OS INSETOS NA DIETA HUMANA - Fonte proteica alternativa

OS INSETOS NA DIETA HUMANA - Fonte proteica alternativa

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  Tupam Editores

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Fica com pele de galinha só de pensar em comer uma formiga, um grilo ou um gafanhoto? Pois saiba que para dois biliões de pessoas em todo o mundo comer insetos é um gesto banal. Tão banal como para si comer um bife ou uns filetes de pescada.

A verdade é que há muito que os humanos são entomófagos, ou seja, se alimentam de insetos. A entomofagia é uma prática humana com alguns milénios, sendo parte fundamental da alimentação de muitas populações e de outros primatas.

Muitos animais já o faziam e alguns humanos tê-lo-ão adotado também, trazendo-o até aos dias de hoje, quer tenha sido devido à escassez de recursos alimentícios, por questões culturais ou até como sinónimo de luxo.

Chimpanzé apanha formigas

A escassez de recursos alimentares e o aumento da população mundial são, aliás, as principais preocupações que levam as populações a procurar novas fontes alimentares e a olhar com outros olhos para a entomofagia.

Em África, Ásia e América do Sul, por exemplo, comer insetos é uma prática corrente, sendo vista como uma forma de aproveitar um recurso natural.

Embora ainda haja muita reticência e preconceito por parte da maioria dos países desenvolvidos da Europa e dos Estados Unidos da América em aderir a este tipo de alimentação por ser considerada primitiva, o consumo de insetos já faz parte do dia-a-dia de países como o Japão, onde estes são aproveitados como recurso alimentar de grande valor.

Na Croácia e em Itália também se consomem alguns produtos que contêm insetos sendo mesmo considerados iguarias raras e “valiosas”.

Apesar da antiguidade, apenas recentemente a entomofagia atraiu a atenção dos “media”, assim como das instituições de investigação, de chefes de cozinha e dos membros da indústria alimentar, além dos legisladores e agências de regulamentação na área alimentar.

O principal obstáculo à introdução de insetos na nossa alimentação quotidiana será a aversão dos consumidores, no entanto, da mesma forma que, por exemplo, o peixe cru, através do sushi, entrou nas nossas vidas, os insetos também podem entrar.

Não se assuste porque vai ter tempo para se mentalizar pois os níveis de produção de insetos são ainda muito reduzidos.

Os insetos: quais as espécies mais consumidas e porquê comer

A célebre frase do poeta Fernando Pessoa “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” é perfeita para definir o futuro do consumo de insetos entre nós. Para isso é importante conhecer melhor o seu mundo.

Os insetos são seres vivos invertebrados constituídos por exosqueleto quitinoso, encontrando-se o seu corpo agrupado em três regiões diferenciadas – cabeça, tórax e abdómen. Pertencem ao reino Animalia, ao filo Arthropoda, ao subfilo Hexapoda e à classe Insecta, que se divide em duas subclasses principais: Apterygota e Pterygota.

Da primeira fazem parte os insetos que não têm asas e que não sofrem metamorfoses (ápteros), já à subclasse Pterygota pertencem os insetos com asas – que, por sua vez, se divide em Exopterygota e Endopterygota.

As principais ordens pertencentes à divisão Exopterygota são: Hemiptera (afídios, moscas brancas, cigarras, percevejos, entre outros), Orthoptera (gafanhotos, grilos, entre outros), Dictyoptera (térmitas, louva-a-Deus e baratas) e Odonata (libelinhas).

A divisão Endopterygota inclui as ordens: Coleoptera (escaravelhos), Diptera (moscas, mosquitos, entre outros), Hymenoptera (abelhas, vespas, formigas, entre outros) e Lepidoptera (lagartas, traças, borboletas, entre outros).

Gafanhoto a comer folha

A alimentação dos insetos é muito variada – comem praticamente todas as partes de uma planta, de raízes e sementes e até mesmo frutos. Os insetos polinizadores, como as abelhas, são vitais para a reprodução de muitas espécies de flores e árvores frutíferas.

