ANDROPAUSA

  Tupam Editores

A esperança média de vida aumentou dramaticamente no último século, com inevitáveis consequências no envelhecimento da população.

Prevê-se que entre 2000 e 2050 a percentagem da população com idade acima dos 60 e 80 anos vá, respetivamente, duplicar e quadruplicar, originando um enorme incremento do número de pacientes idosos na prática clínica diária.

Os problemas de saúde relacionados com a idade, incluindo a perda gradual da função reprodutiva no homem após a meia-idade fazem, cada vez mais, parte dos principais temas discutidos na comunidade médica.

No homem as alterações do funcionamento do eixo hipotálamo-hipófise-testículo revelam uma enorme variabilidade individual. Estas alterações, conhecidas por andropausa (andros = masculino, pausis = cessação), podem ter um início tão precoce como aos 40 anos ou tão tardia como 65-70 anos.

O termo andropausa permanece envolvido em grande polémica. Devido às diferenças entre a menopausa, muitos são os autores que não aceitam este rótulo preferindo utilizar termos como Deficiência Androgénica no Homem Idoso (ADAM), Deficiência Parcial Androgénica no Homem Idoso (PADAM), Deficiência Endócrina Parcial no Homem Idoso (PEDAM), Hipogonadismo de Início Tardio (LOH), menopausa masculina, entre outros.

Com o objetivo de preencher o vazio dos cuidados médicos no doente idoso, com especial preocupação na investigação da deficiência androgénica e, nomeadamente, na menor esperança de vida do homem em relação à mulher, foi criada, em 1998, a International Society for the Study of The Aging Male (ISSAM). Esta entidade recomenda a seguinte definição para andropausa: síndrome clínica e bioquímica associada ao envelhecimento e caracterizada por uma deficiência de androgénios plasmáticos com ou sem uma diminuição na sensibilidade genómica aos androgénios.

Esta deficiência androgénica está intimamente relacionada com a diminuição do número de células de Leydig funcionantes com o avançar da idade, bem como com as alterações do funcionamento do eixo-hipotálamo-hipófise-testículo que revelam uma deficiente resposta da produção de LH em resposta a um estado hipoandrogénico.

leydig cells

Diretamente envolvidos nas alterações das concentrações plasmáticas de testosterona observadas no envelhecimento, intervêm fatores hereditários e dietéticos, nomeadamente, a obesidade, stress, depressão, doenças crónicas como a diabetes, doença da artéria coronária, insuficiência renal crónica e abuso no consumo de álcool e tabaco.

Testosterona, a chave do problema

A testosterona é uma das hormonas mais importantes do sexo masculino. No homem adulto é responsável pelo controlo do desejo sexual (libido), pela ereção (capacidade de manter o pénis rígido) e pela fertilidade (capacidade de reprodução).

A potência sexual depende da testosterona. Ela é essencial para a produção de espermatozoides nos testículos, tendo efeito direto sobre a fertilidade. Do mesmo modo, a frequência dos orgasmos também está dependente da ação da hormona.

A testosterona é também responsável pelo fenótipo masculino e pelo desempenho físico. O fenótipo masculino é determinado pelo cromossoma XY pela atuação dos androgénios. A ação da hormona mantém o padrão masculino de desenvolvimento de pelos (como a barba e os pelos púbicos), aumenta a atividade das glândulas sebáceas e regula o conteúdo adiposo da pele.

A conservação da massa muscular, e portanto da força muscular, depende igualmente da testosterona. A sua ação influencia a proporção entre músculo e gordura, e a sua deficiência causa a redução do tecido muscular, com o consequente aumento do tecido gorduroso; estimula a formação de glóbulos vermelhos, que transportam oxigénio, fonte de energia para as células do corpo e seus processos metabólicos e estabiliza os ossos e a densidade óssea, o que caracteriza a sua resistência e dureza.

Para além de controlar o desenvolvimento das características sexuais do homem e as funções de reprodução, a hormona desempenha também um papel decisivo na saúde e no bem-estar físico e mental como um todo.

