Estudo prova que Mulheres vivem com mais dor do que os homens
Uma análise publicada na *Nature Medicine* concluiu que as mulheres referem mais dor do que os homens em todas as regiões do corpo estudadas. O trabalho, coordenado por investigadores da Universidade McGill, no Canadá, reuniu informação de 6,1 milhões de pessoas, dos cinco anos de idade a mais de 100, em 118 países e territórios. Os autores descrevem o estudo como um dos maiores esforços para reunir e uniformizar dados epidemiológicos sobre a dor.

A investigação compilou inquéritos e estudos realizados entre 1990 e 2025, baseados no relato dos próprios participantes. Foram consideradas onze zonas do corpo, entre elas cabeça, face, pescoço e ombros, costas, abdómen, anca e joelho. A prevalência variou consoante a região: a dor facial foi a menos frequente, enquanto a dor nas costas foi a mais comum. Em todas as áreas avaliadas, as mulheres reportaram mais dor, com diferenças especialmente marcadas nas dores de cabeça, faciais e abdominais.
Os resultados também contrariam a ideia de que a dor aumenta de forma contínua com a idade. Embora a proporção de pessoas que relatam dor em alguma parte do corpo cresça de cerca de 30% aos cinco anos para aproximadamente 70% entre quem tem 100 anos ou mais, o aumento mais rápido ocorre antes dos 55 anos. Os investigadores consideram que esta concentração da carga de dor em idades mais jovens aponta para a necessidade de antecipar estratégias de prevenção, em vez de as reservar sobretudo para a velhice.
A evolução, porém, não é igual para todas as zonas. As dores de cabeça, abdominais e faciais tendem a atingir o ponto mais elevado mais cedo e a diminuir depois. Nas mulheres, por exemplo, os máximos estimados surgem por volta dos 34 anos para as dores de cabeça, dos 23 para as abdominais e dos 45 para as faciais. Já a dor no pescoço ou ombro e no cotovelo atinge o pico mais tarde, perto dos 62 e dos 59 anos, respetivamente.
As dores nas costas, na anca e no joelho seguem outro padrão: aumentam ao longo da vida, sobretudo entre os 20 e os 55 anos, e podem alcançar o nível mais elevado a partir dos 75. No conjunto, sete das onze regiões analisadas apresentam uma curva em que a prevalência primeiro sobe e depois desce. Os autores entendem que este perfil desafia os modelos que pressupõem um agravamento constante com o envelhecimento e sugerem que a prevenção poderá ser mais eficaz se começar antes da meia-idade.
O estudo atribui 18,3% da carga global de dor a três fatores: tabagismo, obesidade e baixos rendimentos. A partir do início da idade adulta, observou-se uma associação entre rendimentos relativos mais baixos e maior prevalência de dor, em todas as regiões corporais analisadas. O peso desses fatores, contudo, varia geograficamente: a associação foi estimada em cerca de 27% da carga de dor na Europa de Leste e 13% na África Subsaariana.
Para os investigadores, essa diferença indica que as causas da dor em regiões menos desenvolvidas continuam insuficientemente esclarecidas. Entre as possíveis explicações estão o trabalho físico mais exigente, o acesso limitado a cuidados de saúde e reabilitação, as doenças infecciosas e as carências nutricionais.
Os autores salientam que o estudo tem limitações. Como não acompanhou as mesmas pessoas ao longo do tempo, as diferenças entre idades não demonstram como a dor evolui na vida de cada indivíduo. Além disso, a análise baseou-se na dor descrita pelos participantes, não em diagnósticos clínicos; a representação das regiões do mundo foi desigual; e os dados cobrem um período de 35 anos, durante o qual mudaram os hábitos, os cuidados de saúde e a forma de comunicar a dor.