BEBIDAS ENERGÉTICAS

  Tupam Editores

Embaladas em latas finas e leves, com um visual atrativo, as bebidas energéticas (BE) estão entre os principais produtos do mercado de bebidas. Sem definição consensual bem estabelecida, são conhecidas pela sua designação comercial e publicitadas como tendo a capacidade de incrementar a performance física e mental, com aumento da resistência, da concentração e diminuição do cansaço.

Pertencentes a uma nova classe de alimentos denominados “alimentos funcionais”, as BE correspondem a um grupo de bebidas não alcoólicas com um elevado teor de  cafeína e às quais são adicionadas outras substâncias estimulantes não nutritivas, nomeadamente hidratos de carbono (glucoronolactona, dextrose, sacarose), aminoácidos (taurina), vitaminas (B6, B12, C, tiamina, riboflavina, piridoxina, L-carnitina) e extratos de plantas (ginseng, guaraná), entre outras.

Embora a composição possa variar de acordo com as marcas existentes, os ingredientes mais comuns das BE são os hidratos de carbono e a cafeína.

Presente nas bebidas mais populares do mundo, como o café, chá e outros refrigerantes de extrato vegetal (colas), o teor de cafeína nas BE é bastante superior, variando entre 50 a 505 mg por cada 250 ml (uma lata), o equivalente a aproximadamente dois cafés expresso, e superior a duas embalagens de refrigerante. Quanto aos hidratos de carbono, cada embalagem pode conter entre 1,5 a 12 g, por cada 100 ml.

Apareceram na Europa e Ásia nos anos 60, mas foi a introdução de uma conhecida marca nos EUA, em 1997, que promoveu o marketing destas bebidas, permitindo que o seu mercado crescesse exponencialmente. Em 2006 foram introduzidas no mercado mundial cerca de 500 marcas de BE que prometiam revitalizar mente e corpo, e o seu consumo tem aumentado de forma progressiva, particularmente entre os adolescentes e adultos jovens, que são quem mais procura a “energia engarrafada”.

Segundo a American Academy of Pediatrics (AAP), a prevalência estimada de consumo de BE é de 30-50 por cento neste grupo etário. Em 2012, num estudo da European Food Safety Authority (EFSA), no qual foram incluídos 16 países, 68 por cento dos adolescentes haviam consumido BE no último ano, em comparação com 30 por cento dos adultos e 18 por cento das crianças.

Latas de refrigerantes

Em Portugal, o consumo de BE ainda está pouco estudado. Em 2014, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) realizou um estudo semelhante ao da EFSA, numa amostra do distrito de Lisboa, tendo verificado o consumo de BE em 42 por cento dos adolescentes. A fácil disponibilidade e a grande diversidade das BE, assim como a adoção de estratégias de marketing em áreas de interesse dos adolescentes, como a música e o desporto, torna-as bastante atrativas para este grupo etário.

Bebidas energéticas versus bebidas desportivas

Os termos “bebidas energéticas” e “bebidas desportivas” são utilizados para genericamente designarem bebidas utilizadas pelos praticantes de exercício físico, seja em competição ou simplesmente durante e/ou após uma corrida ou um jogo de futebol com os amigos. O consumo de qualquer delas poderá parecer indiferente, mas não é, uma vez que a sua composição e objetivo são distintos.

A diferença entre bebidas desportivas (BD) e BE é que as últimas possuem substâncias estimulantes, de entre as quais se destaca a cafeína – que é um estimulante do Sistema Nervoso Central, embora de potência inferior às anfetaminas –, mas também ginseng, guaraná, taurina e, eventualmente, substâncias dopantes, cujos nomes pouco comuns e em latim, poderão escapar aos mais distraídos.

Desconhecendo a composição e os efeitos das BE os adolescentes muitas vezes ingerem-nas antes e após o exercício físico aumentando o risco de desidratação, devido à perda de fluidos pela transpiração e ao efeito diurético da cafeína, logo, o seu consumo deve ser evitado. É importante referir que as bebidas energéticas não foram formuladas para reidratação.

Já as bebidas desportivas, além de não gaseificadas, são uma excelente fonte de energia e de hidratação pois são compostas por água e hidratos de carbono, como sacarose, glicose, frutose e galactose, entre outros, e ainda por eletrólitos (minerais como o cálcio, magnésio, potássio e sódio) – tudo em formulações que permitam a rápida absorção de líquidos de forma a prevenir a fadiga.

Rapaz a beber bebida desportiva

Os objetivos deste tipo de bebidas são essencialmente fornecer água, hidratos de carbono e repor os eletrólitos perdidos através da transpiração, dos quais se destaca o sódio, muito importante para a absorção da água no intestino e para a retenção hídrica no organismo.

A regulamentação de bebidas contendo cafeína tem sido um desafio devido ao elevado consumo de bebidas como o café e o chá, que possuem o estimulante como constituinte natural. A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA limita o conteúdo de cafeína a 18 mg por 100 ml nos refrigerantes que são classificados como alimento. Não existe, no entanto, regulamentação da comercialização e dos ingredientes das BE que estão classificadas como suplementos alimentares.

