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Atrasos e dificuldades continuam a limitar o acesso à saúde em Portugal

Quase três em cada dez pessoas inquiridas em Portugal dizem não ter conseguido obter uma consulta, exame ou tratamento dentro do prazo que consideravam aceitável. Perante a demora, algumas acabaram por desistir ou procurar cuidados noutro local. O problema dos custos também pesa: há participantes que não conseguiram aceder a serviços de saúde ou comprar medicamentos por falta de recursos.

Atrasos e dificuldades continuam a limitar o acesso à saúde em Portugal

Os dados são de um relatório elaborado pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa, a pedido da Ordem dos Médicos, no âmbito do projeto “Um Rumo para a Saúde”. Publicado em dezembro de 2025, o documento analisa as perceções sobre a saúde, o acesso aos cuidados e as desigualdades no período pós-pandemia.

No inquérito, 29,9% dos participantes relataram esperas superiores ao que entendiam ser razoável. Em contrapartida, 58,5% consideraram aceitáveis os tempos de espera, enquanto 11,3% disseram não ter precisado de aguardar por um serviço.

As restrições financeiras também impediram parte dos inquiridos de obter cuidados nos 12 meses anteriores. Entre eles, 6,7% precisaram de uma consulta, exame ou tratamento, mas não conseguiram aceder devido ao preço ou à falta de cobertura. Além disso, 4,4% afirmaram ter deixado de comprar medicamentos prescritos por não terem dinheiro suficiente.

A saúde mental é igualmente afetada: 3% dos participantes que necessitaram de apoio em psiquiatria, psicologia ou psicoterapia não o conseguiram obter, devido aos custos ou à ausência de cobertura. Os autores concluem que as barreiras não se resumem à distância até aos serviços: os atrasos e a capacidade de pagar pelos cuidados também condicionam o acesso.

Apesar desses entraves, o Serviço Nacional de Saúde continua a ser a principal opção para muitos utentes. Para consultas médicas, 45,8% recorrem habitualmente ao SNS, 33,7% usam o setor privado e 16% combinam ambos. Nos exames e tratamentos em ambulatório, o serviço público também lidera: é utilizado por 48,7% dos inquiridos, face a 25,3% que recorrem ao privado e 12,7% que usam os dois setores.

A rapidez no atendimento está entre os motivos que levam algumas pessoas a escolher prestadores privados, o que evidencia a influência das listas de espera nas decisões dos utentes. O acesso a médico de família também não abrange todos: 81% disseram ter um profissional atribuído, mas 17,1% afirmaram não ter médico de família.

O relatório distingue três perfis de utilização dos serviços: vulneráveis, integrados e episódicos. O grupo vulnerável corresponde a 48% da população estudada. Os seus membros recorrem frequentemente ao SNS e tendem a apresentar mais problemas de saúde, incluindo doenças crónicas, ao mesmo tempo que enfrentam maiores dificuldades económicas e logísticas. Também revelam menor participação em rastreios e exames preventivos, e nem sempre têm acompanhamento médico regular.

Já o perfil integrado, que representa 18% dos participantes, caracteriza-se por uma relação mais estável com o médico de família, consultas regulares e maior atenção à prevenção. Os seus integrantes tendem ainda a avaliar mais favoravelmente o próprio estado de saúde. A diferença entre estes percursos, segundo o estudo, reflete desigualdades na continuidade dos cuidados, que pesam sobretudo sobre pessoas em situações sociais e económicas mais frágeis.

A investigação foi conduzida pelo IHMT-NOVA através do Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde para as Políticas e Planeamento da Força de Trabalho em Saúde. A equipa realizou 700 entrevistas telefónicas a residentes no continente e nas regiões autónomas da Madeira e dos Açores, entre setembro e novembro de 2025.

Foram ouvidas pessoas com 18 ou mais anos, numa amostra organizada por regiões. O estudo indica um nível de confiança de 95% e uma margem de erro aproximada de 6%. Os seus resultados procuram oferecer uma visão atualizada das condições de saúde, dos obstáculos no acesso aos serviços e das disparidades existentes, para apoiar a definição de políticas públicas.

Fonte: Tupam Editores

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