BIRRAS, COMO LIDAR COM ELAS - As melhores estratégias para um crescimento equilibrado

  Tupam Editores

Quem nunca assistiu a uma birra ensurdecedora de uma criança em plena rua, ou no supermercado porque quer e tem de ter um determinado brinquedo ou uma guloseima? E quem já olhou para baixo e verificou que a criança que esperneia no chão é a sua? Muitos de nós, não é? A verdade é que a este clube todos os pais vão pertencer... numa altura ou noutra.

É durante a infância que os pais são confrontados com os inúmeros desafios implícitos na educação de um filho. As birras fazem parte do normal desenvolvimento infantil, e  coincidem com a altura em que a criança está a adquirir autonomia e a tentar dominar o meio ambiente.

Embora ruidosas, desesperadas e embaraçosas (principalmente em público) não são mais do que manifestações coléricas da vontade da criança quando se apercebe que já se pode fazer ouvir – e de que maneira!

Surgem igualmente em ambos os sexos, com maior ou menor intensidade, sobretudo em crianças com idades compreendidas entre os 18 e 48 meses, com um pico entre os 2 a 3 anos, e são muito regulares.

Para se ter uma noção, entre os 2 a 3 anos, 20 por cento das crianças têm birras pelo menos uma vez por dia e 50-80 por cento têm birras pelo menos uma vez por semana; as crianças que têm birras frequentes aos 2 anos continuam a tê-las aos 3 anos em 60 por cento dos casos, persistindo até aos 4 anos em 60 por cento destas; e o temperamento explosivo mantém-se ao longo da infância em 5 por cento das crianças.

Mãe-dor-cabeça

Nestas idades a criança recorre à birra porque ainda não possui os mecanismos para lidar com a frustração, a sua linguagem verbal é insuficiente, não tem capacidade para percepcionar o futuro e adiar as suas vontades e ainda tem poucas competências para resolver problemas. Assim, utiliza a birra para chamar a atenção do adulto ou – sobretudo a partir dos 3 anos quando já domina melhor a linguagem falada –, como forma de obter o que deseja e para manipular o adulto. É a afirmação do “Eu”.

Uma birra poderá durar cerca de 20 segundos ou prolongar-se durante horas, e pode incluir choro, gritos, pontapés, rigidez muscular, extensão dos membros e do tronco, mas a criança também pode bater nos outros, bater com a cabeça no chão ou nas paredes, autoflagelar-se, atirar-se para o chão, espernear, fugir, atirar com objetos, suster a respiração ou desencadear o vómito.

Entre os fatores desencadeantes está o cansaço, o sono, a fome, e certas situações como a refeição, a hora de deitar ou de tomar banho, as idas ao supermercado ou a falta de atenção.

O desafio para os pais será lidar com as birras assim que elas ocorram e ensinar à criança a acalmar-se rapidamente, pois reduzirá substancialmente a aflição, da criança e a própria.

Estratégias para lidar com as birras

Pais e filhos têm papéis distintos na hierarquia familiar, cada um deve desempenhar o seu, ao mesmo tempo que respeita o outro. Ajudar a criança a aprender e a cumprir regras sociais faz parte do papel dos pais, e isso não impede o estabelecimento de uma relação de proximidade.

Um ambiente familiar estruturado, onde a criança sabe que existem limites e o que esperam do seu comportamento, ao mesmo tempo que recebe carinho e compreensão, facilita a aprendizagem das normas sociais e ajuda a desenvolver um sentimento de confiança.

Pai-bebé-birra

As birras das crianças podem ser uma verdadeira dor de cabeça para pais e cuidadores, e até interferir significativamente no quotidiano de todos; no entanto, existem algumas estratégias que ajudam a lidar com o fenómeno – e não envolvem gritos, puxões de orelhas ou palmadas, mas sim firmeza e autoridade, desenvolvidas a médio prazo.

Para começar, é importante implementar regras claras. Quando se dirigir a um local público deve apresentar ao seu filho as consequências positivas e negativas decorrentes do seu comportamento. Antes de entrar numa loja deve estabelecer contacto visual com a criança e expor de forma clara o comportamento que dela espera, e o que vai acontecer como resultado. Deve confirmar se percebeu as instruções que lhe deu, fazendo-a repeti-las.

Seja firme! As birras das crianças podem ser muito poderosas e por diversos motivos os pais são tentados a ceder. Em lugares públicos os olhares de terceiros são muitas vezes incomodativos. Em situações de maior cansaço, ou indisponibilidade emocional para “lutar” contra as birras, a saída mais fácil parece ser ceder – o que seria um erro fatal.

Seja firme e consistente nas regras que implementou, caso contrário, a tendência será para que a criança tente sempre contorná-las na esperança de que os pais cedam às suas vontades. A chave aqui é não satisfazer o pedido da criança. Se o fizer, estará a dizer-lhe que o seu mau comportamento lhe confere privilégios.

Birra-supermercado

Em algumas situações, chamar a atenção da criança para outra coisa pode ser a melhor saída para uma birra, especialmente quando o comportamento ocorre em locais públicos. Fazê-la rir ou distraí-la com outro atrativo costuma ser eficaz e esta acaba por esquecer a razão do escândalo que estava a fazer há apenas alguns minutos.

