INSULINA, 100 ANOS A SALVAR VIDAS

INSULINA, 100 ANOS A SALVAR VIDAS

MEDICINA E MEDICAMENTOS

  Tupam Editores

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As comemorações do centenário da descoberta da insulina, promovidas pela Comissão Executiva das Comemorações do Centenário da Descoberta da Insulina, que conta com elementos que acompanharam mais de meio século da história da insulina, têm o patrocínio da Federação Internacional da Diabetes, entre outros e tiveram início na primeira semana de janeiro em Lisboa e vão prolongar-se ao longo de todo o ano, tendo por objetivo reforçar a importância da descoberta daquela hormona e divulgar os principais avanços no tratamento da diabetes, nos últimos 100 anos.

A descoberta da insulina foi um dos feitos mais notáveis da história da medicina moderna, cujo conteúdo é agora mostrado através da realização de eventos e de uma exposição itinerante que vai percorrer os principais centros do País, esperando-se que possa ser visitada em Coimbra, Porto, Funchal e Ponta Delgada, apesar da situação ainda indefinida da pandemia.

A insulina é uma hormona derivada da secreção interna de certas células do pâncreas que tem uma importante função no metabolismo dos açúcares, sendo capaz de facilitar a entrada de glicose nas células hepáticas ou, por outro lado, favorecer a glicogénese, ou seja, o processo bioquímico de armazenamento da glicose no fígado e músculos.

Foi descoberta em 1921 por F. Banting tendo como assistente Charles Best, no laboratório do professor de fisiologia J. J. R. MacLeod, durante experiências que tinham como objetivo o isolamento da secreção pancreática interna. Após terem obtido sucesso em experiências com cães, iniciaram experiências em humanos a 11 de janeiro de 1922, num rapaz de 14 anos em estado crítico, a quem numa primeira fase injetaram 15 ml de extrato hepático, não tendo então obtido efeitos na redução da glicose e corpos cetónicos na urina e tendo provocado efeitos colaterais inesperados. Perante esses resultados, juntou-se ao grupo o biólogo James Colip que depois de purificar o extrato pancreático conseguiu reduzir os efeitos colaterais, e que aplicado de novo no mesmo paciente obteve respostas positivas no tratamento.

Pela descoberta da insulina, os canadianos F. Banting e J. J. R. MacLeod, foram laureados com o prémio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1923, uma descoberta revolucionária que pôs termo a uma doença incurável que desde os tempos mais remotos dizimou milhares, ou talvez milhões de pessoas.

A primeira insulina a ser comercializada foi a “regular”, que devido ao seu efeito rápido, necessitava de 3 a 4 aplicações para um controle efetivo da glicemia, facto que causava queixas sucessivas de pacientes e familiares. Isso levou a que investigadores e indústria farmacêutica se unissem para estudarem a melhor forma de prolongar o tempo de ação da insulina, o que viriam a conseguir entre as décadas de 1930 e 1940.

Em 1936, os investigadores Scott e Fisher lograram sintetizar a insulina PZI (Protamine-Zinc-Insulin) e em 1946, o investigador Hagedorn sintetizou uma insulina intermédia denominada NPH (Neutral Protamine Hagedorn) que prolongava o tempo de ação da hormona, diminuindo assim o número de aplicações diárias.

Durante décadas, este tipo de insulinas foi usado regularmente a nível mundial para o tratamento da diabetes. No entanto, ao longo da prática clínica, foram observadas reações adversas como alergias, lesões no tecido subcutâneo e resistência à insulina, deixando perceber a necessidade de evolução do medicamento.

Daí até à produção das insulinas biossintéticas humanas através das novas tecnologias de DNA recombinante dos anos setenta foi um salto.

Através de manipulação genética, em finais dos anos noventa verificaram-se novos avanços na produção de insulinas sintéticas, de que resultaram as insulinas de ação ultrarrápida, lispro e aspártico, que vieram diminuir o tempo de ação e a duração do efeito da insulina regular, tornando-as semelhantes, em termos de ação fisiológica, à que é naturalmente produzida pelo pâncreas.

Entretanto, novos avanços se registaram em 2001 com a descoberta da insulina de ação prolongada denominada glargina, com propriedades de absorção e duração mais lenta quando comparada com a insulina NPH, diminuindo assim os episódios de hipoglicemias que antes ocorriam.

Tendo em vista a melhoria no tratamento da diabetes, a fim de proporcionar um melhor controle glicémico dos pacientes e consequentemente uma melhor qualidade de vida, surgiram posteriormente, em 2004 e 2012, as insulinas detemir e degludec de ação prolongada, que através de uma única aplicação diária permite ao paciente manter níveis estáveis de açúcar no sangue durante todo o dia.

Tipos de diabetes

À luz do conhecimento atual, a diabetes é conhecida desde pelo menos 1550 anos a.C., sendo mencionada no papiro de Ebers, um dos tratados médicos mais antigos e importantes que se conhece, e que foi encontrado num túmulo de Tebas, antiga capital do Egipto em 1862, pelo egiptólogo George Ebers de quem o nome deriva. Trata-se de um enorme documento com cerca de 20 metros de comprimento e 30 centímetros de largura. Nele é mencionado que para o tratamento da diabetes, era recomendado um estranho extrato líquido de ossos, trigo, erva e terra, e tinha a duração de 4 dias.