Existem também aqueles que se alimentam de tecidos, líquidos e excreções de outros animais, e os que consomem material orgânico em decomposição, ou seja, alimentam-se de bio resíduos (lixo orgânico).

Estão em todos os lugares, reproduzem-se rapidamente, possuem altas taxas de crescimento e de conversão alimentar, além de causarem mínimo impacto ambiental em todo o seu ciclo de vida.

É difícil clarificar o número de espécies edíveis, no entanto, acredita-se que existam mais 1900 espécies de insetos comestíveis. Cerca de 31 por cento desse consumo corresponde aos insetos da ordem Coleoptera, 18 por cento de Lepidoptera, 14 por cento de Hymenoptera, 13 por cento de Orthoptera, 10 por cento de Hemiptera, 3 por cento de Dictyoptera, 3 por cento de Odonata, 2 por cento de Diptera e 5 por cento corresponde a outras espécies.

Comer grilo

De uma forma mais simples os insetos que mais se ingerem são escaravelhos 31 por cento; lagartas 18 por cento; abelhas, vespas e formigas 14 por cento, gafanhotos, cigarras, térmitas, libelinhas e moscas.

São nutritivos, e possuem alto teor de proteína, ácidos gordos e minerais. Podem ser consumidos inteiros, moídos, processados em pó ou em pasta para serem incorporados a outros alimentos.

Vai ficar surpreendido, mas não se conhecem casos de transmissão de doenças ou parasitoides para humanos ocasionados pela ingestão de insetos (sendo esses insetos criados e manipulados sob as mesmas condições sanitárias de qualquer outro alimento).

Podem ocorrer alergias, contudo estas são comparáveis às alergias a crustáceos, que também são invertebrados. Comparados com mamíferos e aves, os insetos oferecem menos risco na transmissão de infeções zoonóticas a humanos, a outras criações e vida selvagem, no entanto, são necessárias mais investigações neste tópico.

Foram efetuados vários estudos para conhecer o valor nutricional dos insetos que são considerados comestíveis, tendo-se chegado à conclusão que a proteína é o nutriente com maior percentagem, variando este dentro das diversas ordens.

Apesar do elevado teor de proteína, há que ter em conta a sua qualidade nutricional que é determinada pelo seu conteúdo em aminoácidos e pela sua digestibilidade.

Num estudo realizado com 78 insetos, o conteúdo de aminoácidos essenciais como isoleucina, leucina, treonina, lisina, fenilalanina, tirosina, metionina, cisteína e triptofano pode chegar aos 96 por cento, o que ultrapassa os valores diários recomendados, enquanto a digestibilidade da matéria seca pode atingir os 98 por cento da proteína total.

Para além de uma fonte proteica, os insetos também são uma fonte rica em gordura, tendo-se verificado uma quantidade de gordura admirável nas ordens dos insetos entre os 13 e os 33,4 por cento de matéria seca. De referir que no estado de larva, os insetos costumam apresentar maiores quantidades de gordura do que no estado adulto.

Quanto à fibra, acredita-se que esteja na sua maioria presente na quitina, composto principal do seu exosqueleto.

Outro nutriente a ter em conta no estudo dos insetos edíveis é o seu conteúdo em micronutrientes, como as vitaminas e minerais. Algumas vitaminas são fundamentais para os processos metabólicos e para a melhoria das funções do sistema imunológico, estando presentes na maioria dos insetos edíveis.

Provavelmente daqui a uns anos a entomofagia já não causará tanta estranheza e, acredite, os insetos podem desempenhar um papel fundamental no futuro da humanidade e do planeta.

Benefícios na utilização de insetos

Prato de insectos

O uso de insetos como alimento, tanto na nutrição humana quanto na animal, trazem muitos benefícios ao meio ambiente, à saúde, à sociedade e como meio de subsistência.

Benefícios ambientais:
Os insetos têm altas taxas de eficiência na conversão alimentar pelo facto de serem animais de sangue frio.

