CANCRO DA PELE

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CANCRO DA PELE

  Tupam Editores

Portugal celebrou em maio o Dia do Euromelanoma, dedicado à promoção dos cuidados a ter com o sol e ao despiste do cancro da pele. O evento, organizado pela Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo (APCC) em parceria com a Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV) e com o patrocínio da Direcção Geral da Saúde (DGS), teve como objectivo informar a população sobre os métodos preventivos, diagnóstico precoce e tratamento do cancro cutâneo.

Na data foram realizados rastreios gratuitos de cancro da pele, principalmente às pessoas comummente identificadas como grupo de risco elevado em desenvolver a doença. Neste se incluem as pessoas de pele clara ou sardenta, com histórico de queimaduras solares, sobretudo em criança e adolescente, com antecedentes pessoais ou familiares de cancro da pele, presença de múltiplos sinais e pessoas que durante a sua actividade profissional ou de lazer estiveram sujeitas a longa exposição solar ou sofreram queimaduras de sol. Incluem-se neste grupo os frequentadores de solários e indivíduos transplantados.

No nosso país surgem por ano cerca de dez mil novos cancros da pele e mais de mil novos melanomas (o mais maligno). Apesar de nos mantermos abaixo da média europeia em novos casos de melanoma, a incidência aumentou 400 por cento nos últimos 40 anos, tendo passado de dois para oito casos por cem mil habitantes, com uma mortalidade de 10 a 20 por cento decorridos cinco anos.

Em 90 por cento dos casos a causa ficou a dever-se a exposição excessiva aos raios ultravioleta sobretudo quando é episódica, súbita mas intensa, e ocorreu fora da época balnear habitual, principalmente na infância, adolescência ou no adulto jovem.

A pele humana tem uma capacidade limite para absorver radiação ultravioleta. Se esta for ultrapassada, a probabilidade de desenvolver um cancro cresce exponencialmente.

A adesão aos solários veio aumentar ainda mais esse risco. A busca por uma tez sempre bronzeada, associada a férias, ao poder económico e a uma classe social elevada leva muitas pessoas a frequentar os solários, principalmente nos sectores mais jovens.

Talvez por essa razão o cancro da pele tem vindo a aumentar entre os jovens. Há muito mais casos de melanoma em pessoas abaixo dos 30 anos do que havia há alguns anos, sendo possível estabelecer uma relação entre o uso dos solários e o desenvolvimento da doença.

Embora estes emitam radiação ultravioleta A, menos cancerígena que a B, é um tipo de radiação que penetra mais profundamente na pele, provocando envelhecimento precoce. Mas isto não é tudo! Uma sessão de apenas vinte minutos de solário equivale a um dia e meio de praia, dado que a radiação é muito mais concentrada.

Solario

Tudo o que fazemos é registado e permanece gravado na pele. É importante que as pessoas estejam atentas à mudança e aparecimento de novos sinais, pois o diagnóstico e tratamento precoce do cancro cutâneo é fundamental para diminuir a morbilidade e mortalidade por este tipo de cancro.

Tipos de cancro e sinais de alarme

O cancro da pele é o tipo de cancro mais frequente nos indivíduos de raça branca (caucasiana). Apesar do elevado número de casos, quando diagnosticado e tratado na sua fase inicial, apresenta elevadas taxas de cura.

Existem três tipos principais de cancro da pele, representando 97 por cento do total: o carcinoma basocelular (também conhecido por basalioma, que corresponde a 67 por cento dos casos), o carcinoma espinocelular ou pavimentoso (20 por cento) e o melanoma (dez por cento).

O carcinoma basocelular é o cancro cutâneo mais vulgar. Ocorre em 75 por cento dos casos em áreas de pele cronicamente exposta ao sol (face e pescoço), ou súbita mas intensamente exposta (tronco). Atinge sobretudo pessoas que se expõem regularmente ao sol, como trabalhadores rurais, pescadores, trabalhadores da construção civil.

