PURO SANGUE LUSITANO

  Tupam Editores

Nobre, carismático, e de sublime beleza, o Puro Sangue Lusitano (PSL) é um tesouro nacional, um dos mais genuínos produtos do país e parte integrante da nossa cultura. As suas origens perdem-se no tempo, existindo evidências de que é montado há mais de 5000 anos, facto que prova tratar-se do cavalo de sela mais antigo do mundo.

Égua Lusitana

Os vários estudos sobre o tema demonstraram que o Cavalo Lusitano, tal como hoje o conhecemos, resulta da evolução e seleção de um cavalo primitivo, cujos mais remotos vestígios foram descobertos, em Portugal, nas planícies do sul do país (grutas do Escoural, Montemor-o-Novo – 25000 a.C. e 13000 a.C.).

Este cavalo primitivo, de porte ligeiro, mas cuja estatura e estrutura óssea eram suficientes para suportar o peso de um homem, constituiu uma autêntica dádiva da natureza para os povos da península, que o domesticaram e montaram.

Rapidamente se transformou num novo e rápido meio de transporte, tendo vindo a constituir um poderoso auxiliar nas guerrilhas que as várias tribos ibéricas travavam constantemente entre si com vista à posse dos territórios.

A descoberta, nesta parte do mundo, de armas anti-cavaleiro datadas do V a IV milénio a.C., prova que já se combatia a cavalo há 6 ou 7 mil anos. Em nenhum outro local existem provas da existência de cavalos montados há tanto tempo.

Os cavaleiros ibéricos evoluíam nos campos de batalha tirando enorme partido da obediência e agilidade das suas montadas – movimentavam-se com rápidas transições e bruscas mudanças de direção, o que dificultava enormemente as manobras dos seus inimigos.

Esta equitação peculiar ficou conhecida através dos Cynetes, quando esta tribo do sudoeste da Península combateu na Grécia contra os Atenienses, auxiliando na vitória dos Espartanos na guerra do Peloponeso (séc. IV a.C.). Fica, assim, justificada a origem do termo “gineta”, ainda hoje utilizado para classificar esta forma de montar.

Selecionado durante séculos como suporte de uma técnica específica de combate, o cavalo Peninsular surpreende, pelas suas invulgares capacidades, todos os que contra ele se batem. É o caso de Romanos e Mouros, que o encontraram na Península e logo reconheceram as suas inegáveis qualidades.

Mais tarde, em pleno século XV, é levado para Itália pelo exército espanhol, a fim de intervir na guerra que o Rei Fernando de Aragão aí travava contra os franceses, com vista à conquista do reino de Nápoles.

Torna-se conhecido para além dos Pirinéus, e passa a ser intensamente procurado por toda a aristocracia europeia.

Bem cavalgar a toda a sela

Está na base do surgimento da academia de Nápoles, cuja fundação permite que a equitação passe a ser encarada como ciência e comece a ser estudada por mestres que, seguindo o exemplo do Rei D. Duarte de Portugal (que cerca de cem anos antes, escrevera o primeiro livro sobre o tema na Europa: “Livro Da Ensinança De Bem Cavalgar a Toda Sela”), deixam os seus conhecimentos e experiência registados em preciosos tratados de equitação.

Com o passar dos tempos, a evolução tecnológica acaba por retirar ao cavalo o papel preponderante que assumira ao longo da história, e a sua utilização torna-se quase exclusivamente desportiva, nas várias modalidades hípicas que hoje se conhecem.

Apesar do seu biotipo e aptidões já serem conhecidas, reconhecidas e apreciadas há muito tempo a raça do cavalo Lusitano só foi oficializada com a criação do Stud Book, ou estalão da raça, em 1967.

A institucionalização oficial foi um passo decisivo ao condicionar a admissão de reprodutores, dando origem a um criterioso trabalho de seleção, e facultando o conhecimento aprofundado das genealogias.

Características comportamentais e padrão da raça

Principal produto de exportação e divulgação do mundo rural português, o cavalo Lusitano alia uma rara beleza à robustez, flexibilidade, docilidade e submissão ao cavaleiro. De sela, por excelência, o cavalo Lusitano é extremamente confiável, sendo a montada ideal para principiantes.

Puro cavalo Lusitano

Por vezes, os criadores de cavalos falam dos seus animais como quem descreve vinhos. Tal como um vinho pode ser frutado, robusto, nacarado, denso, encorpado, redondo, macio, complexo, um PSL é corajoso, dócil, sensível, inteligente, sofredor, ardente, generoso e, fundamental para aferir da pureza da raça Lusitana, tem de saber ler o pensamento do cavaleiro.

Estas características fazem do Lusitano o cavalo ideal para a tourada, como antes tinha sido para a guerra. É tido por mais corajoso do que o puro-sangue árabe, ou mesmo o inglês, que são mais adequados para a corrida, sendo também reconhecido por um nível de inteligência acima da média.

Aprende facilmente os mais complicados exercícios, que executa com destreza, principalmente em espaços pequenos, como uma arena. Não tem medo do touro bravo, e obedece confiantemente a todas as ordens do cavaleiro, a quem é fiel até ao fim.

Para além de um padrão estatístico extraído das médias das medidas dos seus pares em determinada época, as caraterísticas do PSL são definidas muito mais pelas suas aptidões funcionais.

Daí derivam a agilidade e flexibilidade selecionadas pelo toureio a cavalo e pela guerra ou guerrilha, a inteligência, poder de reunião e maleabilidade selecionados pela arte equestre, e a empatia e companheirismo selecionados por 5000 anos de equitação.

