RAÇA MIRANDESA

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RAÇA MIRANDESA

  Tupam Editores

Embora não esteja definitivamente esclarecida a origem da raça bovina mirandesa e as suas relações étnicas e filogénicas, admite-se que descenda da raça fusca do planalto superior castelhano que deriva do tronco ibérico de um conjunto de raças europeias e que tem em comum a coloração castanha. O Bos taurus primigenius seria o representante fóssil desta raça.

As opiniões, contudo, divergem, havendo autores que defendem como ancestral o Bos taurus brachicerus e outros ainda que advogam ser "a população de bovinos de raça mirandesa um núcleo fortemente heterogéneo quanto à sua origem, por resultar do cruzamento do tronco Bos taurus brachicerus com o tronco Bos taurus primigenius, podendo ainda hoje verificar-se esta diversidade fenogenotípica". Vamos esperar que o atual desenvolvimento das pesquisas com base no ADN traga nova luz ao assunto.

Quanto ao berço ou centro de irradiação não existem dúvidas. Este coincide com a área etnográfica em que se fala a língua mirandesa, correspondendo sensivelmente ao atual concelho de Miranda do Douro. Daí irradiou para os concelhos vizinhos de Vimioso, Mogadouro, Bragança, Vinhais e Macedo de Cavaleiros, que passaram a integrar o solar da raça.

A partir da região solar, graças às suas qualidades e aptidões, a raça sofreu um processo de expansão, de que não se pode precisar o início, mas que atingiu o auge em meados do século XX.

Inicialmente difundiu-se pelos conselhos vizinhos transmontanos, seguindo depois no sentido das Beiras, Estremadura e Alentejo, até povoar quase todo o território nacional, com exceção do Algarve, Minho e Douro Litoral.

Na década de 70 teve início o processo inverso, a regressão da raça, quer em número de efetivos quer em termos territoriais, acabando por vir a confinar-se à sua região solar. Desde meados da década de 90 tem-se assistido a uma estabilização do número de animais, mas com a diminuição na região do solar e nova expansão da raça em termos geográficos, havendo hoje criadores e efetivos de raça mirandesa em 9 Distritos, para além do Solarengo (Bragança), a saber: Castelo Branco, Évora, Faro, Guarda, Leiria, Portalegre, Santarém, Vila Real e Viseu.

No Solar estão concentrados 70,6 por cento dos animais inscritos no Livro Genealógico de Adultos, estando os restantes 29,4 por cento espalhados pelo resto do território.

preparação das terras

Estes animais desempenham um papel preponderante na agricultura, constituindo, em várias explorações, a única fonte de tração utilizada na preparação das terras.

Os bovinos autóctones da raça Mirandesa são animais harmoniosos, dóceis mas de temperamento vivo e de elevada rusticidade, o que lhes permite uma perfeita adaptação ao meio agreste onde se inserem, distinguindo-se dos restantes, essencialmente, pelo seu grande porte e formato compacto.

Características morfológicas, produtivas e reprodutivas da raça

Do ponto de vista do enquadramento étnico, a raça inclui-se no grupo morfológico – braquicéfala, eumétrica, de perfil reto na fronte e côncavo no chanfro, e longilínea. É ainda uma raça do "tipo respiratório", com predomínio relativo do tórax sobre o abdómen.

Caracterizam-se, entre outros aspetos, pela cor castanha retinta no touro, e castanha mais ou menos escura, com tendência centrífuga dos aglomerados pigmentados, nos bois e vacas. Linha dorso-lombar e marrafa loiras, dorso e lombo aloirados, que vão escurecendo progressivamente para as extremidades, atingindo nestas zonas, normalmente, a tonalidade preta. Os machos são mais escuros que as fêmeas e as crias são homogeneamente loiras.

São animais corpulentos (vacas – 500 kg; touros – 900 kg), compridos, largos, bem musculados, de linha dorso-lombar quase horizontal, de terço posterior desenvolvido, de membros de comprimento mediano, formando no seu todo um conjunto harmónico. Mansos mas enérgicos, apresentam andamentos fáceis, sem vacilação das ancas.

