TELEMEDICINA

  Tupam Editores

Etimologicamente telemedicina (tele, prefixo grego de distância + medicina, do latim medicinae, remédio) entende-se como a realização de atos médicos à distância. Na atualidade pode ser definida como o conjunto de tecnologias e aplicações informáticas que permitem a realização daquelas tarefas. Devido ao desenvolvimento acelerado das novas plataformas tecnológicas de comunicações, é previsível que novas modalidades médicas surjam nos próximos anos, nos hospitais e outras instituições de saúde, suportadas ou não num sistema nacional que permita a consulta e troca de informações em tempo real ou diferido.

Geralmente, a telemedicina é entendida como um método que envolve "a prática de cuidados médicos utilizando comunicações interativas audiovisuais e de dados, incluindo a prestação de cuidados médicos, o diagnóstico, a consulta, o tratamento, bem como formação e transferência de dados médicos".

De acordo com a National Library of Medicine, a telemedicina abrange um conjunto diversificado de tecnologias, que vão desde um simples telefone à banda larga, computadores, fibra óptica, satélites e outros equipamentos periféricos e de software. Segundo a OMS, trata-se de "a oferta de serviços ligados aos cuidados de saúde, nos casos em que a distância é um fator crítico..."

Na atualidade é também frequentemente aplicada para discussões de casos clínicos, auxílio no diagnóstico, assistência a pacientes crónicos, idosos e gestantes de alto risco, bem como na assistência direta ao paciente em sua residência. A sua aplicação na assistência primária a pequenas comunidades isoladas e em regiões geográficas ou socioculturais distantes dos grandes centros urbanos tem-se mostrado altamente vantajosa.

Evolução dos conceitos
médica

A partir de meados da década de 1990 verificou-se um desenvolvimento muito acentuado da telemedicina, com fortes investimentos em novos projetos, onde os médicos mais informados sobre estas potencialidades descobriram oportunidades para desenvolver novos formatos de prestação de cuidados de saúde.

Sob o patrocínio do Ministério da Saúde e da Portugal Telecom, iniciou-se a partir de 1994, um conjunto de projetos de natureza diversa que viriam a resultar progressivamente em experiências maioritariamente isoladas que obtiveram, até agora, maior ou menor êxito. Com a expansão da internet a partir de 1999 e todo o frenesim gerado à volta das tecnologias envolvidas, surgiu um novo termo, e-Saúde, para designar a saúde em linha, que passou a integrar a telemedicina e outras vertentes de aplicação das tecnologias de informação e comunicação (TIC) à saúde, colocando o cidadão no centro da atenção e não a consulta médica ou o próprio profissional de saúde.

Ausência da necessidade de deslocação e transporte dos pacientes, que se traduz em drásticas reduções de custos e tempo; gestão mais adequada dos recursos de saúde disponíveis, às situações, devido à possibilidade de triagem e avaliação por especialistas; acesso rápido ao aconselhamento de especialistas em casos de acidentes e emergência; utilização mais eficiente de recursos através da centralização de especialistas e da descentralização da assistência, permitindo chegar a um número maior de pessoas; abrandamento da pressão sobre os hospitais já comprometidos pela falta de recursos e espaço; estreita cooperação e integração de pesquisadores com a partilha de registos clínicos; por fim, qualidade melhorada dos programas educacionais para médicos e residentes em zonas não abrangidas pelos centros especializados.

A telemedicina está disponível, através de requerimento, para as instituições de saúde, instituições de ensino na área da saúde e profissionais de saúde. Abrange as seguintes áreas da teleconferência: teleradiologia, telecardiologia, telecardiologia pediátrica, telepsiquiatria, tele-emergência, teleginecologia, telediálise, telepediatria, telepneumologia, tele-imagiologia, telecuidados no domicílio, telepatologia, teleconsulta (através de videoconferência), teleformação (na Região Centro e na Região de Lisboa e Vale do Tejo).

O paradigma do tempo real

O conceito RealTime permite o desenvolvimento de sistemas capazes de disponibilizar interatividade entre os participantes, seja apenas via texto (chat) seja através de vídeo (two-way interactive television – IATV). Este último tipo de tecnologia é utilizado para realização de consultas "cara-a-cara" ou intervenções cirúrgicas remotas.

Apesar de ainda apresentar números proibitivos para inúmeras instituições, que no entanto se têm vindo a atenuar, a disponibilização da informação em tempo real tem vindo a sofrer uma redução drástica nos preços e na sua complexidade, de forma sustentada.

Estão hoje disponíveis múltiplas configurações possíveis para uma consulta interativa, sendo a mais típica, a de um local rural isolado para os grandes centros urbanos, onde habitualmente existem mais meios.

Neste último caso o paciente não tem de se deslocar a um local urbano para consultar um especialista, permitindo, muitas vezes, o acesso a cuidados especializados onde antes não existiam.

Praticamente todas as especialidades de medicina moderna podem ser conduzidas através deste tipo de consultas, em particular as áreas de psiquiatria, medicina interna, reabilitação, cardiologia, pediatria, obstetrícia e ginecologia. Por outro lado, foram desenvolvidos ao longo dos últimos anos, inúmeros equipamentos periféricos que podem ser ligados a computadores, permitindo auxiliar no exame interativo.

