ALIMENTAÇÃO ANTICANCEROSA

  Tupam Editores

Por todo o mundo milhões de pessoas convivem com o diagnóstico de cancro. A investigação persistente e contínua numa área de intervenção tão importante como esta torna-se, inquestionavelmente, necessária.

Em Portugal morrem, anualmente, com a doença 20 a 25 mil pessoas (1/4 a 1/5 da mortalidade global). O cancro constitui, assim, a segunda causa de morte no nosso país, depois das doenças cardiovasculares (acidentes vasculares cerebrais, enfartes do miocárdio, etc).

Por género, a mortalidade por cancro é mais elevada no masculino do que no feminino (1,8 homens; 1,0 mulheres), sendo os mais mortais os cancros do pulmão, cólon, reto e estômago (em ambos os sexos), e os da mama e da próstata na mulher e no homem, respetivamente.

Os índices de mortalidade por cancro continuam a aumentar em Portugal e, de acordo com estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2030 o cancro vai matar mais de 32 mil portugueses por ano – o que significa um aumento de 34,5 por cento em relação ao presente.

Segundo os peritos da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Cancro, da OMS, no conjunto de todos os países, o número de doentes e de mortes vai mesmo duplicar, prevendo-se para a década de 2030 cerca de 13,2 milhões de vítimas mortais.

Perante cenário tão assustador – tal como o é a própria palavra –, é urgente repensar e criar uma nova forma de viver, de modo a alterar estes números, até porque é possível prevenir o cancro.

O termo cancro diz respeito a um grupo heterogéneo de doenças malignas com uma característica em comum: a divisão descontrolada de células de um órgão ou tecido. Normalmente, as células crescem e dividem-se para formar novas células. No seu ciclo de vida envelhecem, morrem e são substituídas por novas células. Mas, por vezes, este processo ordenado e controlado corre mal: formam-se células novas sem que o organismo delas necessite e, ao mesmo tempo, as células velhas não morrem. Este conjunto extra de células forma um tumor.

O nome dado à maioria dos cancros provém do tumor inicial, isto é, o cancro do pulmão começa a desenvolver-se no pulmão e o cancro da mama tem início na mama. As células cancerígenas podem "viajar" para outros órgãos, ou seja, disseminar-se através do sistema sanguíneo ou linfático podendo conduzir à formação de tumores secundários ou metástases, noutros órgãos ou tecidos.

Quando metastiza, o novo tumor tem o mesmo tipo de células anormais do tumor originário. Assim, se o cancro da mama metastizar para os ossos, as células cancerígenas nos ossos serão células do cancro da mama. Neste caso está-se perante um cancro da mama metastizado e não um tumor ósseo, devendo ser tratado como cancro da mama.

Muitas vezes a medicina não consegue explicar por que é que uma pessoa desenvolve cancro e outra não. Sabe-se no entanto, existirem alguns fatores de risco que aumentam a probabilidade de vir a desenvolver a doença.

São eles o envelhecimento, tabaco, luz solar, radiação ionizante, determinados químicos e outras substâncias, alguns vírus e bactérias (por exemplo, vírus do Papiloma humano (HPV), hepatite B e C, vírus da imunodeficiência humana (HIV), vírus de Epstein-Barr (EBV), vírus do Herpes Humano 8 (HHV8), Helicobacter pylori), determinadas hormonas, álcool e, ainda, uma dieta pobre, a falta de exercício físico ou o excesso de peso.

Alguns destes fatores de risco são evitáveis, como é o caso da exposição excessiva à luz solar, o tabaco, álcool, falta de exercício físico e a dieta rica em gorduras.

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A alimentação como fator precursor

Em 1931 Otto Heinrich Warburg recebeu o Prémio Nobel pela sua tese "A causa primária e a prevenção do cancro". Segundo o cientista, o cancro é o resultado de uma alimentação e estilo de vida antifisiológicos.

O seu trabalho teve por base o estudo do metabolismo dos tumores e a respiração das células, particularmente as células cancerígenas, tendo chegado à conclusão de que a causa primária do cancro é uma deficiência de oxigénio, provocada por uma intoxicação do sangue.

