Células da bochecha podem dar pistas sobre risco de esquizofrenia
Um simples cotonete na mucosa bucal poderá, um dia, fornecer um teste de diagnóstico rápido e não invasivo para a esquizofrenia. Um novo estudo publicado na revista Science Advances identificou níveis mais elevados de dois marcadores biológicos em amostras da mucosa oral de doentes com esquizofrenia, em comparação com pessoas que não têm a perturbação mental.

A esquizofrenia é uma condição crónica com uma série de sintomas, incluindo alucinações, delírios, confusão mental e perda de interesse pelas atividades quotidianas. Não existe um único teste para a doença, e o diagnóstico pode ser desafiante porque os sintomas variam muito de pessoa para pessoa e geralmente dependem da observação do comportamento do doente.
Por essa razão, por vezes, um profissional de saúde pode demorar meses a fazer um diagnóstico com algum grau de certeza, pois precisa de descartar outras possíveis causas – o que representa muito tempo de espera sem o tratamento adequado, caso seja necessário.
Assim, cientistas liderados por uma equipa da Universidade de Rutgers, em New Jersey, decidiram investigar se as assinaturas moleculares nas células bucais (da bochecha), de fácil recolha, poderiam servir como biomarcadores fiáveis.
Para o efeito, recrutaram 27 pessoas diagnosticadas com esquizofrenia e 27 voluntários saudáveis como grupo de controlo, emparelhados por idade, raça e sexo, e recolheram amostras da parte interna das suas bochechas.
As amostras de cada participante foram analisadas por RT-qPCR (reação em cadeia da polimerase quantitativa com transcrição reversa), que mede a quantidade de RNA numa amostra para avaliar a atividade de genes específicos.
Os investigadores focaram-se em três genes previamente associados a um risco aumentado de esquizofrenia e, posteriormente, utilizaram a espectrometria de massa para verificar se alguma proteína relacionada apresentava diferenças entre doentes e controlos.
Os especialistas verificaram que os doentes com esquizofrenia apresentaram níveis significativamente mais elevados de atividade no gene Sp4 – que desempenha um papel no desenvolvimento cerebral –, em comparação com o grupo de controlo. Níveis elevados de atividade foram associados a sintomas mais graves, como alucinações e delírios.
Identificaram ainda maiores quantidades de HSP60, que se acredita ser regulada pelo Sp4.
Os dados sugerem que a expressão do mRNA Sp4 e o seu alvo a jusante, a HSP60, são potenciais biomarcadores da esquizofrenia. O estudo refere biomarcadores em células bucais que se correlacionam com os défices cognitivos observados em doentes com esquizofrenia.
De acordo com os especialistas, estes marcadores podem ser indicadores eficazes porque o sistema nervoso central e a pele da boca se desenvolvem a partir do mesmo tecido embrionário (ectoderme). Portanto, as amostras da mucosa bucal podem fornecer pistas sobre o que está a acontecer no cérebro.
Apesar dos resultados, são necessários estudos de maior dimensão para confirmar se estes biomarcadores são específicos para a esquizofrenia. Se forem bem-sucedidos, um simples cotonete poderá não só ajudar na deteção precoce, mas também potencialmente monitorizar a progressão da doença.