Bocejos: saiba o que acontece no cérebro e porque são contagiosos
Pensamos frequentemente que bocejamos porque estamos com sono, porque tivemos uma má noite ou talvez porque estamos aborrecidos. Embora seja verdade que, nestas situações, este ato involuntário de abrir a boca é bastante comum, também pode ocorrer em momentos de stress ou ansiedade, ou até sem qualquer motivo.

O mais curioso é que este gesto não é exclusivo dos humanos. Muitos animais também bocejam, o que demonstra que é um comportamento muito mais generalizado do que se imagina. No entanto, apesar de ser tão comum, os cientistas ainda não encontraram uma explicação definitiva para a sua função.
Bocejar é uma resposta fisiológica natural do nosso corpo que consiste em abrir bem a boca e inspirar profundamente, frequentemente acompanhada pelo alongamento dos braços e do corpo.
De acordo com Andrew Gallup, biólogo evolucionista da Universidade Estadual de Nova Iorque, o bocejo é um reflexo surpreendentemente complexo, pois ocorre em diferentes momentos e está relacionado com diversas alterações neurofisiológicas.
Uma dessas alterações neurofisiológicas é, por exemplo, a aceleração dos batimentos cardíacos quando sentimos medo.
Para Gallup, o bocejo ocorre principalmente durante os períodos de transição, especialmente entre o sono e a vigília. Por outras palavras, tendemos a bocejar quando passamos da sonolência para a vigília, ou vice-versa.
Embora o seu propósito exato ainda não esteja totalmente esclarecido, várias teorias tentam explicá-lo.
Cientistas da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Maryland, em Baltimore, afirmam que o bocejo ajuda a regular a temperatura cerebral. A entrada de ar frio pela boca pode ajudar a arrefecer o cérebro e a mantê-lo a uma temperatura adequada, especialmente quando está sobreaquecido devido ao clima ou quando se está cansado.
Este efeito refrescante melhoraria o desempenho mental, a concentração e o estado de alerta. Talvez seja por isso que bocejamos mais de manhã, porque precisamos de nos energizar. Acredita-se também que o bocejo ajuda a aumentar a absorção de oxigénio e a eliminar o excesso de dióxido de carbono da corrente sanguínea.
Também pode ser uma estratégia que o nosso corpo utiliza para aumentar o estado de alerta quando estamos cansados ou aborrecidos. A observação de alguns animais, como os lémures, mostrou que estes bocejam frequentemente quando se sentem ameaçados. Isto levou os especialistas a acreditar que o bocejo pode aumentar os seus níveis de stress, aguçar os seus sentidos e ajudá-los a estarem mais alerta para o perigo.
No entanto, outra teoria sugere o contrário: que alguns animais bocejam depois de caçar ou escapar ao perigo precisamente para reduzir o stress e relaxar. Neste sentido, o bocejo serviria também para mobilizar os músculos faciais e da mandíbula, que são frequentemente afetados pela tensão ou pelo stress.
Certamente já sentiu uma vontade irresistível de bocejar mais do que uma vez, no meio de uma reunião ou numa situação particularmente embaraçosa, e tentou lutar contra esse impulso com todas as suas forças para evitar o embaraço. Ou talvez tenha tentado reprimi-lo depois de ver alguém bocejar. Pois saiba que é inútil.
Investigadores da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, descobriram que reprimir um bocejo aumenta, na verdade, a vontade de bocejar, tornando mais difícil evitá-lo. Aliás, reprimi-lo pode ser contraproducente, mesmo que seja socialmente mal visto. Já se apercebeu que também é contagioso?
Aparentemente, o efeito contagioso – chamado ecofenómeno – é desencadeado automaticamente por reflexos primitivos numa zona do cérebro responsável pela função motora. Este processo envolve os chamados neurónios-espelho, que estão relacionados com a capacidade de empatia e de aprender novas competências através da imitação. Estes tipos de neurónios também são essenciais para o desenvolvimento de uma boa inteligência emocional.
Embora bocejar seja um gesto tão comum que raramente se pensa nele, a ciência revela que esconde uma complexidade surpreendente. Não acontece apenas quando se está com sono ou aborrecido: também desempenha um papel nos processos de regulação cerebral, na ativação ou relaxamento do corpo e até reflete aspetos da nossa empatia e inteligência.
Existem ainda alguns mistérios por desvendar, contudo, sabe-se que bocejar é uma resposta natural e necessária, praticamente impossível de suprimir sem consequências. Assim, da próxima vez que se encontrar com a boca aberta, lembre-se que o seu corpo está simplesmente a fazer o seu trabalho para o manter equilibrado e saudável.