Alergias respiratórias podem evitar-se com exposição a micróbios
Um estudo conduzido por cientistas do Instituto Pasteur, em França, revelou que os micróbios protegem os pulmões do desenvolvimento subsequente de alergias e asma. Esta proteção a longo prazo é “memorizada” não pelas células do sistema imunitário, mas pelos fibroblastos, células estruturais dos pulmões.

As descobertas, publicados na Nature Immunology, abrem novas possibilidades para o desenvolvimento de estratégias preventivas para as alergias respiratórias. O aumento constante das alergias respiratórias e da asma nos países industrializados levanta a questão de saber porque é que algumas pessoas desenvolvem alergias enquanto outras não.
Uma teoria é que a exposição a micróbios previne este fenómeno, mas o mecanismo subjacente nunca havia sido identificado. Os especialistas do Instituto Pasteur e do Inserm quiseram testar esta teoria de forma direta, tendo feito uma descoberta notável.
Quando os pulmões são expostos a fragmentos de micróbios, é induzida uma memória imunitária duradoura, bloqueando eficazmente as reações alérgicas subsequentes durante vários meses.
Na investigação, a equipa expôs os pulmões de ratos a fragmentos de vírus ou bactérias, desencadeando uma resposta imunitária do tipo 1 – a resposta natural do organismo a estes micróbios. Quando os animais foram expostos a um alergénio simultaneamente, ficaram totalmente protegidos contra o mesmo durante pelo menos seis semanas.
Observou-se ainda que a pré-exposição dos ratos a fragmentos de micróbios lhes conferia uma proteção duradoura contra reações subsequentes durante mais de três meses.
Na ausência desta proteção inicial, os ratos desenvolveram uma forte reação caracterizada pela acumulação de eosinófilos, um tipo de células imunitárias, nos pulmões. Sem a proteção induzida pelos fragmentos de micróbios, a exposição inicial ao alergénio “programava” os pulmões para a hipersensibilidade e, em caso de reexposição, a reação alérgica era drasticamente exacerbada.
Embora as células geralmente associadas ao sistema imunitário – as células B e T – sejam há muito consideradas as principais protagonistas da memória imunitária, uma análise detalhada das células pulmonares revelou que os fibroblastos também desempenham um papel fundamental.
Os fibroblastos são células “comuns” que formam a estrutura dos pulmões, contribuem para a reparação dos tecidos e dão suporte e direcionam as células imunitárias. O que os torna capazes de desempenhar esse papel é a existência de uma modificação epigenética no gene Ccl11, que codifica a molécula CCL11, ou eotaxina, responsável pelo recrutamento de eosinófilos – efetores-chave das reações alérgicas.
Nos ratinhos foi possível observar que, quando os pulmões desencadeiam uma resposta imunitária do tipo 1, induzida por vírus ou bactérias, o gene Ccl11 nos fibroblastos é bloqueado durante um longo período. Esta modificação epigenética dura meses e protege totalmente os pulmões das reações alérgicas, representando uma forma de memória tecidular que persiste mesmo após a eliminação das células imunitárias presentes durante a infeção inicial.
A descoberta abre diversas possibilidades clínicas. Antes de mais, justifica o uso da profilaxia. A administração precoce de agentes que estimulem uma resposta imunitária do tipo 1 poderá oferecer uma prevenção duradoura contra o desenvolvimento de alergias. Esta seria uma estratégia de prevenção eficaz, em vez de ser apenas um tratamento sintomático.
Além disso, o estudo sugere que, em vez de se concentrarem exclusivamente no sistema imunitário, os fibroblastos poderão representar um alvo terapêutico. As terapias futuras poderão corrigir diretamente a programação epigenética dos fibroblastos para os proteger contra os alergénios.
A equipa continua a explorar formas de converter esta importante descoberta em abordagens terapêuticas, procurando responder a algumas questões que continuam em aberto.