CANCRO DO COLO DO ÚTERO, DOENÇA DE EVOLUÇÃO SILENCIOSA

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CANCRO DO COLO DO ÚTERO, DOENÇA DE EVOLUÇÃO SILENCIOSA

  Tupam Editores

Um pouco por toda a Europa, decorreu recentemente a semana Europeia de Prevenção do Cancro do Colo do Útero, uma iniciativa promovida pela European Cervical Cancer Association (ECCA), em colaboração com a União Internacional contra o Cancro, a Organização Europeia do Cancro e a Associação das Ligas Europeias do Cancro. A iniciativa teve por objectivo sensibilizar os políticos e as autoridades de saúde pública da Europa, no sentido de melhor compreenderem os benefícios dos programas de prevenção.

Temas como, o rastreio da doença entre os europeus, a organização de programas de detecção, recomendações e orientações a nível preventivo e de tratamento, bem como o papel das novas tecnologias no diagnóstico e a implementação de vacinas contra o vírus do papiloma humano (HPV) – o grande responsável pelo desenvolvimento e propagação da doença –, estiveram em debate na cimeira organizada pelo Parlamento Europeu.

O cancro do colo do útero, também conhecido por cervical, é, a seguir ao da mama, o mais frequente entre as mulheres, embora em regiões mais desfavorecidas lidere as estatísticas de incidência e de mortalidade. Aproximadamente dois a três por cento das mulheres com mais de 40 anos podem vir a desenvolver aquele tipo de cancro.

Todos os anos são diagnosticados cerca de 500 mil novos casos de cancro do colo do útero em todo o mundo e mais de 270 mil mulheres são vitimadas pela doença, o que corresponde a 685 mulheres por dia ou 30 por hora. A Europa regista anualmente 33500 novos casos, dos quais quinze mil são fatais. Portugal é, dos países europeus, o que apresenta a maior incidência deste tipo de cancro, com 900 mulheres atingidas e mais de 300 mortes por ano.

O cancro cervical tem origem na membrana que cobre o colo uterino ou cérvix, que corresponde à região que liga a vagina ao útero, por onde passa o feto ao nascer. Este tipo de cancro, para além de assintomático, desenvolve-se de forma muito lenta. Numa fase inicial as células passam de normais a pré-cancerígenas, depois a cancerígenas, podendo levar muitos anos até que a doença se manifeste, embora em alguns casos se desenvolva com maior rapidez.

Inicialmente processam-se alterações subtis nas células superficiais do colo uterino. Conforme as alterações se vão processando e se tornam mais evidentes, causam a chamada displasia, que corresponde a uma fase pré-maligna, podendo evoluir e tornar-se em tumor pré-invasivo ocupando apenas a camada externa do colo uterino. Esta fase pode ser detectada através de uma simples citologia vaginal e o tratamento é bastante eficaz, produzindo bons resultados.

Se estas alterações não forem diagnosticadas atempadamente, o cancro pode propagar-se para as camadas mais profundas e disseminar-se, através dos vasos sanguíneos e nódulos linfáticos, a outras partes do organismo como a bexiga, intestinos, pulmões e fígado. É nesta fase que os primeiros sintomas começam a manifestar-se e a taxa de sobrevivência decai significativamente.

Causas e sintomas

Ao contrário de outros tumores malignos, o cancro cervical é provocado por um vírus denominado Papilomavírus Humano, também conhecido pela sigla HPV. Calcula-se que aproximadamente 70 por cento das pessoas sexualmente activas estejam expostas ao HPV em determinado momento das suas vidas, embora a infecção não cause problemas à maior parte das mulheres que contraem o vírus. Apenas 0,8 por cento das infecções dão origem ao cancro que normalmente se desenvolve dez a trinta anos após a infecção pelo vírus.

Qualquer actividade sexual que envolva contacto íntimo ou genital com uma pessoa infectada pode conduzir à transmissão do vírus, não sendo o preservativo garantia de protecção, na medida em que pode ser transmitido através da pele. Por outro lado, o vírus já foi detectado em diversas outras zonas, como olhos, boca, vias respiratórias, recto, ânus e uretra. É que existem diferentes tipos de HPV e só alguns ocasionam o cancro cervical, enquanto outras estirpes podem causar apenas verrugas genitais que, com adequado tratamento, não deixam sequelas.

vírus do papiloma humano

Há mais de 100 tipos de HPV identificados, correspondendo a grande maioria a situações inofensivas. Os tipos 6, 11, 16 e 18 são os responsáveis pela maior parte das doenças genitais, estando os dois últimos associados ao cancro cervical. Cerca de 20 a 40 por cento das mulheres com vida sexual activa são infectadas pelo HPV que, geralmente, é combatido pelo sistema imunitário, passando despercebido.

