BURNOUT E FADIGA POR COMPAIXÃO

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BURNOUT E FADIGA POR COMPAIXÃO

  Tupam Editores

Empatia é a capacidade psicológica de tentar compreender sentimentos e emoções das outras pessoas como se estivéssemos no seu lugar. Em algumas profissões, ser empático é essencial para um bom desempenho.

À primeira vista, a medicina veterinária não seria considerada uma profissão na qual se exerce empatia, uma vez que se lida diretamente com animais e não com pessoas. No entanto, a empatia não se limita aos que são semelhantes a nós, e os veterinários são, muitas vezes, empáticos a dobrar: com o animal em tratamento, e com o seu tutor – um cenário propício ao desenvolvimento de duas síndromes: burnout e fadiga por compaixão.

Se pensa que são males dos tempos modernos, está enganado. Ainda que o assunto tenha começado a ser discutido apenas no final do século XX, pode dizer-se que a síndrome da exaustão profissional, ou burnout, teve início com a Revolução Industrial. E o pior é que, até agora, nada foi feito para evitar ou amenizar a sua ocorrência.

Na verdade, os fatores de risco para o seu desenvolvimento têm vindo a aumentar, pois exige-se cada vez mais dos trabalhadores e a sua remuneração nem sempre está de acordo com o grau de qualificação.

Veterinária, cão eutanásia

Os profissionais da área da saúde são os que apresentam um dos maiores índices de burnout, pois além de todos os fatores determinantes de stress, comuns a todas as profissões, eles estão também sujeitos à fadiga por compaixão, que ocorre principalmente nos que têm maior contacto com pacientes terminais ou que passaram por situações traumáticas, como por exemplo, guerras, atentados terroristas, abuso sexual, entre outros.

No que diz respeito aos médicos veterinários, estes têm um fator de risco acrescido em relação aos demais profissionais da área da saúde, que é a indicação e a realização de eutanásia nos seus pacientes.

Os profissionais de saúde animal lidam com a morte dos seus pacientes três vezes mais do que os profissionais da saúde humana. Participam, aliás, em várias dessas mortes, o que gera situações traumáticas incomparáveis pelo simples facto de que na saúde humana os profissionais “não têm de matar os seus pacientes”.

E ainda que a presença de síndrome de burnout entre os profissionais de saúde já não seja novidade, a fadiga por compaixão é pouco conhecida e entendida, podendo mesmo gerar-se alguma confusão entre os dois tipos de síndrome.

Burnout vs Fadiga por compaixão

Burnout e Fadiga por compaixão, apesar de apresentarem sintomatologia e forma de prevenção semelhantes, são dois problemas distintos. Ambas se relacionam com o tipo de profissão, mas enquanto o primeiro está mais ligado ao ambiente de trabalho, o segundo depende mais das características de personalidade do indivíduo, sendo mais comum nos profissionais mais empáticos e emotivos.

O burnout é uma condição de sofrimento psíquico relacionada com o trabalho, ou seja, não é um problema do indivíduo, mas do ambiente social no qual trabalha, de modo que qualquer profissional que passa por situações stressantes no seu ambiente de trabalho, pode vir a desenvolvê-lo. Além de afetar negativamente o seu bem-estar pessoal e profissional, prejudica a qualidade do serviço prestado.

Os veterinários trabalham em média de 44 a 54 horas semanais e esta carga horária elevada, somada ao desequilíbrio entre a vida pessoal e profissional, contribuem para o aumento do stress na profissão.

Além disso, é a única área da saúde em que o profissional precisa de recomendar e, na maioria das vezes, realizar a eutanásia nos seus pacientes, sendo este processo reconhecidamente um fator de stress.

Em comparação com outras profissões, a medicina veterinária é a que tem maior repercussão negativa na vida pessoal, ou seja, é a que mais apresenta problemas nas relações interpessoais com familiares e amigos.

Fadiga constante, dor muscular na região cervical e lombar, distúrbios do sono, cefaleias, gastrite, queda de imunidade, transtornos cardiovasculares, disfunções sexuais, alterações menstruais, falta de concentração, alterações de memória, baixa autoestima e desânimo são as consequências desta síndrome para o indivíduo. No trabalho as sequelas podem ser negligência, imprudência, perda de qualidade e aumento da predisposição para acidentes por falta de atenção.

Veterinário com cão ao colo

A fadiga por compaixão, também conhecida por distúrbio pós-traumático secundário, é a exaustão física, emocional, psicológica e espiritual, em que é necessária uma troca de empatia, emoções e informações entre o paciente e o profissional, seja ele médico, enfermeiro, cuidador, médico veterinário, ou psicólogo.

O desenvolvimento deste distúrbio está ligado não só ao grau de exposição do indivíduo aos eventos traumáticos sofridos por outrem, mas também às suas características de personalidade.

De certa forma, para que a fadiga por compaixão ocorra basta apenas ser alguém que “se preocupa demais”. Os médicos veterinários, além da preocupação também desenvolvem grande afeição pelos seus pacientes, o que aumenta o risco de desenvolverem o distúrbio. Há que ter em mente que as consequências da fadiga por compaixão não são óbvias, principalmente para o indivíduo por ela acometido.