O papiro de Ebers contém mais de 700 fórmulas mágicas e remédios além de uma descrição precisa do sistema circulatório, de anatomia humana e fisiologia.

A diabetes é uma doença crónica de longa duração, que ocorre quando o organismo não consegue produzir insulina suficiente ou não consegue utilizar a que produz. A insulina produzida pelo pâncreas é essencial para transportar a glicose do sangue para as células de todo o corpo onde é utilizada para produzir energia.

Quando este elemento está em falta ou não atua de forma adequada, os níveis de glicose (açúcar) no sangue sobem e com o passar do tempo os seus níveis elevados (hiperglicemia), podem provocar danos em vários tecidos corporais, originando problemas limitadores ou irreversíveis potencialmente fatais.

Há dois tipos de diabetes. A diabetes tipo 1 que geralmente acomete as crianças e adolescentes, concentrando entre 5 a 10 por cento do total das pessoas portadoras da doença, também designada por autoimune pelo facto do sistema imunológico atacar as células beta, responsáveis pela produção de insulina, limitando ou impedindo assim que esta seja libertada para o organismo.

Não sendo absorvida pelas células, por motivos ainda não totalmente conhecidos, a glicose acumula-se na corrente sanguínea, sendo por isso necessário retirá-la a fim de evitar uma hiperglicemia. Para o fazer, os médicos prescrevem habitualmente, além de insulina, exercício físico regular e o seguimento de uma dieta rigorosa.

Mantendo o tratamento diário com insulina, monitorização regular da glicose no sangue e uma alimentação e um estilo de vida equilibrados, as pessoas com diabetes tipo 1 podem ter uma vida normal e saudável.

Já a diabetes tipo 2 é o tipo mais comum que atinge os adultos embora tenha surgido cada vez mais entre as crianças e adolescentes, pensa-se que devido a fatores genéticos, sedentarismo e hábitos alimentares. Nas pessoas portadoras de diabetes tipo 2, o organismo mantém a capacidade de produzir insulina, mas torna-se-lhe resistente fazendo com que perca a eficácia.

Ao fim de algum tempo, os níveis de insulina demasiado baixos adicionados à resistência criada pelo organismo, conduzem a um aumento de glicose no sangue na diabetes tipo 2. Contrariamente à diabetes tipo 1, as pessoas com diabetes tipo 2 podem não precisar de tratamento diário com insulina para sobreviver. O tratamento fundamental para a diabetes tipo 2, além da adoção de uma dieta saudável, inclui o aumento da atividade física, gestão do peso corporal e a toma da medicação, normalmente através de comprimidos ou cápsulas e em alguns casos terapia injetável.

O papel da APDP

A Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP) foi fundada pelo médico diabetologista Ernesto Galeão Roma em 1926, sendo reconhecidamente a mais antiga de todas as associações de diabéticos do mundo.

Enquanto médico estagiário no Massachussetts General Hospital, ali testemunhou os primeiros “milagres” com a insulina, que salvou a vida e restituiu a saúde às crianças e adultos com diabetes, que até essa altura estavam condenados a uma inevitável morte a curto prazo. Regressado a Portugal em 1926, indignado com o número de mortes das pessoas pobres com diabetes, que não tinham meios para adquirir a insulina recentemente descoberta, mobilizou pessoas da burguesia seus clientes e amigos, para criar a Associação Protetora dos Diabéticos Pobres (hoje APDP - Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal), a primeira associação de diabetes do mundo.

Em homenagem ao seu fundador e impulsionada pela vontade de implementar uma vertente exclusivamente dedicada à Educação da Pessoa com Diabetes e ao apoio da formação contínua de todos os profissionais que lidam com a doença, a APDP criou em 2005 a Fundação Ernesto Roma, uma instituição sem fins lucrativos, que se vem juntar às demais valências da Instituição.

Ao longo dos anos a APDP foi adaptando as suas funcionalidades, tendo-se tornado uma casa de educação terapêutica, com melhor conhecimento das complicações tardias da doença e uma instituição multidisciplinar de apoio e seguimento das pessoas diabéticas, que se mantém até aos nossos dias, acompanhando atualmente mais de 50 mil pessoas por ano e fazendo cerca de 5 mil novas consultas anuais.

A Fundação possui hoje vários Departamentos especializados em Cardiologia, Cirurgia Oftalmológica, Diálise, Dietética, Investigação, Nefrologia, Oftalmologia, Pediatria, Planeamento Familiar, Podologia, Urologia e são levadas a cabo inúmeras iniciativas na área da Investigação e Educação através de parcerias com várias Universidades e Institutos, tendo-se tornado na primeira instituição a ser reconhecida como Centro de Excelência pela Federação Internacional de Diabetes.

Autor:
Tupam Editores

Última revisão:
09 de Abril de 2024

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