Os níveis de testosterona no homem adulto começam a diminuir a partir dos 40 anos de idade, com o envelhecimento. O nível sanguíneo total de testosterona cai, em média, um por cento ao ano. Mas não é apenas a diminuição da produção que causa a escassez da hormona. Com o envelhecimento verifica-se um aumento de certas proteínas sanguíneas de transporte que se unem à testosterona, bloqueando-a, impedindo assim que fique livre para exercer a sua ação biológica normal.

A concentração de testosterona no organismo de um homem adulto não afetado pelo envelhecimento varia entre 350 e 1015 ng/dL e flutua no decorrer do dia (ritmo circadiano). Os valores podem ser até 30 por cento mais elevados nas primeiras horas da manhã em relação à noite, no período entre as 18 e 22 horas, quando os níveis permanecem mais baixos. Essa flutuação ao longo do dia também diminui com o envelhecimento. Por essa razão, os homens mais idosos podem ter ereções matutinas com menos frequência.

Embora muitos homens apresentem deficiência de testosterona no decorrer do envelhecimento, existe uma grande diversidade individual. Há homens de idade avançada cujos níveis se mantêm no intervalo normal, sendo também possível observar indivíduos mais jovens com sinais precoces de deficiência de androgénios. Estas diferenças podem dever-se a fatores genéticos e ambientais, assim como ao estilo de vida, e não apenas ao envelhecimento.

A deficiência de testosterona conduz a sérias alterações de saúde. Os sinais e sintomas variam e dependem da percurso de vida de cada indivíduo.

Sinais e sintomas de deficiência

Algumas doenças e o próprio envelhecimento assemelham-se aos sinais da andropausa. A deficiência de testosterona manifesta-se clinicamente por múltiplos sintomas sexuais, ou menos específicos, que se refletem na diminuição de desempenho físico e mental e em problemas neuropsiquiátricos (como depressão, ansiedade, irritabilidade e dificuldade de concentração).

Os sintomas não específicos da andropausa raramente são reconhecidos como decorrentes de deficiência androgénica, sendo atribuídos ao stress causado pelo excesso de trabalho ou a dificuldades do quotidiano. Entre esses destacam-se as ondas de calor, suores, sensação de frio e palpitações.

Estes sintomas prejudicam a vida sexual provocando uma redução da libido e da capacidade de ereção. Aliás, um dos sinais mais evidentes da andropausa é a ausência de ereções espontâneas pela manhã. A infertilidade também pode ser outro sinal da condição pois é a testosterona que controla a produção de espermatozoides.

Conforme o grau de deficiência da testosterona, pode haver igualmente alterações da distribuição pilosa (crescimento reduzido da barba e diminuição de pelos), perda de massa muscular, o que induz à redução da força muscular e à tendência de aumento da distribuição da gordura (que se acumula principalmente no abdomen); distúrbios do sono e do humor, que originam uma diminuição da capacidade intelectual e orientação espacial, aumento do volume da próstata e fadiga.

A testosterona estimula também a produção de glóbulos vermelhos (hemácias). Em alguns homens a anemia pode, portanto, ser outro dos sintomas de andropausa. A diminuição da densidade óssea, ou osteopenia, que em alguns casos evolui para osteoporose, aumentando o risco de fraturas, é o agravar do quadro que, apesar de evoluir de forma lenta e progressiva, se acentua progressivamente em função do tempo de permanência com baixos níveis de androgénios.

Os efeitos nefastos sobre a qualidade de vida do indivíduo e os perigos a longo prazo da deficiência hormonal tornam o tratamento da andropausa essencial.

Tratamento

Há milhares de anos que os homens procuram fórmulas ou poções mágicas para manter a sua virilidade. Em certas regiões da Ásia, ainda hoje é comum o recurso a determinados "remédios" para a aumentar, pois sempre foi esse o foco principal do tratamento dos homens de meia-idade.

A medicina chinesa utiliza o pó de chifre do rinoceronte branco (prática que levou o animal à beira da extinção), o pénis de tigre e outros artigos, com o intuito de recuperar a virilidade. Várias culturas têm por hábito comer testículos de animais assim como utilizar plantas que, sem o saberem, contêm fito-hormonas (hormonas vegetais como a metoxi-isoflavona) com efeito químico semelhante à testosterona.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o principal objetivo da reposição hormonal é manter os níveis de testosterona próximos das concentrações fisiológicas.

