DISLEXIA

  Tupam Editores

Normalmente são considerados preguiçosos ou pouco inteligentes. A maior parte sofre em silêncio um drama que já afectou personalidades famosas como Agatha Christie, Albert Einstein, George Washington, Pablo Picasso e Napoleão Bonaparte. Trata-se da dislexia, uma das mais frequentes dificuldades de aprendizagem, que afecta entre 5 a 17 por cento da população em idade escolar.

A dislexia, segundo a Associação Internacional de Dislexia, pode ser definida como "uma incapacidade específica de aprendizagem de origem neurobiológica, caracterizada por dificuldades na correcção e/ou fluência na leitura de palavras e por baixa competência da leitura e ortografia". Aquela associação acrescenta ainda que as dificuldades "resultam de um défice fonológico inesperado, em relação às outras capacidades cognitivas e às condições educativas".

Esta perturbação do desenvolvimento foi identificada pela primeira vez por Berklan, em 1881. Seis anos mais tarde, um oftalmologista alemão, Rudolf Berlin, atribuiu-lhe o termo por que é conhecida actualmente, que provém do grego dis (difícil, prejudicada) e lexis (palavra), para se referir a um jovem que mostrava dificuldades de aprendizagem na leitura, mantendo normais as restantes faculdades.

Durante muito tempo esta dificuldade em ler e escrever foi considerada como um sinal de fraco nível intelectual, embora muitos disléxicos tenham uma capacidade normal e até superior à média, evidenciando elevadas potencialidades em áreas que não dependem directamente da leitura ou escrita, como no desporto, música e arte.

Causas da dislexia

Apesar de não haver consenso sobre as causas da dislexia, estudos recentes apontam para factores neurológicos de origem genética. Como resultado desta teoria, a dislexia seria causada por um défice no sistema de processamento fonológico, que dificulta a interpretação dos sons da linguagem, bem como a consciência de que a linguagem é formada por palavras que se dividem em sílabas que, por sua vez, se constituem em fonemas. O problema reside ao nível da descodificação, o que impossibilita uma leitura fluente, correcta e compreensiva.

Assim, a criança disléxica revela dificuldades em distinguir os sons da fala, sendo-lhe difícil fazer corresponder esses sons às diferentes letras. Para piorar o cenário, a mesma letra pode representar um som diferente e letras diferentes podem representar o mesmo som, havendo ainda palavras com sonoridades semelhantes.

Os especialistas acreditam que as alterações genéticas ocorrem a nível do cromossoma 6, tendo identificado até ao momento o gene DCDC2, localizado nos centros da leitura do cérebro humano e o Robo1, responsável pelas conexões entre os dois hemisférios cerebrais. Estas investigações poderiam propiciar o desenvolvimento de um teste genético a aplicar em crianças com história familiar de dislexia e com potencial de risco elevado por forma a serem colocadas em programas de intervenção precoce.

Um outro factor por detrás da dislexia tem a ver com a exposição do feto, no útero, a elevadas doses de testosterona, o que explicaria a maior incidência deste transtorno em pessoas do sexo masculino.

Por estar associada a diversos factores, a dislexia deve ser diagnosticada por uma equipa multidisciplinar que avalie também a prevalência deste distúrbio no seio da família e possa realizar o diagnóstico precoce e um acompanhamento posterior, antes que se instale a desmotivação e frustração que podem conduzir ao insucesso e consequente abandono escolar.

Sintomas associados à dislexia

Os primeiros sinais de alerta associados à dislexia podem surgir logo na primeira infância quando a criança revela um atraso, quer no desenvolvimento motor quer na aquisição da fala e da linguagem, surgindo dificuldades na resolução de quebra-cabeças ou na aprendizagem de rimas e canções. Estes problemas podem acentuar-se posteriormente durante a idade escolar. Na sala de aula a criança poderá manifestar dificuldades de aprendizagem na leitura e na escrita, em particular, ao confundir e trocar letras ou sílabas com diferenças subtis de som ou grafia (f-v; s-z; aõ-am; m-n; nh-lh; bd; p-q…). Poderá ainda omitir ou adicionar letras e sílabas durante a leitura ou manifestar inversões parciais ou totais das sílabas (ai-ia; par-pra; ra-ar…). Como resultado destas dificuldades o disléxico não consegue compreender na íntegra os textos lidos, apresenta muitos erros ortográficos, executando a grafia de forma irregular e ilegível (disgrafia), para além de se tornar difícil expressar e organizar as ideias a nível da escrita.

