AUTISMO

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AUTISMO

  Tupam Editores

"Torvado vem na vista, como aquele
Que não se vira nunca em tal extremo;
Nem ele entende a nós, nem nós a ele,
Selvagem mais que o bruto Polifemo.
Começo-lhe a mostrar da rica pelo
De Colcos o gentil metal supremo,
A prata fina, a quente especiaria:
A nada disto o bruto se movia."
Camões, Lusíadas, canto V, 28

O autismo é uma perturbação biológica complexa que afecta o indivíduo por toda a vida. Ao longo da história da Humanidade milhões de pessoas devem ter convivido com o que agora se denomina por Perturbações do Espectro Autista. Os primeiros estudos fazendo alusão a crianças invulgares, cujas descrições de comportamento se assemelham às de autistas, tais como Vítor, o menino selvagem de Aveyron, datam de 1801.

Estudos recentes relatam um grande incremento na incidência do autismo em todo o mundo. Segundo estudos efectuados pelo investigador Eric Fombonne no Canadá, em cada 10 mil pessoas existem dez com autismo. A prevalência da doença é maioritariamente masculina, sendo de 4 a 5 meninos para uma menina.

O termo autismo, do grego autos, que significa próprio ou de si, foi introduzido, inicialmente, por Plouller em 1906 e divulgado pelo psiquiatra Bleuler, em 1911. Este último utilizou-o para descrever um sintoma da esquizofrenia, relacionado com "a limitação das relações humanas e com o mundo externo", tendo adquirido, naquela data, o significado de "fuga da realidade". Só na segunda metade do século XX, aquando da publicação do trabalho de Kanner Autistic Disturbance of Affective Contact, em 1943, e da publicação de uma investigação de Hans Asperger em 1944, o termo adquiriu o significado clínico que até hoje se mantém.

Nos vinte anos seguintes não se realizaram investigações nesta área. Somente nos anos setenta, após a tradução do trabalho daqueles investigadores pela médica inglesa Lorna Wing, este se tornou conhecido, tendo sido aceite de imediato pelos autores psicanalíticos.

Foram os estudiosos da Medical Research Council’s Developmental Psychology Unit que, no início dos anos sessenta, voltaram a debruçar-se sobre esta área, tendo os seus trabalhos contribuído significativamente para uma alteração do modo de compreender a natureza do autismo.

A definição mais recente, presente no DSM-IV-TR (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais), reporta-se ao ano de 2002: "O transtorno autista consiste na presença de um desenvolvimento comprometido ou acentuadamente anormal da interacção social e da comunicação e um repertório muito restrito de actividades e interesses. As manisfestações do transtorno variam imensamente, dependendo do nível de desenvolvimento e da idade cronológica do indivíduo".

O autismo afecta as pessoas de forma diferente. Dado que os indivíduos afectados têm muitas características em comum, mas também diferentes, a comunidade científica começou a percepcionar o autismo não apenas como única doença, mas como um grupo de condições, conferindo-lhe um sentido mais lato. Desta forma vai sendo cada vez mais difundida a noção de Perturbações do Espectro do Autismo (PEA) – Autism Spectrum Disorder (ASD) –, na qual estão incluídas a forma clássica de autismo, a Pervasive Developmental Disorder–Not Otherwise Specified (PDD-NOS), a síndrome de Rett, a síndrome de Asperger e a Perturbação Desintegrativa da Infância.

autismo
Causas do autismo

Apesar da evolução da ciência, ainda não são conhecidas as causas exactas do autismo. A comunidade científica acredita que os genes e o meio ambiente desempenham um papel importante. As investigações realizadas ao longo das últimas três décadas têm demonstrado que existem vários factores genéticos e uma multiplicidade de causas orgânicas envolvidas no desenvolvimento do autismo, multiplicidade essa que espelha as diferenças entre os vários indivíduos que sofrem de PEA.

Os estudos realizados em famílias têm sido muito úteis para compreender o papel dos genes no autismo. Tem vindo a ser demonstrado que entre gémeos verdadeiros, quando um deles é autista, o outro tem uma probabilidade de 75 por cento de também vir a ser afectado. Porém, se os gémeos forem falsos, sendo um autista, a probabilidade de o outro vir a desenvolver a condição é de 3 por cento.

Foi igualmente demonstrado que a prevalência de PEA é mais elevada em crianças/adultos que sofrem de outras patologias, como a síndrome do X Frágil, a esclerose tuberosa, a fenilcetonúria, a neurofibromatose e várias outras anomalias cromossómicas. Alguns factores pré-natais – como a rubéola materna ou o hipertiróidismo – ou peri-natais – como a prematuridade, baixo peso, infecções graves e traumatismo de parto – podem também influenciar o início de PEA. No que respeita aos factores ambientais, alguns especialistas acreditam que a contaminação por mercúrio poderá estar na origem do autismo.

