Aleitamento materno permite reduzir custos hospitalares no tratamento de doenças neonatais

Aleitamento materno permite reduzir custos hospitalares no tratamento de doenças neonatais

GRAVIDEZ E MATERNIDADE

  Tupam Editores

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A proteção que é proporcionada pelo leite materno permite reduzir os custos hospitalares dos tratamentos de doenças neonatais. No Reino Unido, estima-se que, caso 80 por cento das mães optasse por um aleitamento prolongado até aos seis meses, o sistema de saúde pouparia anualmente mais de 47 milhões de euros.

A proteção, única, que o leite materno proporciona aos bebés nasce da interação dos seus componentes, entre eles e com o recém-nascido. As moléculas que compõem o leite materno - muitas ainda por descobrir -, não trabalham de forma individual, mas antes em conjunto para criar relações simbióticas que respondam às necessidades de cada criança.

Este sistema de interações é o responsável pela capacidade do leite materno em reforçar o sistema imunitário do bebé e impedir as infeções. Potenciar a investigação dos componentes do leite materno no seu conjunto explicaria o mecanismo por detrás destes benefícios para os recém-nascidos.

Mãe - bebé - amamentação

Assim foi revelado por investigadores e médicos reunidos em Londres durante o último Simpósio Internacional de Aleitamento Materno promovido pela Medela, que contou com a participação dos principais investigadores nos temas relacionados com o aleitamento e o leite humano a nível mundial, onde estiveram cerca de meio milhar de especialistas entre pediatras, neonatologistas, enfermeiros especialistas e responsáveis de Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN) de todo o mundo, que tiveram a oportunidade de ficar a conhecer as novas descobertas científicas relacionadas com os benefícios do leite humano.

Nas relações simbióticas entre os diferentes componentes do leite materno também há que ter em conta a interação entre a mãe e o recém-nascido, ou seja, como atuam os componentes do leite materno no organismo do bebé.

Face a um cenário tão variável, onde cada aleitamento é único, os especialistas reclamam uma maior investigação para definir estas complexas interações e identificar como atuam os componentes imunológicos do leite materno, assim como esclarecer que fatores ambientais podem afetar o correto desenvolvimento do sistema de defesa dos bebés. De uma forma geral, todos os investigadores concordam que ainda lhes falta percorrer um longo caminho para descobrir o potencial do aleitamento materno.

Um dos ramos de investigação atualmente a decorrer com maior intensidade dentro do estudo do sistema imunitário do bebé é o que trata de identificar o papel do leite materno na proteção face às alergias. Até ao momento, conhece-se o potencial do leite materno para prevenir as alergias, mas não o seu mecanismo de ação.

Uma vez que as doenças alérgicas são as patologias crónicas mais comuns entre as crianças de diversos países, Daniel Munblit, professor associado da Universidade Estatal de Medicina de Moscovo Sechenov (Rússia), insiste na importância de ampliar a investigação neste campo, estudando a interrelação entre os diferentes componentes do leite materno implicados na patologia.

Segundo aquele especialista, o objetivo é estudar um grande conjunto de biomarcadores em vez de pequenos grupos, ou cada um de forma independente. Devido à alta concentração de possíveis moléculas com atividade imunológica no leite materno, o estudo de um limitado leque de componentes daria lugar a resultados contraditórios ou erróneos.

“Os componentes do leite materno estabelecem relações simbióticas continuamente, trabalhando em conjunto, ou de forma antagónica, anulando os efeitos do contrário. São estas intrincadas interações, que desempenham um papel chave na capacidade do aleitamento em proteger os recém-nascidos face às alergias, que estão perto de ser descobertas”, destaca Munblit.

Atualmente, a investigação daquele médico está centrada numa revisão sistemática de todos os estudos prévios sobre a forma como o leite materno influencia o funcionamento e reforço do sistema imunitário dos recém-nascidos. O passo seguinte será passar do conhecimento do seu mecanismo de ação a práticas clínicas que melhorem a saúde dos neonatos.

Com estes novos dados, os investigadores têm vindo a insistir na questão de que um bebé que não seja alimentado com leite materno estará mais exposto a infeções e doenças, tanto em criança como na idade adulta. Isto pressupõe um aumento dos custos em saúde que os Sistemas Nacionais de Saúde têm de assumir para o tratamento de doenças graves, tais como as patologias do foro respiratório, sépsis ou enterocolite necrosante (ECN).

Por esta razão, o médico Subhash Pokhrel da Universidade Brunel de Londres (Reino Unido) frisou, durante a sua apresentação no evento de Londres, a importância de incentivar as mães a prolongar o aleitamento pelo menos até aos seis meses de idade para reduzir os custos em saúde pública.

A sua investigação está atualmente centrada em calcular o retorno que teriam os governos e os centros de saúde se houvesse uma maior promoção do aleitamento materno. Mais concretamente, no Reino Unido, quantificou-se que, se cerca de 80 por cento das mães amamentassem os seus filhos, durante pelo menos seis meses, o sistema de saúde pouparia o equivalente a 47 milhões de euros anuais.

Esta poupança não proviria somente da prevenção de doenças infantis, mas também da possível redução de casos de cancro da mama graças aos benefícios do leite materno também para as mães, dados igualmente tidos em conta na investigação.

Bebé - consulta - pediatra

“Sabemos com certeza que, nos países desenvolvidos, oito em cada dez mulheres inicia o aleitamento após o parto. O problema é que o abandona entre uma a seis semanas depois. Por exemplo no Reino Unido, apenas cerca de um por cento das mães mantém o aleitamento durante seis meses”, reportou o médico Pokhrel, um dos intervenientes na referida conferência.

Prolongar o aleitamento permitiria ao sistema de saúde destinar um orçamento mais elevado para resolução de outros problemas emergentes. “Além disso, trata-se de um objetivo realizável, bastando para isso apoiar as mães desde o momento do parto e ajudá-las a compreender as vantagens para elas e para os seus filhos de dar mama”.

Durante aquele evento esteve também em foco a investigação em torno da saúde mais frágil dos bebés prematuros e o papel do leite materno no desenvolvimento completo do seu organismo.

O médico Daniel Klotz da Universidade de Freiburg na Alemanha insistiu na importância de implicar o pessoal das Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN) no aleitamento das mães, facilitando a alimentação dos bebés pré-termo com leite materno. Esta postura é reforçada por estudos recentes que demonstram o forte potencial do colostro na prevenção de doenças crónicas.

Por sua vez, a médica Janet Berrington da Universidade Brunel de Londres salientou a importância que a nutrição dos bebés prematuros tem ao impactar diretamente sobre o risco de infeções, o possível desenvolvimento de doenças crónicas, intolerâncias alimentares, assim como o desenvolvimento de problemas posteriores, como obesidade ou asma.

Tendo por base os vários estudos apresentados pelos especialistas, é deveras importante compatibilizar nas UCIN o leite da própria mãe com a alimentação por via entérica. Também se deram a conhecer os últimos estudos sobre aditivos pré e probióticos com os quais se pode reforçar o leite materno para os bebés com um estado de saúde mais delicado.

O próximo Simpósio Internacional de Aleitamento Materno realizar-se-á em Lisboa nos dias 26 e 27 de março de 2020.

Autor:
Tupam Editores

Última revisão:
02 de Outubro de 2020

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