Aparece habitualmente após os 40 anos de idade, manifestando-se sob a forma de nódulo rosado e brilhante, de crescimento lento, ou ferida superficial que surge sem causa aparente não revelando tendência para cura espontânea. O tratamento na fase inicial é muito simples e resulta quase sempre na cura mas, se for deixado evoluir sem tratamento, pode tornar-se muito agressivo, invadindo os tecidos circundantes, provocando grandes defeitos e mutilações sobretudo em certas áreas anatómicas (nariz, pálpebras, etc.). Mesmo nestas fases a cura é muitas vezes possível, recorrendo à cirurgia e radioterapia, embora o doente possa ficar desfigurado para o resto da vida.

O carcinoma espinocelular é o segundo tipo de cancro cutâneo mais frequente. Atinge os grupos profissionais que estão permanentemente expostos ao sol, mas de grupos etários mais avançados que no caso do basilioma.

Surge nas áreas do corpo mais expostas, como a face, pescoço, dorso das mãos e pernas e quase sempre sobre lesões precursoras (pré-cancerosas). Na maior parte dos casos surge sobre as chamadas queratoses solares ou actínicas, mas também pode desenvolver-se a partir de cicatrizes, pós-queimadura, úlceras e fístulas crónicas ou ainda em pessoas que permaneceram muito tempo em contacto com agentes carcinogénicos (tabaco, raios X, arsénico, alcatrão e seus derivados).

É um tumor mais agressivo e de crescimento mais rápido que o basalioma e manifesta-se habitualmente sob a forma de nódulo, de crescimento rápido, com tendência para ulcerar e sangrar facilmente. Além de ser localmente invasivo, se deixado evoluir naturalmente, pode dar origem a metástases à distância, que podem invadir órgãos vitais e provocar a morte. Todavia, quando diagnosticado e tratado atempadamente tem elevadas probabilidades de cura.

O Melanoma é o cancro da pele mais perigoso e um dos tumores malignos mais agressivos da espécie humana. Desenvolve-se a partir dos melanócitos da epiderme – as células responsáveis pelo fabrico da melanina, o pigmento natural que dá a cor bronzeada à pele.

Atinge grupos etários mais jovens que os cancros já referidos e, ao contrário do carcinoma basocelular ou espinocelular, relacionados com a exposição crónica ao sol, o melanoma maligno parece estar mais frequentemente associado à exposição solar intermitente e aguda e, muitas vezes, aos chamados "escaldões", especialmente quando ocorridos em idade jovem.

Pode surgir sobre a pele aparentemente sã, em qualquer parte do corpo ou sobre sinais pré-existentes. O aspecto inicial do melanoma é variado mas caracteriza-se, normalmente, pelo aparecimento de um pequeno nódulo ou mancha, de cor negra de alcatrão, sobre pele aparentemente sã, ou sobre um sinal já existente.

O tratamento é quase sempre cirúrgico e, quando efectuado nas fases iniciais, em que o tumor ainda é muito fino (espessura inferior a meio milímetro), atinge elevadas taxas de cura. Quando se torna mais espesso (superior a quatro milímetros), as probabilidades de cura ficam bastante reduzidas, existindo o risco eminente de metastização à distância. Assim, tanto para este como para os outros tipos de cancro, o diagnóstico precoce é fundamental. É necessário por isso estar alerta aos sinais de alarme que o nosso corpo pode revelar.

A maioria esmagadora dos sinais da pele (nevos), quer de nascença quer adquiridos, é completamente inofensiva. Porém, o surgimento recente de um sinal de cor negra em pele aparentemente sã, a modificação de um sinal já existente, a alteração de tamanho (crescimento recente), alteração da forma (contorno irregular), alteração da cor (negra, castanha, rosada), o aparecimento de prurido, inflamação ou ulceração (ferida) e o aparecimento de hemorragia (sinal que sangra facilmente) são razões mais do que suficientes para consultar um dermatologista o mais rápido possível.

skincheck
Formas de prevenção

Prevenir o cancro da pele está ao alcance de cada um. O diagnóstico precoce e os cuidados com a exposição ao sol são a melhor forma de prevenção. O auto-exame da pele é um método simples, através do qual se pode detectar precocemente um tumor cutâneo, incluindo o melanoma. A observação regular da sua pele permite-lhe conhecer o seu aspecto, os sinais e manchas e identificar mais facilmente qualquer alteração ou novos sinais suspeitos.