Para identificar facilmente um PSL basta conhecer alguns aspetos que definem o padrão da raça. De temperamento nobre, generoso e ardente, mas sempre dócil e sofredor, o cavalo Lusitano possui andamentos ágeis e elevados, projetando-se para diante, e suaves, de grande comodidade para o cavaleiro.

A cabeça é bem proporcionada de comprimento médio, delgada e seca, de ramo mandibular pouco desenvolvido e faces relativamente compridas, de perfil levemente subconvexo, fronte levemente abaulada (sobressaindo entre as arcadas supraciliares), olhos sobre o elíptico, grandes e vivos, expressivos e confiantes. As orelhas são de comprimento médio, finas, delgadas e expressivas.

O pescoço possui um comprimento médio, rodado, de crineira delgada, de ligação estreita à cabeça, largo na base, e bem inserido nas espáduas, saindo do garrote sem depressão acentuada.

O garrote é bem destacado e extenso, numa transição suave entre o dorso e o pescoço, e sempre levemente mais elevado que a garupa.

O peitoral é de amplidão média, profundo e musculoso, e o costado bem desenvolvido, extenso e profundo, com costelas levemente arqueadas, inseridas obliquamente na coluna vertebral, proporcionando um flanco curto e cheio.

Lusitano em pé

A espádua é comprida, oblíqua e bem musculada e o dorso bem dirigido, tendendo para o horizontal, servindo de traço de união suave entre o garrote e o rim.

A garupa é forte e arredondada, bem proporcionada, ligeiramente oblíqua, de comprimento e largura de dimensões idênticas, de perfil convexo, harmónico, e pontas das ancas pouco evidentes, conferindo à garupa uma secção transversal elíptica. A cauda aparece no seguimento da curvatura da garupa, de crinas sedosas, longas e abundantes.

Quanto aos membros, o braço é bem musculado, e harmoniosamente inclinado; o antebraço bem aprumado e musculado. Os joelhos secos e largos as canelas sobre o comprido, secas e com os tendões bem destacados. Os cascos são de boa constituição, bem conformados e proporcionados, de talões não muito abertos e coroa pouco evidente.

A nádega é curta e convexa, e a coxa musculosa, sobre o curto, dirigida de modo que a rótula se situa na vertical da ponta da anca. Pernas sobre o comprido, e curvilhão largo, forte e seco. Os membros posteriores apresentam ângulos relativamente fechados.

Aptidões do cavalo Lusitano

De “sangue quente”, como o Puro Sangue Inglês e o Puro Sangue Árabe, o cavalo Lusitano é um cavalo polivalente, o que o torna competitivo nos vários mercados de hoje, desde que aperfeiçoado no sentido das respetivas especialidades.

O seu elevado nível de inteligência e capacidade de concentração fora de comum para a grande maioria dos animais em geral, dotou-o de uma capacidade de aprendizagem excecional.

Apesar de ser usado como cavalo de trabalho, nomeadamente pelos campinos, o Lusitano é cada vez mais, um cavalo procurado por criadores de todo o mundo, graças às suas qualidades únicas.

Como cavalo de Alta Escola (Haute École), tem demostrado ser uma mais valia, já que a sua inteligência lhe proporciona uma aprendizagem rápida e constante, havendo hoje cavalos Lusitanos espalhados por todo o mundo, com esta finalidade.

Apresenta uma aptidão natural para a Alta Escola e exercícios de ares altos, uma vez que posiciona os membros posteriores debaixo da massa com grande facilidade. Tendência natural para a concentração, predisposição para os exercícios e grande coragem e entusiasmo nos exercícios da gineta (combate, caça, toureio, maneio de gado, etc).

Como cavalo de sela e passeio, é extremamente dócil e participativo, pelo que é o cavalo ideal para quem o procura apenas para lazer, tendo-se verificado por isso um crescimento no turismo equestre; como cavalo de salto, é corajoso e tranquilo, o que lhe permite enfrentar qualquer obstáculo com a máxima confiança e sair para o seguinte com a mesma rapidez e elasticidade, e como cavalo de provas de resistência, tem demostrado sempre ser um lutador nato, a sua energia não tem fim, mantendo uma velocidade constante muito apreciável.

Toureio

Mas a sua grande especialidade são, sem sombra de dúvida, as touradas. Demonstrando uma coragem e uma tranquilidade únicas perante o adversário, sai para a cara do touro sem qualquer temor. É, indiscutivelmente, o cavalo de toureio de eleição, não só em Portugal como por todo o mundo.

Dizem os criadores que o touro bravo só existe porque existe tourada, mas também só existe tourada à portuguesa, porque existe a magia e a coragem do cavalo Lusitano.

O Lusitano revela-se ainda nas disciplinas equestres federadas como dressage, obstáculos, atrelagem e, em especial, equitação de trabalho, estando no mesmo patamar que os melhores especialistas da modalidade.

Lusitano dressage

Pelas suas características e potencialidades, o interesse por este belo animal tem vindo a crescer, como o provam a crescente afluência de admiradores aos eventos em sua honra. Este ano, o maior e mais conhecido evento além fronteiras – a XLIII Feira Nacional do Cavalo, que se realiza na Golegã –, terá lugar entre os dias 2 e 11 de novembro.

Em Portugal a criação de cavalos lusitanos é um excelente exemplo de internacionalização. O PSL é uma mais-valia para a economia nacional sendo transacionado comercialmente para 22 países, nos cinco continentes, sendo já marca de Portugal no mundo, e um “cavalo do mundo”.

A trote, a galope, a dançar, a ladear touros, a saltar obstáculos ou a deliciar-nos com a sua sensibilidade e coragem, o Lusitano é uma peça de arte viva que, mais do que uma importante fonte de divisas, é uma forte contribuição para a afirmação da genialidade do país no mundo.

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