adotar estilos de vida mais ativos. A chave para isso é a prática de exercício físico e aprender a escolher refeições mais nutritivas e menos calóricas.

Os fatores psicológicos têm igualmente muito peso no desenvolvimento da doença pois muitas pessoas comem para compensar carências afetivas ou em resposta a emoções negativas como a tristeza, raiva, tédio ou solidão.

A dieta, obviamente, tem um papel determinante na regulação energética e constitui o principal fator desencadeante no desequilíbrio entre a entrada e o gasto energético.

Num mundo acelerado como o atual, tudo que ofereça comodidade e conveniência tem futuro garantido. É precisamente por ir ao encontro destas "necessidades", que a indústria fast food se tem conseguido enraizar nas nossas vidas. Os jovens são rodeados por produtos atrativos com grandes quantidades de açúcar, sal e gorduras, saborosos e duráveis, mas na maioria das vezes pobres em nutrientes. Para piorar a situação, na maioria dos países esses produtos são mais baratos e estão mais facilmente disponíveis do que as opções alimentares saudáveis.

A prática é comum em todas as classes socioeconómicas e facilmente evidenciada na sociedade atual onde os pais, com sobrecarga de horários de trabalho, têm pouco ou nenhum tempo para supervisionar a preparação dos alimentos e as refeições de seus filhos. Há mesmo evidências de que o padrão alimentar passa por alterações da infância para a adolescência – a ingestão de frutas, hortaliça e leite frequentemente decresce, enquanto o consumo de produtos com elevado teor de açúcares, gorduras e sal aumenta. Constata-se igualmente a omissão do pequeno-almoço.

A ocupação dos tempos livres das crianças e adolescentes também sofreu alterações. É hoje ocupado com atividades sedentárias, sobretudo na televisão, videojogos e internet.

As crianças gastam a maior parte do seu tempo livre a ver televisão (2 horas por dia), duração superior à recomendada, e que vai aumentando com a idade. Nesta fase da vida, estão bastante recetivas a qualquer estímulo proveniente do meio ambiente e não distinguem o que é ou não prejudicial para a sua saúde.

adolescente e tv

O seu tipo de publicidade favorito dirige-se para os alimentos, como chocolates, doces, refrigerantes e outros, ricos em gorduras, açúcar e sal, como por exemplo os snacks. A ajudar à festa, estes alimentos vêm frequentemente acompanhados de brindes, jogos ou associados a figuras que as crianças reconheçam e gostem, como figuras públicas ou heróis virtuais.

A televisão acaba por desempenhar um papel importante na génese da obesidade infantil, pois reforça o estilo de vida sedentário e promove uma alimentação desequilibrada. Apesar de a preocupação em relação à incapacidade das crianças em compreender a publicidade televisiva e pelos eventuais efeitos desta manipulação indevida sobre eles ter surgido pela primeira vez em meados dos anos 70, foi só recentemente, e num contexto de epidemia da obesidade infantil, que organizações como a OMS reconheceram o marketing dirigido às crianças como um provável fator responsável pelo aumento da incidência e prevalência desta patologia.

De tal forma que uma das recomendações da OMS para contrariar o aumento da obesidade é a restrição e regulamentação da publicidade a determinados produtos alimentares dirigidos aos mais novos, através da qual são criadas falsas necessidades.

Apesar desta realidade, em Portugal, como na maioria dos países, não existe ainda legislação no sentido de restringir o número de anúncios visualizados, nem qualquer abordagem aos seus conteúdos. A televisão constitui um instrumento de lazer profundamente integrado em todos os momentos da vida familiar, exercendo sobre ela um grau de influência superior a qualquer outra inovação tecnológica deste século. Esta funciona como uma máquina organizadora dos tempos livres, que os pais e agentes educadores têm a responsabilidade de vigiar, condicionar e reorientar, explicando o efeito, para evitarem o sedentarismo.

Aspectos do tratamento e da prevenção

A obesidade é uma doença de difícil controle, com uma elevada percentagem de insucesso terapêutico e de recidivas, podendo apresentar, na sua evolução, sérias repercussões orgânicas e psicossociais. As estratégias para o seu tratamento em crianças e jovens deveriam partir de equipas interdisciplinares, com a participação de profissionais desde o planeamento à execução das atividades, envolvendo professores de educação física, especialistas em nutrição e psicólogos, incluindo também profissionais responsáveis pelos cuidados escolares e uma orientadora educacional, não descurando a participação da família, essencial para o sucesso do tratamento.

jovem ginastica

O objetivo do tratamento na criança ou adolescente, após avaliação psicológica que permita detetar potenciais comportamentos de risco, é conseguir manter o peso adequado para a altura e, ao mesmo tempo, manter um crescimento e desenvolvimento normais. Os pilares fundamentais são as modificações de comportamento e de hábitos de vida que incluem mudanças na atividade física e no plano alimentar.

