CORAÇÃO

Campanha “Sinais do Coração” alerta para a insuficiência cardíaca

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) iniciou mais uma viagem no caminho da literacia em saúde e por um país com uma população mais informada sobre o flagelo da insuficiência cardíaca (IC).

Campanha “Sinais do Coração” alerta para a insuficiência cardíaca

“Sinais do coração. Não deixe a viagem acabar cedo demais” é a assinatura da campanha que arrancou pela mão da SPC e que foi marcada pela colocação de um coração gigante na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, que representa não só todos os portugueses que sofrem de IC, mas também a vontade da SPC em contribuir para que o flagelo desta doença diminua.

Tendo em consideração a enorme população afetada - é a primeira causa de internamento em pessoas com mais de 65 anos - e a carga que tem nos hospitais, era expectável que houvesse mais conhecimento do lado da população sobre esta doença, mas não é o caso.

Assim, a campanha pretende aumentar o reconhecimento da população para os sintomas desta síndrome e alertar para a necessidade de procurar o médico face à presença dos mesmos.

Até porque os sinais não são muito típicos, nem muito sensíveis e, em determinados segmentos da população, nomeadamente pessoas mais idosas, essas queixas acabam por ser atribuídas a outro tipo de situações clínicas. 

Nesta campanha, usa-se a alegoria de uma viagem para explicar que o motor do nosso carro - o nosso coração -, às vezes dá sinais antes de avariar. “Portanto, pretendemos explicar que há sinais antes da viagem acabar. Por exemplo, sensação de cansaço desproporcionada ao realizar esforços, desmaios inexplicados, palpitações, falta de ar noturna, necessidade de dormir com almofadas porque não se consegue dormir completamente deitado, inchaço das pernas não explicado por outras razões, são tudo sintomas que podem estar relacionados com a insuficiência cardíaca e que devem levar as pessoas ao médico para uma avaliação clínica cuidada”.

Importa referir que os médicos de Medicina Geral e Familiar se encontram perfeitamente posicionados e habilitados para fazer o diagnóstico desta patologia, tenho por base um algoritmo da Sociedade Europeia de Cardiologia.

Essencialmente, de acordo com alguns dados clínicos do doente, como a sua história, com a medicação que toma e com o que se encontra no exame físico, é possível estabelecer uma probabilidade pré-teste de síndrome de iC. Neste cenário, existem várias ferramentas de diagnóstico que podem ser utilizadas, entre as quais se destaca o ecocardiograma, o exame mais importante para este diagnóstico.

Sendo a iC uma patologia que se caracteriza pela diminuição da capacidade de fazer esforços e de praticar exercício físico, na presença de elevada probabilidade pré-teste de iC, quando o ecocardiograma é equívoco ou negativo, pode fazer sentido a realização de uma prova de esforço para documentar, de forma objetiva, se o doente tem uma limitação da sua capacidade funcional.

A verdade é que, por vezes, o ecocardiograma parece dentro dos parâmetros normais e só na prova de esforço, perante a incapacidade do doente em realizá-la, é que se deteta um sinal de alerta que justifique a referenciação para uma consulta de Cardiologia ou Medicina Interna. Neste caso, os testes de capacidade funcional também têm a sua relevância.

Nas palavras do presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, João Morais, a IC “deverá ser entendida como uma prioridade porque é uma doença com uma mortalidade elevada e com um número de internamentos muito superior aos do enfarte do miocárdio”.

Assim, “considerámos que, se aceitássemos e nos propuséssemos a este desafio, poderíamos estar a contribuir para uma significativa redução da mortalidade por doenças do aparelho circulatório”.

Na prática, “o objetivo é que os decisores e a tutela coloquem, definitivamente, esta doença na lista de prioridades e que o Plano Nacional de Saúde possa incorporá-la como um capítulo próprio, que os hospitais e a estrutura do Serviço Nacional de Saúde se organize para receber estes doentes e tratá-los convenientemente e que o público passe a partilhar esta informação com quem o rodeia, porque só é possível ter saúde de qualidade com o envolvimento de todos os elementos que compõem este processo”.

Estima-se que, em todo o mundo, existam cerca de 26 milhões de pessoas a sofrer desta doença, o que representa um a dois por cento da população global. No entanto, apesar de já ser elevado, este número tem franca tendência para aumentar nos próximos anos e espera-se mesmo que suba cerca de 25 por cento até 2030.

Este panorama é bastante preocupante, uma vez que esta síndrome condiciona em muitos aspetos a qualidade de vida dos doentes e respetivos cuidadores e apresenta uma taxa de mortalidade elevada. Aliás, a taxa de mortalidade é superior à de alguns tipos de cancro como leucemia, cancro da mama, próstata e cólon.

Além disso, a iC representa, atualmente, a principal causa de internamento hospitalar de pessoas com mais de 65 anos de idade, pelo que tem um impacto significativo no orçamento total da saúde.  

No nosso país, os números são igualmente preocupantes: calcula-se que cerca de 380 mil pessoas sofram desta síndrome e que, com o envelhecimento populacional a que temos vindo a assistir, este número aumente cada vez mais.

Assim, é expectável que, no futuro, uma em cinco pessoas venha a desenvolver esta doença em algum momento da vida. Importa salientar que a iCé muito debilitante, não só do ponto de vista físico, mas também emocional, o que leva frequentemente a estados depressivos e a outras patologias do foro psicológico, afetando doentes e cuidadores.

De acordo com o estudo ‘The current and future burden of heart failure in Portugal’, realizado por um grupo de investigadores nacionais, espera-se que a mortalidade por iC sofra um incremento de 73 por cento nos próximos 20 anos (com 8 112 mortes por iCem 2036) e que os anos de vida perdidos aumentem em 47,3 por cento (atingindo 16 788 em 2036). Por outro lado, os anos perdidos devido a incapacidade deverão subir 5,2 por cento (atingindo 10 271 em 2036).

Estes resultados fazem prever que o impacto da iC deverá aumentar em 28 por cento entre 2014 e 2036, altura em que os anos de vida perdidos representarão 62 por cento, em comparação com 54 por cento em 2014.

Este estudo vem, assim, confirmar que a iC é um problema emergente e crescente de saúde, evidenciando a necessidade de definir esta patologia como uma prioridade para o sistema de saúde.

Em Portugal, o Ministério da Saúde reconheceu esse impacto atual e futuro e decidiu, recentemente, criar um grupo de trabalho dedicado a implementar uma gestão integrada da doença no país.

Fonte: press release

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