A reposição está indicada quando a presença de sintomas sugestivos de deficiência androgénica for acompanhada de níveis séricos de testosterona total abaixo de 300 ng/dl e níveis de testosterona livre abaixo de 6,5 ng/dl3.

De entre os preparados de testosterona disponíveis em Portugal destacam-se os injetáveis, sendo os de administração intramuscular os mais frequentemente utilizados. Nos ésteres, as opções são o enantato (Testoviron) e uma mistura de quatro ésteres – propionato, fenilpropionato, isocaproato e decanoato –, cada um com semividas diferentes com o objetivo de prolongar a ação (sustenon).

testoviron

Nos androgénios orais o undecanoato (Andriol) é o único éster de testosterona oral eficaz e seguro para uso clínico por ser absorvido pelo sistema linfático e livre de efeitos hepatotóxicos. Além de minorar a sintomatologia tem reduzidos efeitos colaterais.

Os androgénios transdérmicos estão disponíveis em adesivos e geles. Os adesivos são de fácil utilização e, após uma aplicação noturna diária, proporcionam níveis fisiológicos de testosterona normais, mimetizando a variação circadiana dos adultos jovens. Além disso permitem a interrupção imediata do tratamento quando necessário. Testopatch é um dos medicamentos utilizados.

Os geles de testosterona (Testogel) são preparações hidroalcoólicas capazes de elevar rápida e eficazmente os níveis de testosterona para os seus limites normais. São geralmente bem tolerados e podem ser aplicados diariamente no mesmo local sem desencadear reação dermatológica. A relativa ausência de irritação da pele, associada à alta eficácia, faz do gel de testosterona um método transdérmico ainda mais favorável que os adesivos.

Antes de se iniciar qualquer tratamento de reposição hormonal com testosterona deve consultar-se um urologista, excluindo totalmente a iniciativa individual de quem sofre de andropausa. A reposição hormonal proporciona benefícios a vários níveis, mas também apresenta riscos que obrigam médico e doente a um acompanhamento continuado.

consulta andropausa

Três a seis meses após o início da medicação escolhida deve realizar-se um exame de toque retal e o teste PSA para verificar se houve alterações importantes que contraindiquem a terapêutica. A orientação médica nesta situação é o cuidado mais importante a ter.

A mulher e a andropausa

Para além das alterações fisiológicas marcadas pelo abrandamento na produção de hormonas sexuais, a meia-idade é também caracterizada por mudanças significativas a nível psicológico, emocional, social e de aparência física.

A andropausa, bem como a menopausa, não pode ser abordada unicamente como fenómeno biológico, mas como fase que influencia a expressão da sexualidade que, no processo de envelhecimento, permanece tabu.

Nesta fase da vida, em que ambos os géneros se veem confrontados com o envelhecimento e com as mudanças que lhe são inerentes, encontram-se perante um momento de reflexão que pode originar diferentes crises, reações e problemas relacionados com a vivência da sexualidade no casal, designadamente o desinteresse ou abandono.

a mulher e a andropausa

Perante a andropausa do companheiro, de modo a evitar situações de mal-estar ou que precipitem o fracasso das relações, a mulher deve procurar compreender os sintomas que o seu parceiro enfrenta, proporcionando-lhe o indispensável apoio.

O homem precisa de tempo para reconhecer as mudanças ocorridas no próprio corpo e os seus sintomas. Não entende porque tem vindo a perder a libido, interroga-se sobre o que poderá estar errado e fica nervoso durante as relações sexuais

Nesta etapa da vida, além de apoio, a mulher deve incentivá-lo a consultar um médico e falar abertamente dos seus problemas físicos e das suas frustrações mentais. Uma boa comunicação entre o casal vai melhorar o relacionamento.

Acima de tudo, para ultrapassar as mudanças impostas nesta fase do seu ciclo de vida, é imprescindível que o casal esteja devidamente preparado. Caso contrário, se não conseguir lidar com as alterações da sua vida sexual, a relação tende a fracassar.

Ver mais:
A EJACULAÇÃO PRECOCE
DST - DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS
FRIGIDEZ, DISFUNÇÃO SEXUAL NO FEMININO
LIBIDO
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ORGASMO FEMININO
SEXO


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