Estudo sugere que a cetamina pode combater a fadiga crónica
A cetamina, um anestésico utilizado há décadas e um tratamento de ação rápida para a depressão grave, também pode oferecer um alívio rápido da fadiga crónica para algumas pessoas, de acordo com um pequeno estudo de prova de conceito liderado por investigadores da Rutgers Health e dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH).

No ensaio clínico, publicado na revista Pharmacological Reports, os efeitos da cetamina superaram minimamente um placebo ativo que, inesperadamente, exibiu a sua própria ação antifatiga. No entanto, os participantes que receberam uma única infusão de baixa dose de cetamina experimentaram um aumento de energia suficiente para justificar estudos adicionais.
A fadiga crónica é um esgotamento persistente que deixa as vítimas sem a energia necessária para o trabalho, a vida familiar e as funções básicas. Nenhum descanso extra resolve o problema. De acordo com Leorey Saligan, autora sénior do estudo, a fadiga sempre foi ignorada porque é muito difícil compreender a sua causa.
Esta experiência é mais acentuada nos indivíduos em tratamento oncológico e naqueles com doenças crónicas. A maioria dos doentes oncológicos que completam a terapêutica primária desenvolve a síndrome, que geralmente dura um ano ou mais. A condição também afeta indivíduos com fibromialgia, lúpus e síndrome de fadiga crónica.
A abordagem padrão para o tratamento da fadiga crónica é o exercício físico, que funciona bem para os doentes que conseguem motivar-se para iniciar um programa e segui-lo durante algumas semanas. Mas a maioria não consegue.
A especialista começou a questionar-se se a cetamina poderia ajudar depois de a sua investigação anterior ter revelado que as concentrações sanguíneas de um recetor de glutamato chamado mGluR5 previam a fadiga crónica – ou a sua ausência – em doentes oncológicos que completaram a terapia oncológica. A cetamina bloqueia os recetores de glutamato, pelo que era lógico testar se esta via poderia ser um alvo para um possível tratamento.
O estudo recrutou 10 participantes com fadiga crónica durante a sobrevivência ao cancro, fibromialgia, síndrome da fadiga crónica ou lúpus. Cada um recebeu uma injeção de cetamina (0,5 mg/kg) e, duas semanas depois, uma injeção de um sedativo chamado midazolam (0,045 mg/kg), que serviu de comparador ativo.
Antes do início das injeções, a equipa estabeleceu um limite claro para um resultado “positivo” que justificaria novos testes: uma queda de 20% nos valores de fadiga em tempo real três dias após a infusão de cetamina. Os níveis de fadiga em tempo real foram, em média, 21% inferiores aos níveis pré-injeção três dias após a aplicação. O maior efeito foi observado 24 horas após a injeção, quando a fadiga em tempo real diminuiu quase 39%.
O desempenho da cetamina não foi significativamente melhor do que o do midazolam, que também apresentou relatos de menor fadiga, apesar de não ter sido utilizado como tratamento para a condição. Isto pode indicar que o midazolam teve um efeito terapêutico ou que os níveis de fadiga flutuam naturalmente.
Mesmo que a cetamina se revele eficaz, Saligan não a vê como um medicamento a longo prazo. A utilização mais promissora, segundo a investigadora, pode ser como ponte, um breve aumento de energia que motiva os doentes a adotarem outras estratégias que proporcionem um alívio duradouro, como o exercício físico.
A ideia é estimular ou reconfigurar o cérebro para que as pessoas se sintam mais motivadas e capazes de participar em tratamentos comprovadamente eficazes na redução da fadiga.