Quando a infecção se torna persistente, dá origem a sinais clínicos evidentes, que podem contribuir para o aparecimento, não apenas do cancro do colo do útero, mas também de tumores na vagina, pénis, vulva, boca e ânus. A nível mundial, estima-se que uma em cada dez mulheres esteja infectada de forma persistente, sendo a incidência do vírus variável de região para região.

Trata-se de um vírus silencioso. As pessoas infectadas não apresentam sintomas podendo o vírus ser transmitido sem que a pessoa infectada tenha conhecimento. Atinge ambos os sexos, todas as etnias e idades, independentemente da sua localização geográfica.

Embora assintomático, à medida que o cancro cervical se desenvolve, pode emitir alguns sinais de alerta, como, por exemplo, um fluxo vaginal contínuo, com sangue e odor desagradável, menstruações mais abundantes e de duração anormal ou hemorragias pouco comuns, que ocorrem entre os períodos após a relação sexual ou depois da menopausa.

Quando atinge uma fase mais avançada, pode ocorrer dor na região pélvica, nas costas e nas pernas, para além de corrimentos e hemorragias vaginais anómalas. Perda de peso, fadiga, inflamação de uma das pernas, fracturas ósseas ou filtração da urina e fezes pela vagina são outros dos sintomas que podem surgir nesta fase.

Diagnóstico, prevenção e tratamento

A detecção do cancro ocorre através do exame de Papanicolau, que permite identificar células anormais no revestimento do colo do útero antes que elas se possam tornar pré-cancerosas ou cancerosas. Em simultâneo, o médico poderá realizar um exame pélvico por palpação e análise dos órgãos reprodutores femininos para identicação de situações anómalas, quer no seu tamanho quer na forma. Os resultados do exame podem ajudar os técnicos de saúde a decidir se são necessários outros meios de diagnóstico complementares. Entre eles, a biópsia – para detectar células malignas; uma colposcopia – para examinar mais profundamente e de forma amplificada o cérvix, ou a realização de um teste de ADN do HPV.

Teste vírus do papiloma humano

O teste de Papanicolau pode detectar até 90 por cento dos cancros cervicais, mesmo antes de surgirem os primeiros sintomas. A redução da taxa de mortalidade devido ao cancro cervical, em mais de 50 por cento, sobretudo nos países mais desenvolvidos, fica a dever-se a Georgios Papanicolau.

No entanto, nos países menos desenvolvidos, cerca de 40 por cento das mulheres não efectuam de forma regular o teste Papanicolau, motivo pelo qual o número de mortes devido à doença continua a ser um flagelo. Segundo dados da Aliança para a Prevenção do Cancro Cervical (APCC), nos países em desenvolvimento bastaria apenas um rastreio em toda a vida da mulher, seguido de um tratamento baseado na crioterapia para os casos positivos, no sentido de a mortalidade se reduzir entre 25 a 30 por cento.

Quando, inevitavelmente, o tumor se instala no organismo da mulher, os exames de diagnóstico são mais invasivos, requerendo, por vezes, anestesia local ou geral, como no caso da cistoscopia ou da proctoscopia.

Radiografias do tórax, assim como tomografias computadorizadas, imagens de ressonância magnética (IRM) e tomografias por emissão de positrões (PET), são alguns dos exames utilizados pelo médico para avaliar até que ponto o cancro penetrou no tecido e à volta do colo uterino ou se alastrou aos gânglios linfáticos e invadiu órgãos mais distantes (metástases). Quando ocorre esta situação, a única alternativa pode ser a cirurgia, acompanhada ou não por tratamentos posteriores de radioterapia ou quimioterapia que façam regredir o tumor.

As intervenções cirúrgicas vão desde as mais simples, para tratamentos do cancro nas suas etapas iniciais, até às intervenções mais complexas, que obrigam, em muitos casos, à extirpação do útero (histerotomia simples) ou, nos casos mais graves, à histerotomia radical, que consiste na dissecação dos gânglios linfáticos da pélvis e, eventualmente, na extracção das trompas de falópio e dos ovários.

Em ambas as situações a mulher terá a sua fertilidade comprometida. No entanto, o médico poderá proceder a uma cervicectomia, desde que o cancro não tenha progredido demasiado. Esta situação, que consiste em retirar o colo uterino e a parte superior da vagina colocando uma sutura, pode possibilitar uma futura gravidez.

