NUTRIÇÃO EM ANIMAIS DE COMPANHIA

  Tupam Editores

A relação entre seres humanos e animais de estimação, como os cães e os gatos, foi estabelecida há muitos séculos, mas longe vai o tempo em que estes viviam somente no quintal das casas e morriam de velhice.

Hoje, dormem na cama dos seus donos e sofrem das mesmas doenças que acometem o ser humano, como colesterol elevado, diabetes, obesidade, pressão alta, problemas renais e cancro. Há os que são levados a psicólogos e usam psicotrópicos para combater o stress e a depressão. Muitos são tratados como bebés, alguns andam vestidos, usam joias caras, têm festas de aniversário, entre outros mimos.

Por terem adquirido um papel central nas nossas vidas, sendo até considerados os nossos melhores amigos, aumentou também o interesse em cuidar deles de forma especial. Mas ainda que tenhamos consciência de que necessitam de cuidados sanitários e veterinários, é frequente esquecermos o importante papel da nutrição na sua saúde.

A boa alimentação é um fator fundamental para a sobrevivência de todos os seres vivos, e no caso dos animais de estimação não é diferente.

Providenciar os nutrientes adequados a cada etapa da vida do animal é fundamental para manter a sua saúde, prevenir doenças e aumentar a esperança e qualidade de vida.

Deve ter-se sempre presente que a saúde começa pela nutrição e que os maus hábitos alimentares potenciam o surgimento de algumas patologias correlacionadas, tal como no ser humano.

Pela boca "sofre" o animal

Nas zonas rurais, sobretudo, ainda está muito arreigado o hábito (que tem vindo a diminuir) de dar aos animais restos de refeições.

Como consequência ainda são frequentes casos de cães com obstipação devido a fragmentos de ossos no intestino, chegando por vezes à perfuração, ou outras situações de emergência de animais que ingeriram chocolate, ou porque o roubaram de locais de fácil acesso ou por ter sido voluntariamente administrado pelos donos, que desconhecem o perigo do ato.

Observa-se também tendência para antropomorfizar os animais pois estes cada vez mais são membros da família ou mesmo os únicos companheiros. Assim, para alguns donos a alimentação dos animais deve ser como a nossa: variada, incluindo todos os grupos alimentares, com sabor (temperada), já para não falar nas premissas enraizadas na nossa mente de que os cães roem ossos e os gatos comem espinhas, e contrariar isso é contrariar a sua natureza.

Cão e Gato à mesa

É importante, antes de mais, frisar que alimentar bem um animal não é alimentar demais, até que este deixe sobras.

A alimentação influencia consideravelmente a saúde, procriação e crescimento de todos os animais. É por isso necessário adotar alguns cuidados no que diz respeito à nutrição, até porque, não restam dúvidas, carências e excessos são igualmente nocivos.

Os animais também são o que comem

À semelhança do que acontece com o Homem, a alimentação é algo que ocorre diariamente na vida dos animais, que se pretende que atue como um fator de proteção da saúde, mas que infelizmente nem sempre assim acontece, podendo em alguns casos pelo contrário, predispor para um conjunto de doenças.

A alimentação equilibrada de um animal permite-lhe manter adequadamente a sua condição corporal, em que o seu peso não é superior, nem inferior ao adequado à sua espécie, raça, idade e condição fisiológica.

As carências e os excessos alimentares influenciam vários aspetos fisiológicos nos animais, por exemplo, a magreza extrema de origem alimentar deprime o sistema imunitário, e a obesidade provoca um estado pró-inflamatório e predispõe para patologias metabólicas particularmente preocupantes.

Alguns problemas nutricionais decorrentes de desequilíbrios alimentares são a hipoptoteinemia, que ocorre devido a falta de proteínas na dieta. Como consequência dá-se uma perda da massa muscular, e muitas vezes ascite, conhecida por barriga d’água.

O hiperparatiroidismo nutricional secundário é uma desordem óssea que ocorre devido ao desequilíbrio mineral induzido por uma alimentação composta exclusivamente por carne ou tecidos ósseos deficientes em cálcio (coração, bife de fígado). Ocorre com maior frequência em filhotes, e causa descalcificação, resultando em ossos fracos.

Os filhotes são igualmente os mais atingidos pela hipervitaminose A, como resultado da administração de grande quantidade de óleo de fígado de bacalhau ou de outros suplementos ricos em vitamina A. Isto dará origem a uma irregular remodelação óssea, ossos fracos, dor articular, perda do apetite e gengivite.

É verdade que a vitamina D é necessária para o equilíbrio do cálcio no organismo. Mas uma hipervitaminose D, a ingestão desta vitamina em excesso, causa calcificação dos tecidos moles, levando a problemas renais, rigidez dos membros e fraqueza muscular.