Por outro lado, a memória de curto prazo e a percepção temporal/espacial podem ser afectadas: a criança manifesta dificuldades no manuseamento e utilização de mapas, dicionários ou listas telefónicas, para além de possuírem uma lateralidade difusa. Confunde a direita e esquerda ou por baixo e em cima, assim como a sequência dos dias da semana ou meses do ano. Mais tarde estas dificuldades vão reflectir-se na aprendizagem da matemática (discalculia) e da geometria ou de uma segunda língua.

Tratamento após diagnóstico

O diagnóstico deve ser realizado o mais precocemente possível. A avaliação deve abranger especialistas de várias áreas como psicólogos, neurologistas, pedagogos, pediatras, otorrinolaringologistas ou oftalmologistas. A equipa deve descartar possíveis atrasos mentais, deficiências auditivas e visuais, bem como lesões cerebrais ou distúrbios emocionais anteriores à detecção do insucesso escolar que podem ser manifestados por crises de ansiedade ou depressão, relutância em frequentar a escola, dores de cabeça ou de estômago.

De realçar que, na maioria dos casos, o diagnóstico é elaborado no segundo ano de escolarização, quando a criança já entrou em contacto com a leitura e a escrita.

Após um diagnóstico definitivo de dislexia o encaminhamento é realizado em função das particularidades de cada caso, tendo em conta as dificuldades e as potencialidades do indivíduo.

Apesar de não existir apenas um tratamento para a dislexia, a maioria enfatiza a assimilação de fonemas, o enriquecimento do vocabulário, a melhoria da compreensão e a fluência na leitura. Os tratamentos procuram estimular a capacidade do cérebro relacionar letras como os sons que as representam e, numa fase posterior, com o significado das palavras que elas formam. Quanto mais precocemente se iniciar este tipo de terapia de reeducação, maiores serão as hipóteses de corrigir as falhas que estão na origem das conexões cerebrais na criança.

O disléxico deve ser incentivado a ler muito, de preferência em voz alta e com a presença de outra pessoa que o possa corrigir e ajudar a reconhecer os sons, sílabas e palavras. Pode também utilizar-se o chamado Método Multisensorial, que pretende exercitar diferentes canais sensoriais como forma de aprender a correcta discriminação de fonemas ou sons, grafemas ou letras, assim como a sua ordem dentro da palavra. Esta terapia conjuga a audição (enfatizar o som das palavras); a visão (realçar as letras ou sílabas que se pretende reeducar); movimento (esboçar as letras no ar ou em outros suportes sem ser o papel); tacto (utiliza materiais sensíveis ao tacto como letras de papel, argila ou plasticina); articulação (repetição da pronúncia de um som ou de uma sílaba para se tomar consciência dos diferentes sons que constituem a palavra). Desta forma, a criança vai associar a forma escrita de uma letra, não apenas ao seu som, como aos movimentos da sua mão ao escrever, tendo em conta também a articulação das palavras ao falar.

Por outro lado, a criança deve sentir-se apoiada pelos professores e também no seio da família e dos amigos. O apoio psicológico também é importante no sentido de enfrentar frustrações e problemas de auto-estima.

Geralmente, o lado direito do cérebro do disléxico está mais desenvolvido, o que o ajuda a compensar as suas perdas de memória e concentração e a contornar as suas dificuldades. Este potencial deve ser incentivado e encontrar métodos alternativos à aprendizagem convencional, aproveitando a criatividade e a imaginação destas crianças de forma a aperfeiçoar as competências que lhes permitam adquirir o gosto pela leitura e melhorar o rendimento escolar.

Na maior parte dos casos a dislexia pode não apresentar cura. Um tratamento adequado pode, porém, minimizar os problemas decorrentes do percurso escolar, aumentando a autoconfiança destas pessoas, por forma a superarem as dificuldades e ter sucesso na vida adulta, seguindo o exemplo das personalidades referenciadas no intróito.

ARTIGO

Autor:
Tupam Editores

Última revisão:
22 de Maio de 2017

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