Nos casos menos graves, as alternativas abrangem a criocirurgia, procedimento no qual é introduzida na vagina uma sonda de metal com nitrogénio líquido, no sentido de destruir as células anormais através de congelação. A cirurgia a laser é muito semelhante mas utiliza o laser para queimar as células, podendo também retirar pequenas amostras de tecido para estudo.

Por último, poderá também proceder-se a uma conização, nos casos em que o cancro esteja na sua fase inicial. Esta técnica prevê a utilização de um bisturi cirúrgico ou laser e de um fio de metal aquecido por meios eléctricos, com o objectivo de extrair um pedaço de tecido em forma de cone.

As opções de tratamento dependem sempre da extensão da doença, do tipo de cancro, da idade, do estado de saúde e condição física da mulher e das suas intenções de engravidar.

Contudo, para além da prevenção secundária, que implica os rastreios regulares e o controlo dos factores de risco, a grande arma contra o cancro cervical surge a nível da prevenção primária, com a descoberta de duas novas vacinas contra o vírus do papiloma humano. Uma, que protege contra os subtipos de HPV 6 e 11; a outra, contra os 16 e 18, poderão reduzir significativamente a incidência de resultados considerados anormais nos rastreios, para além de proteger cerca de 80 por cento das mulheres em risco de contraírem cancro cervical. Para um resultado mais eficaz, a vacina deve ser administrada antes do início da vida sexual, sendo por isso, recomendável a sua aplicação em crianças dos onze aos treze anos.

Para além da inoculação preventiva, também está em estudo um outro tipo de vacinação denominado terapêutica, que poderá ser promissora para mulheres já infectadas. O objectivo da futura terapia é obrigar o vírus a entrar em remissão ou impedir a evolução das anomalias no colo uterino antes que o cancro se instale.

A imunização contra o HPV oferece uma solução de longo prazo, mas o seu impacto na taxa de mortalidade poderá não ser imediato. Por isso, os esforços na prevenção secundária devem manter-se, sobretudo nas regiões menos desenvolvidas, com dificuldades em organizar as necessárias campanhas de vacinação. Mas, mesmo nos países industrializados, é importante que os programas de rastreio continuem a efectuar-se, pois as vacinas não protegem contra todas as estirpes de HPV. Além disso, muitas mulheres poderão eventualmente já estar infectadas com o vírus antes de se vacinarem.

cancro cervical

Em qualquer programa de prevenção é essencial conhecer os factores de risco, de modo a melhor poder intervir. No que se refere ao cancro cervical, o comportamento sexual, do homem e da mulher, é um dos detonantes para o aparecimento da doença. Está demonstrado que a idade em que se tem a primeira relação sexual, a existência de múltiplos parceiros, assim como a sua diversidade sexual, aumentam a probabilidade de surgimento do cancro.

A prática de sexo seguro deve ser incentivada. Apesar de o preservativo não proteger completamente contra o HPV, poderá evitar a infecção pelo VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) e outras doenças sexualmente transmissíveis que afectam o sistema imunitário, terreno fértil para o cancro cervical evoluir com maior rapidez e intensidade. Também está demonstrado que o hábito de fumar pode predispor para o desenvolvimento do cancro na mulher, ao reduzir o nível de imunidade celular do organismo.

Por outro lado, o número de filhos, bem como a idade da primeira gravidez, pode influenciar o desenvolvimento da doença. A utilização ininterrupta, durante longos períodos, de anticonceptivos orais parece também estar associado a uma maior predisposição para o cancro cervical.

Controlar todos aqueles factores de risco é um passo importante na prevenção. Não obstante a maioria das infecções ser combatida pelo sistema imunitário, cerca de vinte por cento tornam-se crónicas e podem originar o cancro, sobretudo quando associadas a factores de risco, tanto genéticos como adquiridos.

O HPV tem agora um inimigo de peso com a introdução das vacinas. Dada a incapacidade de rastrear todas as mulheres através de citologias, a vacinação pode ser o melhor aliado para erradicar um vírus que ocasiona a morte prematura a milhões de pessoas em todo o mundo.

Embora há três décadas a descoberta do HPV pelo actual prémio Nobel da Medicina, o alemão Harald zur Hausen, tenha sido recebida com cepticismo pela comunidade científica, actualmente pode ser a única esperança para muitas mulheres que, na sua maior parte, morrem sem conhecer a causa da sua doença.

Ver mais:
ALIMENTAÇÃO ANTICANCEROSA
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CANCRO DA PRÓSTATA
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