Não dê atenção à birra. As birras são uma espécie de “teatro”, que servem para a criança manifestar publicamente que está descontente e, como tal, só funcionam bem quando têm espetadores. É por esse motivo que muitas vezes as crianças decidem fazê-las em locais públicos, como quando se têm convidados em casa, quando se está num restaurante ou então num shopping ou hipermercado.

Assim, a melhor forma de lidar com as birras é, sempre que seja possível, ignorá-las. Obviamente, tem que se garantir a segurança da criança, mas o ideal é deixá-la sozinha quando está a fazer uma birra. Numa primeira fase vai berrar mais alto para chamar a atenção, mas depois acaba por parar.

Mantenha a calma. Pode ser muito difícil lidar com situações de birra e a calma nem sempre prevalece. É importante que não se exalte quando a criança faz uma birra e que lhe dê um exemplo adequado de como gerir emoções. Se o objetivo é que ela aprenda a lidar com a frustração e com as emoções de valência negativa, o adulto deverá ser um modelo de comportamento.

Não insista em conversar na hora da raiva e da frustração. A criança não irá ouvir o que os pais lhe dizem no calor da birra e o melhor é esperar que acalme. Nessa altura, deve explicar-lhe com clareza que esse tipo de comportamentos não leva a nada. Poderá aplicar um pequeno castigo, de acordo com a regra que havia estipulado. Não ameace, aplique o castigo!

Seja consistente, se não o fizer, ela poderá aproveitar-se desse facto para obter mais recompensas. Se decidir aplicar um castigo, faça-o imediatamente a seguir ao mau comportamento, ou ele deixará de o associar a esse comportamento em concreto, e não obterá o efeito pretendido.

Esteja atento ao comportamento da criança. Se as birras não faziam parte do seu comportamento e nota que têm vindo a surgir com mais frequência, esteja atento! Tente perceber se algo mudou na sua rotina, no seu comportamento na escola ou noutros contextos. As birras poderão ser um reflexo de instabilidade emocional provocada por outras problemáticas.

A juntar a estas estratégias, existe ainda um conjunto de atitudes que os pais devem evitar tomar, pois reforçam os problemas de comportamento já existentes.

Atitudes que devem ser evitadas

Evite mimar excessivamente. A “mimalhice” exige a satisfação de todas as vontades da criança, sob a máscara da troca de afeto.  Mas amar não significa fazer todas as vontades. Os pais não devem ter receio de demonstrar aos filhos que não podem fazer tudo o que querem, e que é necessário respeitar as outras pessoas.

Na definição das regras nem sempre há concordância. No entanto, para que isso não se transforme num problema, os pais devem identificar as situações que causam mais desentendimentos de forma a agirem em conformidade, evitando a desautorização. Quando um progenitor castiga ou elogia, o outro não deve criticar, pelo menos na presença dos filhos.

É importante ser-se firme e consistente, usando sempre a mesma estratégia em situações semelhantes pois a falta de consistência nas regras poderá levar ao fracasso, e permite que a criança obtenha aquilo que deseja mesmo quando não obedece.

As ameaças não levam a parte alguma. Quando a criança não obedece é preferível ter uma atitude calma e refletida. Se for necessário, esperar um momento para pensar antes de fazer alguma ameaça irrefletida que depois não se concretize. Assim, será mais fácil para a criança acreditar que quando os pais dizem alguma coisa estão a falar a sério.

Os longos sermões e os gritos também são de evitar. Quando consideram que o comportamento da criança exige uma chamada de atenção, os pais devem faze-la de forma breve e firme, para evitar que ela se distraia.

criança-chora

Quanto aos gritos, a única vantagem será aliviar a tensão, porque revela descontrolo e convida a fazer o mesmo: vence quem fala mais ALTO!
A reação do adulto ao lidar com uma birra é muito importante e pode pôr fim à mesma ou dar-lhe mais forças, mantendo a sua presença.

O papel dos pais é o de ensinar que as birras não são o caminho a seguir, que não são a solução “fácil” para conseguirem tudo o que pretendem. A pior resposta a uma birra é ceder à vontade da criança, pois assim ela passa a querer assumir sempre o controlo da situação no futuro.

Acima de tudo, fique atento! Se as birras assumirem uma presença constante no quotidiano da família; se achar que a sua frequência e intensidade já ultrapassaram o que seria normativo em termos de desenvolvimento infantil; se já utilizou várias estratégias aqui apresentadas e não vê melhorias no comportamento do seu filho, talvez seja melhor procurar aconselhamento profissional, que poderá ajudar a compreender as causas das birras, ajudá-lo a alcançar maior estabilidade emocional e capacidade de autocontrolo, e ainda ajudar os pais a lidar mais eficazmente com este problema e a modificar possíveis fatores de manutenção do mesmo.

Independentemente da estratégia que escolher para lidar com as birras lá de casa, não deixa de lhe associar uma boa dose de paciência. Nunca é demais!

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