Já a deficiência em vitamina D dá origem ao raquitismo, que causa um distúrbio na ossificação do esqueleto, ocorrendo alargamento das extremidades dos ossos longos.

Gatinho a comer

Os filhotes alimentados com uma dieta excessivamente rica em cálcio acabam por sofrer de hipercalcitonismo secundário de origem alimentar. Há um retardo na remodelagem óssea, causando anormalidades nos ossos dos braços e pernas, o que resulta em dificuldade para caminhar.

Os gatos alimentados exclusivamente com peixe cru ou dietas comerciais preparadas, inadequadamente processadas e, ocasionalmente, os cães alimentados unicamente com uma dieta de carne cozida acabam por sofrer uma deficiência de tiamina (vitamina B1).

Como consequência, o gato não se consegue alimentar, tem vómitos, fraqueza muscular progressiva e distúrbios neurológicos. É importante que o prazo de validade da ração seja sempre verificado.

A deficiência em taurina ocorre em gatos adultos que se alimentaram exclusivamente de rações caninas ou em filhotes que receberam quantidades inadequadas de taurina na dieta. A taurina é um aminoácido essencial para os gatos, mas não para os cães. A ingestão inadequada de taurina causa cegueira, diminui a eficiência reprodutiva, crescimento lento e anormalidades neurológicas.

Gato obeso

Mas, de todas as patologias decorrentes dos desequilíbrios alimentares, a que assume maior importância atualmente é a obesidade. A causa reside principalmente na sobrealimentação e sedentarismo a que hoje sujeitamos os animais de companhia.

A obesidade aumenta o risco de aparecimento de problemas crónicos como hiperinsulinémia, intolerância à glucose ou diabetes e contribui para as doenças cardiovasculares e pulmonares. Além disso, o excesso de peso dificulta a locomoção e pode originar artrites e osteocondrites.

Nos gatos a obesidade pode induzir o aparecimento da diabetes mellitus e de problemas de pele não alérgicos.

Como se não fosse já bastante, uma sobrealimentação durante o período de crescimento está associada a alterações esqueléticas nos cães como a displasia da anca, osteocondroses ou osteodistrofia hipertrófica.

Coincidindo com esta fase, o excesso de cálcio pode provocar o aparecimento de osteocondroses, articulações alargadas e deformações angulares da garupa, para além de uma quantidade elevada de magnésio associada à urolitíase.

As doenças confinadas a áreas geográficas ou a comunidades especiais também são de referir. É o caso da pansteatite nos gatos (a doença da gordura amarela), frequente nos animais de comunidades piscatórias, com acesso a grande quantidade de peixe fresco e principalmente às suas vísceras.

Os problemas de pele estão geralmente associados ao desequilíbrio de nutrientes como a proteína ou ácidos aminados essenciais, vitamina A e E, ácidos gordos essenciais e zinco, embora as alergias ou hipersensibilidade aos alimentos também possam provocar problemas graves.

No entanto, ainda que o desenvolvimento da obesidade resulte diretamente de má nutrição e reduzido exercício físico, resulta também, embora de forma indireta, do estilo de vida e da envolvência emocional do dono.

São muitas as doenças com origem numa nutrição qualitativa e quantitativamente deficiente ou desequilibrada. Por ser um problema frequente, têm surgido produtos alimentares que pretendem colmatá-lo. Uma boa nutrição assume, assim, um carácter essencialmente preventivo que se traduz numa boa qualidade de vida.

Necessidades diferentes em fases diferentes

Os nutrientes que os animais de companhia necessitam são os mesmos durante toda a sua vida variando, contudo, as suas quantidades e a relação entre eles, devendo adaptar-se a dieta às necessidades de cada fase.

A fase de crescimento é muito exigente pois a síntese de tecido ósseo e muscular é muito intensa. Casos de subnutrição durante este período podem comprometer irreversivelmente o desenvolvimento do animal, sendo mais graves a deficiência em certos nutrientes como ácidos aminados essenciais, cálcio ou fósforo.

As dietas de crescimento caracterizam-se por possuírem uma elevada concentração energética e teores muito elevados de proteína, que deve ser de boa qualidade e alta digestibilidade. A relação cálcio/fósforo também deve ser equilibrada.

Já no estado adulto, os cães e os gatos devem ser alimentados para a manutenção do peso e da saúde, evitando-se a ingestão excessiva de energia.

A comer de uma tijela

O alimento deve conter alguma fibra, para dar uma sensação de saciedade, um valor reduzido de gorduras e elevado de proteína. O seu valor em cálcio e fósforo deverá ser mais baixo que nas dietas de crescimento.