Por exemplo, um estetoscópio ligado a um sistema interativo permite ao médico ouvir os batimentos cardíacos à distância ou, por meio de uma app para smartphone, analisar as imagens do ECG de um paciente.

Tendências

Tem-se verificado uma evolução da telemedicina a par da evolução das tecnologias de comunicação, sendo destas indissociável. Como consequência da diversidade e qualidade dos meios de comunicação disponíveis, as áreas de aplicação multiplicam-se, permitindo levar serviços médicos especializados aos locais mais remotos.

Assim, a telemedicina oferece grandes vantagens na melhoria da prestação dos cuidados a todos os níveis, nomeadamente a redução e, por vezes, eliminação do impacto do factor distância na qualidade da prestação dos cuidados de saúde. A adequação e simplificação de algumas normas e regimes de conduta permitirá suprir alguns dos problemas ainda existentes.

Teleconsulta e telediagnóstico

Essencialmente, a telemedicina é a designação mais longínqua que se prende com a possibilidade de efetuar teleconsultas e telediagnósticos à distância, baseados em resultados – imagens, textos ou sons – de observações e exames médicos realizados em tempo real ou diferido.

idosos

A banalização dos sistemas de videoconferência levará tendencialmente à diminuição de custos, tornando a sua aplicação mais apetecível e viável. Com a generalização exponencial das aplicações de telemedicina, esta é cada vez mais encarada como uma nova "técnica médica", deixando de ser considerada, ainda há poucos anos, apenas como uma "tecnologia emergente".

A teleconsulta é um serviço síncrono, suportada por um serviço telefónico ou de videoconferência, que envolve, no mínimo, três atores.

De um lado da comunicação está o médico especialista e do outro o paciente, habitualmente acompanhado por um clínico de medicina geral ou enfermeiro, ou somente um técnico de saúde, consoante as competências locais disponíveis.

O telediagnóstico é um serviço assíncrono no qual um médico da especialidade à distância, recebe, analisa os resultados dos exames – imagens médicas, resultados de análises de patologia clínica ou sinais fisiológicos – e elabora o respetivo relatório, reenviando-o à origem.

Segundo o Grupo de Trabalho de Telemedicina (GTT), os serviços de telemedicina cobrem hoje praticamente todo o território nacional e permitem resposta imediata a pedidos de consulta em Tempo Real, o que permitiu atingir um tempo de espera por consulta nulo, isto é resolvido no próprio dia.

Segunda opinião e educação médica à distância

No contexto social, as doenças crónicas e o aumento da esperança de vida são duas realidades com forte impacto no quotidiano das organizações e das pessoas. Os diferentes modelos de gestão da saúde ainda não se ajustaram para acolher as consequências desta realidade, quer do ponto de vista logístico quer económico-financeiro. E os doentes crónicos, os idosos e seus familiares recusam cada vez mais o isolamento que não seja estritamente necessário.

Em articulação com as instituições prestadoras de cuidados mais diferenciados, as novas políticas públicas na área da saúde estão a incidir fortemente na definição e montagem de redes robustas de prestação de cuidados mais próximos dos cidadãos, tais como os cuidados primários e continuados. No entanto, já se observa que o tempo de permanência dos pacientes nos hospitais após intervenção cirúrgica é cada vez mais reduzido.

A fim de suprir esta lacuna, surgiram mais dois ramos da telemedicina. A teleassistência – providenciar, à distância, cuidados de saúde e bem-estar aos pacientes nas suas próprias residências – e a telemonitorização, através de dispositivos de medida, equipamentos e sistemas, que permitem manter em contacto o paciente, o elemento de apoio, o familiar, o enfermeiro e o médico.

Através da disponibilização de serviços por satélite, com o desenvolvimento da internet, a capacidade de processamento computacional aumentada e a evolução das telecomunicações a nível da mobilidade, aparecem no mercado soluções cada vez mais sofisticadas e capazes de suportar as mais diversas interações à distância, com envio e receção de imagens, texto, gráficos, sons e dados no contexto da saúde.

Maior abrangência com e-Saúde

"O conceito "saúde em linha" refere-se ao conjunto de ferramentas baseadas nas tecnologias da informação e da comunicação utilizadas para apoiar e reforçar a prevenção, o diagnóstico e o tratamento de doenças, bem como para controlar e gerir questões relacionadas com a saúde e o estilo de vida."

A UE está a avançar no sentido de criação de um "espaço europeu da saúde em linha", através da coordenação de ações e da promoção de sinergias entre políticas conexas e partes interessadas, por forma a conseguir melhores soluções, evitar a fragmentação do mercado e difundir as melhores práticas.

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A e-Saúde enquadra a aplicação das tecnologias de informação e comunicação a todas as funções que intervêm no setor da saúde como foi definido pela Comissão Europeia, no já longínquo ano de 2003 e-Health refers to the use of modern information and communication Technologies to meet needs of citizens, patients, healthcare professionals, healthcare providers, as well as policy makers.