Estudos recentes sugerem igualmente que as crianças que foram expostas a níveis elevados de testosterona durante o período de gestação apresentam resultados semelhantes aos das crianças autistas nos testes psicológicos. Futuras investigações nesta área poderão levar ao desenvolvimento de novos tratamentos e testes de diagnóstico.

Sintomas e Sinais de alerta

Todas as crianças com autismo apresentam sintomas diferentes, o que torna o diagnóstico difícil. Se é verdade que Einstein só começou a falar aos quatro anos, também é bem verdade que vale mais prevenir que remediar. Todas as crianças têm o seu próprio ritmo de aprendizagem, mas existem etapas que estas devem atingir até dado momento e a sua não concretização poderá representar um sinal de alerta.

Os principais sinais de alerta que os pais, profissionais de saúde e educadores devem ter em atenção durante os primeiros anos de desenvolvimento da criança são os seguintes: não brincar ao faz de conta (com bonecos ou outros brinquedos), não apontar para objectos que deveriam despertar o seu interesse (por exemplo, um avião a passar), não olhar para os objectos para os quais se aponta, mostrar problemas de relacionamento e desinteresse pelas pessoas, evitar o contacto visual e querer ficar sozinho, ter dificuldades em perceber os sentimentos das outras pessoas ou em falar sobre os seus próprios sentimentos, preferir não receber festas ou estar ao colo, aparentar não ouvir as outras pessoas mas responder a outros sons, achar as pessoas muito interessantes, mas não saber como falar, brincar ou relacionar-se com elas, repetir ou ecoar palavras ou frases que lhes dizem ou fazer ecolalia, repetir as mesmas acções vezes sem conta, ter problemas em adaptar-se a mudanças na sua rotina, ter reacções anormais ao cheiro, paladar, sons e, sobretudo, perder capacidades que já tinha adquirido.

Tratamentos

Como não há duas pessoas autistas com os mesmos sintomas, o tratamento tem de ser adequado às suas necessidades e da sua família. Ainda não foi descoberta cura para o autismo, mas os tratamentos dão às crianças/adultos uma melhor qualidade de vida.

A terapia comportamental é o método mais utilizado. Pais, professores e educadores trabalham em conjunto para ajudar as crianças a melhorar as suas técnicas de comunicação, sociabilização e as suas capacidades físicas. É muito importante iniciar este tipo de intervenção comportamental o mais precocemente possível, para que a criança possa usufruir do tratamento a cem por cento.

Projecto TEACCH

A mais utilizada é a TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Communication Handicapped Children – Tratamento e Educação das Crianças Autistas e com Deficiência em Comunicação), que foi desenvolvida na década de setenta. As salas de aula baseadas neste modelo disponibilizam um ensino estruturado, individual e uma forma alternativa de comunicação, essencial para estas crianças.

O modelo TEACCH proporciona às crianças actividades de apoio educativo e visual, educação visual e tecnológica, terapia da fala e hidroterapia. Em Portugal existem várias salas TEACCH, graças à Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo (APPDA) e às Direcções Regionais de Educação. Em alguns concelhos é mesmo possível a prática de hipoterapia e piscina.

Existem outros programas, como o Higashi School – que recorre à educação física, artística e académica para ensinar comportamentos positivos –, o Bright Start e a Análise Comportamental Aplicada – Applied Behaviour Analysis (ABA).

Também este último método já chegou a Portugal, estando a ser praticado desde o final de 2008 no Colégio Campo de Flores, no concelho de Almada. É um tratamento que está a ter muito sucesso, uma vez que mais de 40 por cento das crianças deixam de ter características autistas. Para poderem beneficiar completamente desta terapia, as crianças têm de ter entre dois e quatro anos de idade.

Algumas crianças podem precisar, simultaneamente, de terapia ocupacional, de modo a aprenderem as tarefas diárias, de terapia de integração sensorial, para ajudar na estimulação, fisioterapia, para melhorar os movimentos, e fonoaudiologia.

Aos portadores de autismo poderá ainda ser necessário a administração de fármacos antidepressivos e antipsicótios, para ajudar a combater alguns dos sintomas associados, como falta de concentração, depressão ou ataques. Em 2006, a Food and Drug Administration aprovou também a risperidona para tratar crianças dos 5 aos 16 anos que sofram de agressividade – quer para com os outros, quer para com elas mesmas – e de irritabilidade severa.

Novas terapias

Uma equipa de investigadores da Ohio State University Medical Center, coordenada pelo Dr. Eugene Arnold, está a testar uma substância que existe há anos no mercado, a mecamilamina, em crianças com autismo. Utilizada nos anos cinquenta para tratar a pressão alta, tem vindo a demonstrar a sua eficácia na actualidade, para controlar os sintomas da síndrome de Tourette e do Transtorno do Déficit de Atenção.