A cabeça é pequena, de perfil ligeiramente côncavo, nuca larga e proeminente; marrafa abundante e aloirada; fronte larga e deprimida entre as órbitas; olhos aflorados e rodeados por uma zona de pelos claros; chanfro curto e reto, de focinho largo, de coloração preta e com uma orla de pelos brancos; orelhas largas, horizontais, revestidas internamente de pelos compridos e claros; cornos de cor esbranquiçada, enegrecidos na ponta, de comprimento médio, de secção circular, simétricos, pouco divergentes, ligeiramente inclinados para baixo na origem e revirados para cima na ponta.

macho da raça Mirandesa

O tronco apresenta um pescoço curto, forte e de barbela desenvolvida; cernelha larga e um tanto saliente; dorso e lombo compridos e largos; garupa comprida, larga, aproximando-se da horizontal; cauda de média inserção, comprida, fina e bem tufada; tórax alto, largo e bem arqueado; ventre de regular desenvolvimento, úbere bem implantado e de boa conformação.

Membros bem aprumados; flanco bem descido; espádua comprida e larga; braço e antebraço fortes; coxa e nádega compridas, largas, bem musculadas e com perfis tendendo para a convexidade; extremidades fortes e com articulações largas, e unhas rijas e de tamanho médio.

As fêmeas possuem um sistema mamário bem inserido e desenvolvido, com tetos bem implantados e de dimensão média. A produção de leite – que é utilizado para a amamentação dos vitelos – excede frequentemente a capacidade de ingestão dos mesmos durante o primeiro mês de vida, esgotando-se no entanto nos meses seguintes até ao desmame.

As vacas de raça mirandesa possuem uma aptidão e um notável instinto maternal, são dotadas de uma elevada longevidade produtiva (em média 15 anos), apresentando com alguma frequência intervalos entre partos inferiores aos 11 meses.

A taxa de fecundidade estimada é de ± 92 por cento. Independentemente do sistema de produção praticado – tradicional ou extensivo –, os partos destes animais distribuem-se normalmente ao longo do ano.

A idade ao primeiro parto varia em função do sistema de recria a que as novilhas estiveram sujeitas. Assim, em sistemas tradicionais, onde o maneio alimentar é mais cuidado, com crescimentos durante a recria superiores, é normal o primeiro parto ocorrer por volta dos 24 meses de idade. Em sistemas extensivos, o atraso no primeiro parto é normalmente de 6 a 8 meses vindo por isso a ocorrer entre os 30 a 32 meses de idade.

Animais muito resistentes a doenças, não necessitam de cuidados clínicos especiais, sendo bastante rústicos e bem adaptados a condições de exploração difíceis, mantendo a fecundidade e a capacidade de desmamar com peso regular os seus vitelos.

Para além da aptidão para o trabalho, e da produção do leite que amamenta os bezerros, estes animais destacam-se ainda pela produção de peles (muito valorizadas) e de carne, produzindo a apetecível "Carne Mirandesa", produto comercializado com Denominação de Origem Protegida (DOP).

A excecional qualidade da Carne Mirandesa

A "Carne Mirandesa" é um produto que obedece a um conjunto de padrões de qualidade, quer ao nível da produção quer ao nível do seu processamento. Até chegar ao consumidor é sempre possível identificar o animal e a exploração de onde é originária, situação garantida pelo processo de certificação, cumprindo o Caderno de Especificações da Carne Mirandesa.

carne mirandesa

A "Carne Mirandesa" é obtida exclusivamente a partir de carcaças provenientes do abate de animais de Raça Mirandesa, inscritos no Livro Genealógico – instituído em 1959, pela Portaria nº 17132 de 22 de Abril, em conformidade com o Decreto nº 41109 de 14 de Maio de 1957 –, nascidos e criados na área geográfica delimitada pelos concelhos de Bragança, Macedo de Cavaleiros, Miranda do Douro, Mogadouro, Vimioso e Vinhais, cumprindo as normas e regras do Caderno de Especificações.

Para garantir a sua genuinidade criou-se um sistema de controlo e certificação que visa assegurar a rastreabilidade da Carne Mirandesa. Além da informação relativa à identificação do animal de onde proveio a carne, o rótulo de cada produto Mirandesa também identifica o produtor e o local de produção.

Todas as explorações estão sujeitas a um sistema de controlo que é exercido por técnicos da Associação e pela Organização Privada de Controlo e Certificação (OPC), garantindo que o Caderno de Especificações da DOP Carne Mirandesa é seguido.

A "Carne Mirandesa" caracteriza-se pela sua tenrura e suculência, pela quantidade de gordura intramuscular em geral de cor clara, muito firme e não exsudativa, apresentando um sabor herbáceo e frutado, sendo que as infiltrações de gordura intramuscular realçam o "flavour" da carne.