A atividade física deverá incluir, além dos movimentos quotidianos, marcha rápida, ciclismo, ginástica aeróbica ou outros passatempos ativos. A sua prática deve ser incentivada de forma a restringir o sedentarismo, mantendo uma atividade vigorosa de rotina de 30 a 45 minutos três vezes por semana.

No que respeita à farmacoterapia, ainda não foi estabelecido consenso sobre a forma de associar medicação às orientações para modificação do estilo de vida, em adolescentes.

As substâncias mais estudadas nesta população são o orlistato e a sibutramina. O orlistato pode ser utilizado acima dos 12 anos de idade, e a sibutramina em adolescentes acima dos 16 anos. Estudos recentes indicam que no período de um ano há maior perda ponderal nos grupos que utilizaram o orlistato ou a sibutramina em combinação com as medidas não farmacológicas. Faltam, no entanto, evidências de estudos de longo prazo que permitam afirmar que essa perda ponderal será sustentada, o que reforça ainda mais a necessidade de medidas de prevenção, que passam pela reeducação alimentar, pois não existe tratamento 100 por cento eficaz.

Os efeitos práticos da obesidade no adulto, a relação direta entre criança obesa-adulto obeso e os resultados desfavoráveis e frustrantes do tratamento na criança e adolescente tornam cada vez mais importante a sua prevenção. A escola representa um ambiente favorável para a ação preventiva, através do estímulo à formação de hábitos alimentares e de atividade física adequados.

criança e salada
Educar para estilos de vida saudáveis: como se come nas escolas?

As refeições escolares estão no centro das preocupações da OMS, União Europeia e do Conselho da Europa. Estas prendem-se com a regulamentação e orientações do tipo de ofertas alimentares, constituindo um referencial de suporte às escolas.

A qualidade e a quantidade dos géneros alimentícios, sólidos ou líquidos, ingeridos em meio escolar têm um impacto efetivo na saúde e bem-estar dos jovens. É na escola que passam um elevado número de horas sendo aí que ingerem uma parte substancial de alimentos.

Mas será o refeitório a melhor opção no que diz respeito a uma alimentação equilibrada?

A opção dos alunos pelo refeitório é vantajosa a todos os níveis: quer do ponto de vista nutricional, energético, quer da relação entre os diferentes nutrientes. Para além de a ementa possuir um valor nutricional equilibrado para as suas necessidades, os jovens têm garantias de higio-sanidade dos alimentos e do equilíbrio nutricional. Estes aspetos não devem ser descurados pelos alunos nem pelos encarregados de educação por serem fatores de equilíbrio alimentar que se refletirão mais tarde na sua saúde.

cantina da escola

O bufete/bar escolar é um espaço complementar e não alternativo ao refeitório escolar. Além de estar normalmente encerrado durante o horário de funcionamento do refeitório e, mesmo quando aberto, não apresenta alternativas saudáveis a uma refeição equilibrada e completa, pelo que não deve ser encarado como opção em detrimento do refeitório.

Há ainda alunos que, devidamente autorizados pelos encarregados de educação, optam por sair da escola e procuram um local público para almoçar, onde o desequilíbrio nutricional, os excessos calórico, de gorduras e/ou açúcares são práticas usuais. Os pais e encarregados de educação têm um papel fundamental na Educação Alimentar dos seus filhos. Desde cedo que lhes compete o papel de transmitir saberes, revelando condutas alimentares que ajudem a posterior modelação de comportamentos salutares dos seus educandos.

Por outro lado, cabe à escola uma função educativa, nomeadamente a transmissão de conhecimentos essenciais para o crescimento intelectual e cognitivo dos alunos. Assim, escola e famílias devem cooperar no sentido de uma educação para uma alimentação saudável.

adolescentes praticar exercício

Compete ainda aos pais incentivar os filhos a tornarem-se fisicamente ativos. A criança deve ter espaço e tempo para tudo: estudar, ver televisão, jogar videojogos, mas também para atividades de lazer e recreativas dinâmicas.

A educação alimentar não é um problema da atualidade, muito embora com o advir dos tempos tenha vindo a ganhar um estatuto de crescente importância.

A intervenção sobre os comportamentos alimentares e particularmente a abordagem ao excesso de peso, principalmente entre as crianças e jovens, é atualmente uma urgência de saúde pública.

Ver mais:
OBESIDADE MÓRBIDA A EPIDEMIA DO SÉCULO XXI
OBESIDADE, DOENÇA OU DESLEIXO


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