Segundo o cientista, há esperança de que venha a ter um grande impacte no tratamento dos sintomas mais significativos do autismo. Mais recentemente, também Michael Aman, director de pesquisas do Nisonger Center daquela universidade, anunciou resultados promissores com a memantina, aprovada para o tratamento da doença de Alzheimer desde 2003, na melhoria da comunicação verbal e não verbal em portadores de autismo.

Ainda na área terapêutica, uma equipa de investigadores do International Child Development Resource Centre desenvolveu um estudo, no qual participaram 62 crianças autistas entre os dois e os sete anos de idade, para verificar os benefícios da terapia hiperbárica, que já demonstrou eficácia em outros problemas neurológicos.

Selecionadas aleatoriamente, as crianças foram submetidas a 40 horas de tratamento durante um mês com 24 por cento de oxigénio numa pressão atmosférica aumentada (1,3 atmosferas) ou com ar normal numa sala levemente pressurizada (1,03 atmosferas). No grupo sujeito ao tratamento verificou-se uma melhoria a nível da linguagem receptiva, interacção social, contacto visual e percepção sensorial e cognitiva em 80 por cento das crianças, comparativamente ao grupo de controlo.

Autismo linguagem

O próximo passo é identificar as crianças que melhor respondem ao tratamento e descobrir se os seus efeitos se mantêm a longo prazo ou se são apenas transitórios. Segundo o coordenador da investigação, Dr. Dan Rossignol, este tratamento não corresponde à cura, mas trata-se de melhorar comportamentos, determinadas funções e aumentar a qualidade de vida.

A nível dos testes de diagnóstico está também disponível uma nova tecnologia que pode detectar o autismo aos nove meses de idade. Nas experiências realizadas no Early Autism Study, coordenadas pela Professora Melissa Rutherford, da McMaster University, recorreu-se a uma tecnologia denominada Eye tracker. Esta possibilita medir a direcção dos movimentos dos olhos dos bebés enquanto estes olham para caras, olhos e bolas em movimento, num ecrã de computador.

Segundo a coordenadora, agora os investigadores conseguem distinguir um grupo de irmãos com autismo de um grupo de irmãos saudáveis, com nove e doze meses, de forma objectiva, durante cerca de dez minutos. Esta tecnologia poderá também tornar-se uma nova ferramenta de diagnóstico.

Em Portugal

Um importante estudo epidemiológico foi realizado há poucos anos por uma equipa, coordenada pela Dra. Guiomar Oliveira, do Hospital Pediátrico de Coimbra, envolvendo 300 mil crianças de todo o país, excepto a Madeira, com idades compreendidas entre os 7 e os 9 anos de idade.

A equipa concluiu que uma em cada mil crianças portuguesas é autista. Os investigadores verificaram também que um elevado número de casos, mesmo com apoio médico e educativo, não tinha sido diagnosticado como autismo, demonstrando ser necessário apostar na formação de profissionais que trabalham nesta área e criar equipas multidisciplinares que possam diagnosticar esta condição com rigor. "Apesar de ainda haver grandes dúvidas nesta área, a investigadora referiu que há três décadas todos os casos de autismo não tinham diagnóstico etiológico. Hoje, vinte por cento dos casos já o têm. Aos restantes 80 por cento resta esperar."

Ainda há uma carga negativa associada ao autismo e um grande desconhecimento, na maioria das pessoas. Para combater essa realidade, em Dezembro de 2007, a Organização das Nações Unidas instituiu o dia 2 de Abril como o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo.

Em Portugal, o trabalho da APPDA tem sido fundamental na luta contra o desconhecimento. Membro-fundador da Federação Portuguesa de Autismo, tem vindo a ajudar, desde 1971, os pais e as crianças/adultos autistas contra a exclusão social, lutando ao seu lado para obter um lugar na sociedade, promovendo a educação e tratamentos adequados.

Para além de vários centros ocupacionais, a associação possui uma escola de ensino especial para crianças que não frequentam o ensino regular, uma equipa de psicólogos e professores para apoiar os que frequentam o ensino regular e pequenas unidades residenciais.

Caminhámos muito desde as investigações de Kanner, mas ainda há um longo caminho a percorrer. As barreiras à nossa volta recolhem-se à medida que crescem as redes de comunicação. Porém, estas mesmas barreiras elevam-se, tornando-se gigantescas para uma criança/adulto autista, uma vez que lhe faltam as ferramentas necessárias para as contornar, para comunicar. É essencial descobrir uma forma de baixar essas barreiras, para que eles possam saltar para o lado de cá do muro!

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