"Superalimentos" - onde estão agora?
Spirulina, camu-camu, baobab, moringa, clorela, erva de trigo, lúcuma, maca, ashwagandha, etc. Há mais de dez anos que pós verdes, castanhos e alaranjados ocupam lugar de destaque nas prateleiras portuguesas, com promessas de mais energia, defesas robustas e açúcar no sangue controlado. A febre dos "superalimentos" arrefeceu e quem trabalha em nutrição é unânime: o que conta para a saúde é o conjunto do que se come ao longo dos dias, não o conteúdo de um frasco.

estes "superalimentos" entraram nos supermercados no início da década de 2010 e vários continuam praticamente desconhecidos. A fama ultrapassou largamente os méritos. Conceição Calhau, docente na NOVA Medical School, rejeita a expressão: para ela é um rótulo comercial e não um conceito científico, usado para exagerar uma característica de um alimento, e a especulação que daí resulta acaba por ser perversa.
A chegada coincidiu com o momento em que a ciência começou a olhar para os alimentos para lá dos macro e micronutrientes, descobrindo uma diversidade química até então invisível, que os fabricantes exploraram nos rótulos. Somou-se a facilidade de partilha: um smoothie, outra mania da época, bastava para sugerir que uma colher minúscula entregava um catálogo de nutrientes.
Os nutrientes existem, mas as provas das alegações de saúde ficam muito aquém do anunciado. Catarina Sousa, do Hospital Lusíadas Lisboa, vê mais uma moda passageira, comparável à atual corrida aos produtos enriquecidos com proteína, e lembra, com humor, que ninguém paga publicidade a leguminosas, fruta e hortícolas, que são os verdadeiros alimentos "super". Calhau acrescenta que o tema se banalizou e que as redes sociais já falam de outras coisas. O preço também pesou: embalagens de 125 gramas custam entre cinco e dez euros, e, segundo Sousa, os consumidores concluíram que o benefício não compensa o gasto, embora o consumo não traga prejuízos.
Há ainda uma questão de escala. Os valores por 100 gramas impressionam, mas a dose habitual é de uma a três colheres de chá, por vezes menos de 10 gramas. Beatriz Vieira lembra que mais quantidade não significa mais benefício e que, em produtos concentrados, importa considerar origem, dose e interações com medicamentos, porque natural não quer dizer inofensivo. Calhau recorre a Paracelso para sublinhar que é a dose que faz o veneno e que estas são substâncias biologicamente ativas. Reconhece algum interesse clínico à spirulina, por exemplo no herpes, mas pede que se distinga dose nutricional de dose farmacológica e considera perigoso o consumo sem critério, movido pela ideia de que, sendo "super", mais é melhor.
Não têm de ser banidos. Podem entrar numa alimentação já saudável, variada e equilibrada, avaliados caso a caso, perante a carência de um nutriente concreto, ou simplesmente por gosto e versatilidade, ainda que, para a maioria, não haja necessidade nutricional de o fazer. O risco, avisa Vieira, é descurar o essencial por confiar numa promessa quase milagrosa, algo agravado, nota Calhau, por quem não sabe ler rótulos e se deixa levar pelas secções de "superfoods".
O verdadeiro super-padrão alimentar é mais simples e barato do que se pensa: a dieta mediterrânica, que a maioria dos portugueses não segue, como lamenta Sousa.