Veterinária sentada á janela

Estas consequências, de ordem psicológica, social e física, manifestam-se por sinais como: dificuldade de concentração; abatimento e torpor; sentimento de impotência para resolver todos os problemas; diminuição do estado de saúde geral; problemas gastrointestinais; dores de cabeça; cansaço; exaustão; insónias; irritabilidade; desesperança; culpa excessiva; diminuição do rendimento profissional; questionamentos sobre a vida, a profissão e a importância e competência pessoais; conflito com outros (dentro e fora do ambiente profissional); deterioração das relações interpessoais,  diminuição da compaixão pelo próximo.

Assim, não surpreende que a medicina veterinária seja uma das profissões com os mais elevados índices de risco de suicídio.

Uma pesquisa realizada nos EUA, pelo Centers of Disease Control (CDC), a mais de 10 mil veterinários (69 por cento eram clínicos de pequenos animais) revelou que um em cada seis veterinários já tinham pensado em cometer suicídio. A ideação suicida é um tema muito grave e importante que, quando diagnosticado deve ser tratado por um profissional habilitado.

Estratégias para controlar a doença e apoios ao médico veterinário

Sabe-se que existem ambientes de trabalho extremamente tóxicos, cercados por estímulos stressantes e com condições propícias a provocar doença aos funcionários.

A área da saúde animal, com as suas características e dificuldades particulares, pode ser fonte de stress intenso para quem nela trabalha e dar origem, a médio e longo prazo, a problemas como a fadiga por compaixão, burnout, stress moral, ansiedade e depressão. Não se deve esperar que o quadro de doença se instale para só então se tomar alguma atitude.

Na verdade, perante os sinais de doença o profissional deve adotar algumas estratégias simples para evitar a sua progressão:

Confiar nos seus limites: algumas pessoas orgulham-se de dizer que assumem vários compromissos ao mesmo tempo. O facto pode ser invejável, mas quando é que param? E será que a qualidade do trabalho se mantém igual? O profissional deve ser honesto consigo próprio e assumir apenas o que pode e sabe fazer bem.

Veterinário com animais

Não ficar “pendurado” nos dispositivos eletrónicos 24h por dia, ou será impossível desligar-se das obrigações do trabalho a aproveitar momentos de lazer e tranquilidade – imprescindíveis para recuperar a energia de um dia stressante. É importante dar valor aos momentos de descanso, mas descansar realmente.

Ter hábitos saudáveis: praticar exercício com frequência e alimentar-se adequadamente é extremamente importante.

Os dias muito atarefados podem fazer com que a alimentação fique “para depois” para se ganhar tempo, o que é um erro grave. Uma alimentação rica em alimentos saudáveis fornece mais energia para enfrentar os dias cheios, assim como uma boa noite de sono, que não deve ser descurada.

Tentar encontrar um equilíbrio entre as diversas áreas da vida: família, sociedade, trabalho, estudo. Uma não é mais importante que outra.

Deve investir nas boas relações sociais e estar mais com as pessoas que lhe fazem bem, e procurar alimentar uma boa relação com os colegas de trabalho.

Procurar aprender com os erros e valorizar os sucessos: o excesso de trabalho pode aumentar as hipóteses de se cometerem erros, mas estes não devem ser sobrevalorizados.

O veterinário, contudo, pode não estar em condições de mudar os seus comportamentos sozinho. Não é uma tarefa fácil para alguém que está em sofrimento “dizer não quando necessário”, “manter-se em contacto com outros veterinários e profissionais da área”, “pedir ajuda quando dela precisa”, e “equilibrar trabalho e lazer”.

E é aí que o psicólogo se torna um elemento fundamental – para avaliar o que esse profissional realmente precisa, e montar um plano de trabalho conjunto, com metas realistas e objetivas.

Recentemente – também para dar apoio a veterinários e enfermeiros alvo deste tipo de síndromes –, o Centro para o Conhecimento Animal (CPCA) e a enfermeira veterinária Marília Domingos lançaram um projeto de comunicação que denominaram de “Mente Sã, Vet São”.

Este projeto foi desenvolvido a pensar nas necessidades daqueles que tantas vezes pensam pouco em si próprios enquanto se dedicam ao bem-estar dos animais, nomeadamente os veterinários e os enfermeiros veterinários.

A iniciativa tem como objetivo ajudar a minimizar os riscos de desenvolverem este tipo de patologias mentais, contribuindo para o seu bem-estar através de um espaço para discussão, partilha de recursos e informação sobre os problemas que afetam ambas as classes de profissionais da veterinária, as suas causas e implicações.

De acordo com os responsáveis pelo projeto, com reflexão e acesso a alguns recursos é possível melhorar e favorecer o bem-estar e saúde de quem cuida dos animais e, inclusivamente tornar possível a prestação de melhores cuidados por mais tempo.

O “Mente Sã, Vet São” tem também como objetivo valorizar as profissões de médico e enfermeiro veterinários (ainda vistos como profissionais de importância secundária em algumas regiões do país), promovendo um exercício mais sustentável da profissão, cujo peso na saúde pública é muito considerável.

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