Ao longo dos anos a existência de uma relação entre a alimentação e a ocorrência de cancro nos humanos tem vindo a ganhar força. Apesar de ainda se desconhecer quais os alimentos diretamente relacionados com a origem e desenvolvimento dos tumores cancerígenos, sabe-se que cerca de 35 por cento têm origem em fatores alimentares.

Existe uma grande quantidade de compostos presentes em alguns alimentos processados, considerados responsáveis por favorecer o desenvolvimento do cancro. Não obstante a lista de substâncias químicas ser extensa, existem alguns alimentos cujo consumo se deveria evitar.

Um desses alimentos é o cachorro quente (hot dog). As salsichas contêm níveis elevados de sal e nitratos, considerados altamente cancerígenos, já para não falar da carne, muitas vezes de duvidosa qualidade. O habitual acompanhamento com pão branco também não ajuda.

As carnes processadas também possuem níveis elevados de nitrato de sódio, um reconhecido cancerígeno, utilizado para proporcionar a tradicional cor rosada e o aspeto "fresco" à carne comercializada. Quando ingerido, aquele nitrato converte-se em nitrosamina, também altamente cancerígeno, embora esteja bem explícito nos rótulos das embalagens.

As batatas fritas dispensam qualquer apresentação. Para além de serem preparadas em gordura hidrogenada e cozinhadas a altas temperaturas, há mesmo algumas cadeias alimentares de fast food que lhe acrescentam açúcar, para tornar o sabor mais agradável.

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No que respeita à doçaria, os donuts são um alimento muito apreciado pela população em geral. Trata-se, no entanto, de uma bomba de açúcar que destrói a nossa produção de insulina natural. Já para não falar do facto de serem elaborados com farinha refinada, que inclui flúor e gordura hidrogenada e fritos a altas temperaturas. É outro dos alimentos, se assim se pode chamar, a evitar.

Ainda na doçaria, as bolachas são outro "alimento" cujo consumo deve ser controlado. Existem bolachas de muitos tipos e sabores variados, mas todas elas têm em comum o facto de serem confecionadas com farinha branca, flúor, açúcar e, claro, com gordura hidrogenada.

Esta recomendação é extensível em geral aos alimentos com elevado conteúdo de glucose, não podendo ser designados por "naturais". Um bom exemplo são os hidratos de carbono simples, como a farinha e o arroz brancos, entre outros alimentos, que foram desprovidos das suas verdadeiras propriedades nutritivas.

Uma fonte muito comum de açúcar refinado são as bebidas gasosas, que ainda incluem outros ingredientes muito nocivos para a saúde.

Deve ter-se cuidado com os alimentos que contenham gordura hidrogenada, ou parcialmente hidrogenada, normalmente utilizada para conservar os alimentos enlatados durante mais tempo. Na realização do processo, o azeite é aquecido em presença de hidrogénio e catalisadores metálicos, o que dá origem às chamadas gorduras transgénicas.

Está comprovado que o consumo de gordura hidrogenada é responsável por doenças como a diabetes, obesidade, problemas hepáticos, destruição ou degradação das células, doenças coronárias e cancro.

Além disso, esta gordura não fornece ao organismo os ácidos gordos essenciais de que necessita, fazendo com que se tenha de comer mais. Isto afeta inclusive o aporte de oxigénio do corpo, cenário ideal para que o cancro se desenvolva – níveis elevados de açúcar e níveis baixos de oxigénio.

Mas se, por um lado, uma alimentação pouco equilibrada pode aumentar o risco de formação de tumores cancerígenos, por outro, a natureza põe à nossa disposição uma grande variedade de alimentos que podem atuar como protetores da doença.

Prevenir é possível

Nas suas multifacetadas formas, o cancro é uma das doenças que mais vidas rouba em todo o mundo. Se não forem diagnosticados precocemente, por forma a prevenir-se o seu desenvolvimento, todos os tipos têm em comum o facto de se tornarem letais.

No que respeita à prevenção, o primeiro elemento a considerar é uma mudança nas rotinas alimentares e a adoção de hábitos saudáveis. A prática de exercício físico com alguma regularidade e o abandono do tabaco são medidas fundamentais para quem quer investir na sua saúde.