A razão de quantidade de alimento por produção de carne (quanto de alimento é necessário para produzir o aumento em 1 kg no peso do animal) varia grandemente dependendo da classe do animal e das práticas de produção utilizadas, sendo que os insetos são extremamente eficientes nessa questão.

Em média, os insetos podem converter 2 kg de alimento em 1 kg de massa corporal, ao passo que os bovinos necessitam de 8 kg de alimento para produzir 1 kg de ganho de peso.

Em relação à pecuária convencional, a criação de insetos é muito menos dependente de extensões de terra, e os insetos ainda produzem menos gases de efeito estufa. Os insetos também utilizam muito menos água que a pecuária convencional. Os besouros de farinha, por exemplo, são mais resistentes à seca do que o gado.

Além disso, os insetos podem alimentar-se de resíduos orgânicos, como restos de alimento e dejetos humanos, compostagem e esterco animal, podendo transformá-los em proteína de alta qualidade, inclusive para utilização na alimentação animal.

Beneficios para a saúde:
A composição nutricional dos insetos depende de seu estágio de desenvolvimento (estágio metamórfico), habitat e dieta. No entanto, é aceite que são fontes de nutrientes e proteínas de alta qualidade quando comparados à carne bovina e ao pescado.

São particularmente importantes como suplemento alimentar para crianças que sofrem de má nutrição, pois a maioria das espécies tem alto teor de ácidos gordos (comparáveis ao pescado). Também são ricos em fibras devido ao seu elevado teor de quitina, e em micronutrientes como cobre, ferro, magnésio, manganês, fósforo, selénio e zinco.

Os insetos são considerados animais de baixíssimo risco em relação a zoonoses como a gripe aviária (vírus H1N1) e a encefalopatia espongiforme bovina (EEB), vulgarmente conhecida por “doença das vacas loucas”.

Benefícios sócio-económicos:
Em alguns países a criação de insetos pode ser uma importante estratégia na diversificação dos meios de subsistência. Os insetos podem ser diretamente e facilmente recolhidos na natureza. Para a atividade é necessário apenas um mínimo de conhecimento técnico e pouco investimento para a aquisição de equipamentos básicos de recolha e criação.

Insectos no mercado

Os membros mais desfavorecidos da sociedade, incluindo mulheres e pessoas sem terras, seja em áreas urbanas ou rurais, podem ficar encarregues de recolher os insetos diretamente do ambiente, de produzi-los, processá-los e vende-los. Essas atividades além de melhorarem diretamente a alimentação, podem servir como uma opção de rendimento através da venda do excedente da produção nos mercados de rua.

O processamento de insetos para a alimentação humana ou animal é algo que pode ser feito com relativa facilidade. Algumas espécies podem ser consumidas inteiras, outras podem vir a ser processadas em pasta ou moídas como farinha, e também se pode extrair a sua proteína.

A atividade de produção de insetos na Europa ainda constitui um mercado reduzido, mas surgem cada vez mais iniciativas para potenciar o valor destes animais como fonte proteica para a alimentação animal e humana. Hoje em dia, as produções de insetos são praticadas em pequena escala, sob forma de negócios familiares e direcionadas a mercados muito específicos.

Apesar de ter havido um considerável desenvolvimento dos quadros regulamentares no que diz respeito às cadeias alimentares, no caso da utilização de insetos na alimentação humana e animal, a legislação disponível é pouco clara e quase inexistente, sendo os insetos considerados um “Novo Alimento” – uma definição controversa.

Acima de tudo, é importante que toda a legislação que seja produzida assente num elevado grau de proteção da saúde pública e da segurança do consumidor, assim como na segurança e controlo da alimentação animal, na livre circulação de mercadorias, em dados científicos credíveis e na avaliação de risco, na melhoria da competitividade da indústria europeia, na responsabilização da indústria, e em controlos oficiais eficazes.

Autor:
Tupam Editores

Última revisão:
02 de Outubro de 2020

Referências Externas:

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