Para prevenir potenciais problemas de saúde pública associados ao consumo de BE, alguns países já começaram a regulamentar a sua rotulagem, distribuição e comercialização. Em geral, na União Europeia, é exigida a rotulagem das bebidas energéticas, alertando para o facto de possuírem alto teor de cafeína.

Desde 2014 que estas medidas são reforçadas para assegurar que todas as bebidas com alto teor de cafeína (>150 mg/L) se apresentem rotuladas com a informação “Elevado teor de cafeína. Não recomendado para crianças ou mulheres grávidas ou a amamentar”, seguido do teor de cafeína expresso em mg/100ml.

Cocktail

A ingestão de BE e de BD tem aumentado bastante entre as crianças e os adolescentes, que as preferem pelo sabor agradável, para saciar a sede e para obter energia extra para o rendimento físico, para melhorar o estado de atenção e para se sentirem mais despertos.

A questão que se põe é: serão essas bebidas saudáveis e correspondem ao publicitado, ou quem as ingere corre riscos de saúde? Poderá o consumo crescente de BE vir a tornar-se num problema de saúde pública?

Os efeitos das bebidas energéticas na saúde

Apesar de conscientes dos potenciais efeitos na saúde, comparativamente aos adultos, os adolescentes preocupam-se menos com a segurança das BE, assumindo que qualquer produto à venda no mercado não tem efeitos secundário prejudiciais.

Na realidade, não são bebidas saudáveis, mas se ingeridas de forma moderada e esporádica, não representam perigosidade significativa e podem mesmo ser úteis quando se precisa, ocasionalmente, de um pouco de energia extra.

O seu consumo generalizado, porém, tem vindo a causar uma crescente preocupação devido aos níveis de cafeína. Recentemente surgiram os chamados “energy shot drinks”, bebidas energéticas com maior concentração de cafeína e taurina, em geral rotulados como suplementos alimentares e/ou para exercício/esforço muscular ou para atletas, que só vieram ampliar a polémica que já rodeava estes produtos.

Tanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) como a AAP já alertaram para os efeitos prejudiciais das BE, recomendando que não sejam consumidas por crianças e adolescentes.

Os vários efeitos adversos descritos estão relacionados principalmente com a cafeína, como por exemplo, taquicardia, agitação, dores de cabeça e enxaquecas, insónias, desidratação, tonturas, ansiedade, irritabilidade, palpitações, tremores, aumento da tensão arterial e distúrbios gastrointestinais (náuseas, vómitos). Existe ainda a possibilidade de as BE interferirem com alguma medicação que se esteja a tomar, especialmente se estiver relacionada com a asma ou depressão.

É importante referir que os efeitos colaterais estão dependentes da dose ingerida, podendo o aumento do consumo estar associado ao aparecimento de sintomas de maior gravidade, como convulsões, hemorragias, arritmias ou alucinações, que podem mesmo levar à morte.

O risco aumentado de obesidade e cáries dentárias, devido ao elevado teor de hidratos de carbono, é mais um efeito adverso das BE a considerar. A obesidade infantil, considerada como um grande problema de saúde a nível mundial, pode tornar-se uma preocupação ainda maior com o aumento da popularidade destas bebidas altamente calóricas. As calorias adicionais podem aumentar a pressão arterial, níveis de glicemia, IMC, deficiência de cálcio, problemas dentários, depressão e baixa autoestima.

Além das substâncias mencionadas, as BE contêm outros estimulantes e aditivos (guaraná, taurina, ginseng, carnitina), cujos efeitos a curto e a longo prazo ainda não são totalmente conhecidos e que, se associados à cafeína, poderão ser potenciados.

Outra situação alarmante, e cada vez mais comum entre os adolescentes, é a associação do consumo de BE com álcool. A sua frequência pode variar entre 15-85 por cento e ocorre principalmente em locais recreativos (bares e discotecas). Este consumo associado, para além de provocar uma menor perceção dos efeitos do álcool, originando uma falsa sensação de sobriedade, altera também a perceção neurocognitiva, aumentando a probabilidade de serem adotados outros comportamentos de risco, como o tabagismo ou o uso de drogas ilícitas.

Barman redbull

Perante a elevada ingestão de BE detetada entre os adolescentes, torna-se essencial aumentar a consciencialização das crianças, jovens, encarregados de educação, professores e sociedade no geral para este tipo de consumo e riscos associados.

É necessária, especialmente, a sensibilização dos profissionais de saúde, que devem tentar identificar sinais ligados ao consumo destas substâncias e estar familiarizados com os riscos desse consumo devendo ter, juntamente com os pais e educadores, um papel pró-ativo na sensibilização das crianças e adolescentes.

Investigações a longo prazo devem poder definir doses máximas de segurança, efeitos do seu uso intenso/crónico e efeitos em populações de risco, nomeadamente com condições médicas pré existentes, as que consomem estas bebidas antes e após o exercício físico ou em combinação com o álcool.

Apesar de tudo, não nos assustemos. Se ingerir uma bebida energética ocasionalmente para se sentir mais revigorado, os efeitos na sua saúde serão os mesmos que quando ingere o tradicional cafezinho e – poderá ser uma surpresa para si –, também não vai ganhar asas!

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