A definição foi desenvolvida inicialmente na e-Health Ministerial Declaration, e apresentada em Maio 2003 na (e-Health Ministerial Conference). Em 2005, a Organização Mundial da Saúde, passa a adotar a definição e_Health is the combined use of electronic communication and information technology in the health sector.

Telecirurgia

Um dos aspetos mais arrojados e inovadores da telemedicina é a telecirurgia, que consiste em realizar operações cirúrgicas à distância usando para o efeito robots e técnicas computacionais avançadas.

Através deste complexo sistema, o cirurgião tem a possibilidade de controlar o robot à distância e obter uma total informação acerca da operação no local onde o paciente se encontrar.

Para que seja fiável, o sistema tem de garantir, precisão, segurança em relação a potenciais intrusos no sistema, segurança em relação ao paciente, operação em tempo real, portabilidade e diversidade de aplicações. Com o desenvolvimento deste conceito de cirurgia à distância e o avanço de técnicas de cirurgia de mínima invasão (Minimaly Invasive Surgery – MIS) será possível efetuar em zonas remotas operações cirúrgicas de elevada complexidade.

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Há três áreas nas quais o uso de sistemas de cirurgia robotizada já se tornou disponível e tende a generalizar-se: a cirurgia óssea, neurocirurgia e a cirurgia abdominal e torácica. Desenvolvido pela Forschungszentrum Karlsruhe (FZK), o projeto ARTEMIS (Advaced Robotic and Telemanipulator System for Minimal Invasive Surgery) é um exemplo de um sistema de telecirurgia de vanguarda. Foi o primeiro projeto de telecirurgia da Alemanha e um dos primeiros a nível mundial. Este sistema é constituído por três componentes: interface homem/máquina, sistema de trabalho e sistema de controlo.

Telemedicina e as TIC nos hospitais

Segundo o último relatório elaborado pelo grupo de trabalho para acompanhamento das estatísticas da sociedade da informação, da Agência para a Sociedade do Conhecimento (UMIC), presidido por Graça Simões, "o setor da saúde tem uma importância especial no âmbito da sociedade da informação.

É um setor de grande relevância social e económica, com especificidades próprias, cuja eficiência e racionalidade de gestão são fundamentais. Além disso, tem havido uma enorme evolução nas tecnologias da saúde, muito baseada em tecnologias de informação e comunicação sendo certo o seu prosseguimento no futuro. Dados daquele relatório, entretanto atualizados pelo INE e referentes a 2014 indicam que:

— 99 por cento dos hospitais têm ligações à internet, quase sempre em banda larga (97 por cento), com 60 por cento com larguras de banda maiores ou iguais a 2 Mbps (aumento de 62 por cento relativamente a 2006);
— 45 por cento dos hospitais fazem encomendas através da internet, mais 34 por cento do que em 2006;
— 35 por cento dos hospitais com ligação à internet disponibilizam acesso à rede aos doentes internados;
— 33 por cento dos hospitais tem telemedicina, principalmente telediagnóstico e teleconsulta.

Conclusão

O desenvolvimento da sociedade da informação tornou-se crítico para a democratização da telemedicina. Alguns não têm acesso físico a produtos e serviços TIC, nomeadamente de banda larga; para outros, os custos da utilização ainda são incomportáveis. Além disso, para beneficiar plenamente da sociedade da informação é essencial garantir a disponibilização de banda larga com débito suficientemente elevado.

A ampliação do protocolo estabelecido em 2016 entre o Governo português e o Governo de São Tomé e Príncipe na área da otorrinolaringologia, é um bom exemplo das potencialidades da cooperação à distância entre dois povos, na área da medicina à distância, permitindo que a população são-tomense possa realizar consultas e o respetivo tratamento, em Tempo Real, a partir do hospital CUF Infante Santo.

O projeto "Saúde para Todos", presente na República de São Tomé desde 1988 por iniciativa do Instituto Marquês de Valle Flor e no qual este protocolo se integra, é uma plataforma que permite fazer diagnósticos à distância, dar formação e fazer intervenções em tempo útil. Existem várias áreas de intervenção dentro da telemedicina, como radiologia, ecografias, a mamografia e oftalmologia, especialidades a que agora foi acrescentada a otorrinolaringologia.

Dentro de pouco tempo será necessário um débito superior a 40 Mbit/s para serviços como a telemedicina, que assumem grande importância para cada vez mais pessoas em risco de exclusão, em particular para a crescente população de idosos.

A telemedicina deverá ser tida em conta, na medida em que as suas aplicações podem contribuir para a prestação transfronteiriça e até transcontinental de cuidados, ao mesmo tempo que asseguram a prestação de cuidados médicos ao domicílio.

ARTIGO

Autor:
Tupam Editores

Última revisão:
28 de Agosto de 2017

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TELEMEDICINA

Etimologicamente telemedicina (tele, prefixo grego de distância + medicina, do latim medicinae, remédio) entende-se como a realização de atos médicos à distância.

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