Uma investigação da OMS revelou que um quarto dos casos de cancro da mama e do cólon poderia ser evitado se os doentes praticassem atividade física durante uma hora e meia por semana. Este quadro torna-se ainda mais preocupante quando se analisam os dados sobre o sedentarismo em todo o mundo. Segundo números daquela entidade, pelo menos um terço da população mundial é sedentária.

A prevenção do cancro é mais fácil do que se pensa e requer apenas algumas alterações no estilo de vida. Medidas simples como evitar o consumo de alimentos ricos em açúcar e gordura ajudam na prevenção. A ingestão excessiva de calorias conduz ao aumento do peso corporal, deixando pouco espaço para o consumo de alimentos saudáveis, responsáveis pela prevenção da doença.

Entre esses alimentos estão os produtos hortícolas e os frutos. O seu consumo regular está relacionado com um menor risco de desenvolvimento de cancro do pulmão, boca, esófago, do estômago e cólon, pela sua riqueza em vitaminas, minerais, fibras, antioxidantes e fitoquímicos. A OMS recomenda o consumo de, pelo menos, 400 gramas de hortofrutícolas por dia.

Frutas e legumes

Devem igualmente introduzir-se na dieta as leguminosas. A sua riqueza em fibras, vitaminas e minerais contribui para a diminuição de risco de cancro do cólon, estômago, pulmão, útero e ovário. Segundo a nova Roda dos Alimentos, o consumo de leguminosas deve ser de 1 a 2 porções diárias.

Os alimentos à base de cereais integrais têm também um efeito protetor pela sua riqueza em fibras e pela presença de hidratos de carbono fermentescíveis.

O consumo de carnes vermelhas e processadas industrialmente (enchidos, fiambre), ricas em gordura saturada e colesterol, deve ser limitado por serem consideradas potencialmente responsáveis pelo aumento do cancro colorretal, pulmão, mama, endométrio e próstata.

Enchidos

Em alternativa deve optar-se por carnes brancas (aves, coelho, caça) e peixe, como a sardinha e o salmão – fontes de ácidos gordos e ómega-3 –, por possuírem efeito protetor contra o cancro.

A ingestão de bebidas alcoólicas deve ser moderada. O seu consumo excessivo aumenta o risco de desenvolvimento de cancro da boca, laringe, faringe e esófago, e o risco associado ao álcool é ainda maior quando as pessoas são simultaneamente fumadoras. A água deve ser a bebida de eleição.

Quantidades elevadas de sal (fonte de sódio) e os alimentos fumados e carbonizados também devem ser evitados, por poderem conter compostos cancerígenos. O recurso às ervas aromáticas e especiarias para temperar os alimentos deve tornar-se rotina, numa alimentação preventiva do cancro.

As gorduras utilizadas para cozinhar, como a manteiga, margarina e óleos vegetais que alteram a sua estrutura molecular com temperaturas elevadas, podendo formar substâncias cancerígenas, devem ser usadas com parcimónia.

O azeite, nutricionalmente rico em ácidos gordos monoinsaturados, deve ser a gordura a utilizar, com vista a diminuir o risco de desenvolver cancro da mama, cólon, ovário e próstata.

Um fator também muito importante é o bom acondicionamento dos alimentos, de maneira a evitar o aparecimento de substâncias potencialmente cancerígenas. O armazenamento inadequado dos cereais em locais húmidos pode levar ao aparecimento de aflatoxina, relacionada com o cancro do fígado.

Para além dos cuidados com a alimentação, é importante conhecer o historial médico da família e determinar se houve casos de cancro, de modo a avaliar o seu fator de risco.

Também o local de trabalho é importante. Os agentes químicos, gases de combustíveis, arsénio, berílio, produtos de carvão e gás mostarda são alguns dos carcinógenos com que se pode estar em contacto. Esta exposição deve ser limitada ao mínimo.

Muito importante também é a realização de um check-up médico regular, útil para detetar, mas também prevenir, o cancro.

As investigações sobre o cancro continuam e os meios de comunicação não param de nos bombardear com os resultados de novos estudos epidemiológicos ou com um novo composto derivado de alguma estranha planta amazónica. Ainda assim, o fantasma do cancro continua a tornar-se real para milhões de pessoas todos os dias, sem que ninguém encontre a fórmula correta para o erradicar definitivamente das nossas vidas.

Talvez a resposta seja muito complicada... ou talvez tão simples que a tenhamos esquecido.

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