As carcaças comercializadas podem ser de dois tipos: Vitela, proveniente de animais de ambos os sexos, com 6 a 8 meses, criados com as progenitoras até essa idade; e de novilho, também proveniente de animais de ambos os sexos, recriados após o desmame, mas abatidos entre os 10 a 18 meses.

A comercialização da Carne Mirandesa é feita através da AGROPEMA – Agrupamento de Produtores sediado em Miranda do Douro. No mercado, o produto aparece sob a forma de carcaças de um ou de outro tipo, ou em peças embaladas e refrigeradas, devidamente identificadas com o logotipo do "Agrupamento de Produtores" e com o selo de garantia da "Tradição e Qualidade".

posta de carne mirandesa

Os consumidores de "Carne Mirandesa" são exigentes, preocupados com os produtos que consomem e sobretudo com o patamar de qualidade, exigindo especificidade e garantias, só possíveis pela certificação.

O baixo teor em gordura, e a total ausência de resíduos nomeadamente, antibióticos, corticoides, beta-agonistas e hormonas (estudo realizado pelo Laboratório de Bromatologia da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, a uma amostragem a 10 por cento das carcaças), fazem da Carne Mirandesa uma boa escolha alimentar. Todos os estudos indicam, aliás, que a carne possui excecionais qualidades organolépticas, destacando-se pela sua tenrura, suculência, aroma e sabor.

Salienta-se o elevado grau de palatabilidade e distinção nas peças designadas por Posta Mirandesa e Rodião Mirandês, embora outras receitas como, por exemplo, Ossobuco, Peito de Vitela Primavera, Vitela assada no forno e Nispo de vitela avozinha também estejam entre as iguarias culinárias desta carne excecional, que vale a pena degustar.

Dir-se-ia que estariam mencionados todos os produtos de interesse originados diretamente pela raça, mas não é o caso. Ou não fossem os Concursos de bovinos da Raça Mirandesa e a luta de touros, também conhecida como "Chega de bois", uma parte importante da atividade do criador de gado Mirandês.

A raça na tradição Mirandesa: lutas de touros

Agosto foi o mês escolhido para a realização do XXVI Concurso Nacional de Bovinos de Raça Mirandesa, que decorreu no Parque Municipal de Exposições e Feiras de Vinhais. O concurso pretendeu, mais uma vez, mostrar as qualidades dos bovinos de raça mirandesa – por um lado evidenciar a "beleza e a imponência" da raça, e por outro apresentá-la como "produtiva, geradora de riqueza e motor de desenvolvimento económico".

No evento, além da classificação dos melhores exemplares a concurso, do desfile dos campeões e da entrega de prémios, houve ainda luta de touros.

chega de bois

Tradicionais no Norte de Portugal, as lutas de touros continuam bem vivas na região de Trás-os-Montes. Todos os anos são uma componente indispensável nas mais importantes festas de verão, contribuindo para juntar centenas de criadores e visitantes em seu redor.

Os imponentes animais Mirandeses chegam a atingir 1200 kg de peso, e observá-los a medir forças é um espetáculo que fascina e infunde respeito. O princípio das lutas de touros é simples: trata-se de aproximar, ou "chegar" dois machos, que entre si determinarão qual é o mais forte.

Este tipo de lutas pouco tem de violento ou sanguinário. Trata-se antes de um processo natural em que os animais se observam, exibem a sua corpulência e, eventualmente tratarão de medir forças, apenas o necessário para que um deles "humilhe", isto é, dê sinais de recuo ou de fuga. Em alguns casos, o animal dominante fará uma breve perseguição ao mais fraco, o suficiente para confirmar o seu poder, sem consentir dúvidas ao adversário.

E, se antigamente o dono do touro vencedor apenas ganhava a fama e a vaidade, mas sem proveito, atualmente concilia-se a vaidade e o orgulho de possuir touros valentes e vencedores com o proveito de algumas centenas de euros cobrados por cada luta realizada.

Mas ainda que a valorização sócioeconómica dos criadores da raça Mirandesa seja importante, o objetivo principal deve ser sempre a conservação e o melhoramento genético dos bovinos, assim como a valorização dos seus produtos.

Afinal, não podemos esquecer que a raça Mirandesa se notabilizou em Portugal e no estrangeiro pela sua força, temperamento e resistência.

ARTIGO

Autor:
Tupam Editores

Última revisão:
07 de Junho de 2017

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