Ao fazer o exame cutâneo tenha em mente as primeiras quatro letras do alfabeto ABCD: Assimetria (uma metade diferente da outra), Bordos irregulares (contorno mal definido), Cor variável (várias cores numa mesma lesão) e Diâmetro (mais de 6 mm). Pode ser útil anotar as datas e a aparência da pele em cada exame.

Para além deste método nunca devem ser descurados os cuidados habituais em caso de exposição prolongada ao sol. Prevenir queimaduras e, a longo prazo, o cancro da pele é simples. Basta ter alguns cuidados antes e durante a exposição solar, nomeadamente:

– Usar sempre um protector solar com um factor de protecção adaptado ao tipo de pele (o rosto necessita geralmente de um factor de protecção superior ao escolhido para o corpo);

– Usar o protector solar diariamente, nas áreas mais expostas e aplicá-lo 20 a 30 minutos antes de cada exposição solar;

– Evitar a exposição solar entre as 12 e as 16 horas, considerado o período mais prejudicial;

– Reaplicar sempre o exposição solar a cada 2 horas e após nadar e transpirar, pois a água e a transpiração reduzem a eficácia dos filtros solares;

– Usar óculos de sol, chapéu ou bonés que ajudem a proteger o rosto, lábios e olhos;

– Não expor crianças muito pequenas directamente ao sol;

– Os dias nublados também exigem o uso de filtro solar, pois 40 a 60 por cento da radiação atravessa as nuvens atingindo a Terra;

– Cuidado com a luz reflectida (a luz do sol reflecte-se na areia, atingindo a pele, mesmo na sombra).

– Não esqueça que o período de latência de um cancro é de vinte anos, e o que não sente agora pode vir a afectá-lo no futuro.

Investigação renova esperança de cura

A pensar no futuro, e na cura deste tipo de cancro, equipas de investigadores trabalham, desde 2010, numa terapia inovadora para os casos mais graves de melanoma. O novo tratamento utiliza um anticorpo monoclonal, o ipilimumab, que estimula o sistema imunitário através de uma proteína que se encontra nas células T. Ao impedir que a proteína fique bloqueada interrompe o alastramento do cancro, ou seja, utiliza o corpo no ataque à doença, o que reduz os efeitos secundários dos tratamentos com quimioterapia.

O medicamento, de nome comercial Yervoy, foi aprovado em Março pela FDA para o tratamento do melanoma metastático. A terapia é uma nova forma de manipular o sistema imunitário para obter uma resposta, importante, no caso deste tipo de cancro.

A substância, administrada intravenosamente, recebeu a aprovação com base nos resultados de um estudo clínico de fase 3 em que participaram 676 pessoas diagnosticadas com um melanoma avançado e não haviam respondido aos tratamentos existentes. Os resultados mostraram que a média de sobrevivência dos doentes que tomaram o ipilimumab foi de dez meses, contra seis meses para os que receberam as terapias convencionais.

Os cientistas salientam, no entanto, que não se pode falar em cura, mas em controlo da doença, tornando-a numa doença crónica, impedindo a sua progressão. Apesar dos potenciais riscos, o ipilimumab é o primeiro medicamento a conseguir um aumento na taxa de sobrevivência dos doentes com melanoma em estado avançado.

O medicamento é promissor e renova a esperança de muitos doentes mas, enquanto a ciência não avançar e permitir a cura deste tipo de cancro, nunca é demais relembrar a importância da protecção solar e do auto-exame cutâneo.

Esteja atento à sua pele, não ignore um sinal que se modificou!

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