A ingestão de alimento deve ser regulada em função da atividade do animal. Aconselham-se nesta altura a utilização de substâncias antioxidantes para retardar o efeito do envelhecimento.

Outra fase em que se impõe um aporte alimentar suplementar é durante a gestação, de maneira a prover as necessidades dos fetos no decurso do seu desenvolvimento e para a produção de leite durante o período de aleitamento.

Porém a importância da nutrição não se resume apenas a um coadjuvante na manutenção da saúde do animal. Assume igualmente relevância na prevenção e recuperação de algumas patologias.

Em constante inovação

Os avanços na nutrição dos animais de companhia têm acompanhado os verificados na nutrição humana, tendo este tipo de alimentação passado por uma evolução visível nas últimas décadas. Atualmente o mercado oferece uma gama bastante variada de alimentos para animais de companhia (diferentes formas, cores, sabores e marcas), e até tendências diferentes da indústria.

Gato a comer da embalagem

O século XXI é considerado o século da Nutrição e da Saúde – uma era impulsionada pela investigação científica.

Graças à constante investigação em nutrição animal, ao longo dos anos tem surgido uma crescente e variada gama de rações "medicadas" e "preventivas" o que torna possível usar a alimentação como parte integrante do tratamento ou na prevenção de muitas patologias comuns nos animais de estimação.

Sendo a alimentação um dos parâmetros mais fáceis de mudar, torna-se numa ferramenta terapêutica excelente, principalmente no caso de donos que não conseguem administrar medicamentos ou suplementos de forma fácil ou com a regularidade necessária.

No âmbito da prevenção destacam-se as rações adequadas às diferentes raças, que permitem prevenir as patologias mais comuns – obesidade nos Retrievers, problemas de pelo e estomatites nos Persas – e outras patologias específicas como sejam os problemas do trato urinário felino, as alergias alimentares, patologia do trato intestinal, entre outras.

Em consequência da maior sensibilização dos donos para os cuidados a ter com os animais de companhia e incremento do diagnóstico clínico, a procura deste tipo de produtos tem aumentado.

Para além da redução do risco de patologias recorre-se ao alimento também como promotor do bem-estar físico e mental – o chamado alimento funcional –, o alimento comum que quando consumido como parte da dieta produz benefícios para a saúde.

Na composição deste tipo de alimentos encontram-se princípios ativos classificados em grupos como: probióticos, prebióticos, simbióticos, vitaminas, compostos fenólicos, ácidos gordos polinsaturados e fibras.

Em desenvolvimento há alguns anos está um novo ramo da ciência – a nutrigenómica – cujo objetivo se traduz em estudar o impacto dos nutrientes na produção e ação de proteínas codificadas por genes específicos e nas consequências dessas proteínas na resposta aos nutrientes. Esta ciência torna possível a promoção da saúde tendo em conta a predisposição genética do animal.

Até porque cada animal é único, cada um tem o seu feitio especial, gostos, desagrados e necessidades. Tal como os humanos, têm os seus requisitos nutricionais específicos, e com uma esperança de vida cada vez maior, o que é preciso entender é que uma dieta adequada é a base da prevenção e a chave para a qualidade de vida.

É precisamente a pensar na qualidade de vida, e em criar alimentos de qualidade que atendam às necessidades nutricionais dos animais de companhia que têm surgido no mercado cada vez mais produtos diferenciados, com o apelo de "naturais".

A designação "natural" abrange os alimentos isentos de produtos químicos e sem conservantes artificiais. Uma dieta natural é comummente referida como dieta BARF, acróstico de "bone and raw food", ou "biological appropriated raw food" (ossos e alimentos crus), composta por alimentos de origem animal crus, juntamente com vegetais.

Tijela de vegetais

De acordo com os especialistas, uma dieta natural crua corretamente formulada é a mais completa e equilibrada possível, pois apresenta níveis apropriados de sódio e potássio; equilíbrio em cálcio e fósforo; enzimas e probióticos; antioxidantes biologicamente apropriados e outros nutrientes protetores; ausência de substâncias químicas artificiais, como corantes, condimentos ou conservantes; baixos níveis de hidratos de carbono, baixos níveis de cloretos e grãos; e não sujeitos a processamento por calor, método responsável por perdas de nutrientes como vitaminas e desnaturação proteica.

Para os consumidores, a segurança alimentar, e os benefícios ambientais e de saúde, são os principais fatores que levam à aquisição deste tipo de produtos. Uma forma de demonstrar amor ao seu animal de estimação é apostar numa alimentação equilibrada, zelando pela sua saúde, bem-estar e longevidade.

Ame-o e trate-o bem… por dentro e por fora.

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