Poluição do ar associada a doenças cardíacas mais graves
A exposição prolongada a poluentes atmosféricos comuns está associada a doenças coronárias mais avançadas, de acordo com um estudo de grande escala apresentado recentemente na reunião anual da Sociedade Radiológica da América do Norte (RSNA), em Chicago.

As descobertas mostram que mesmo níveis de poluição abaixo ou próximos dos padrões regulamentares e exposições urbanas típicas estão associados a sinais precoces de doenças cardíacas – muitas vezes antes do aparecimento dos sintomas –, e realçam a importância de melhorar a qualidade do ar para reduzir o risco de doenças cardiovasculares.
A poluição do ar é um problema de saúde global urgente. Segundo a Organização Mundial de Saúde, é um dos maiores riscos ambientais para a saúde e desempenha um papel importante na origem de ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais.
Para o estudo retrospetivo, utilizou-se a tomografia computorizada cardíaca para avaliar a relação entre a exposição prolongada a dois poluentes comuns encontrados no ar urbano: partículas finas (PM2,5) e dióxido de azoto (NO2).
As fontes de PM2,5 incluem os escapes dos veículos, as emissões industriais e o fumo dos incêndios florestais. Com cerca de 30 vezes o tamanho de um cabelo humano, estas minúsculas partículas podem penetrar profundamente nos pulmões e na corrente sanguínea. Já o NO2 é um gás nocivo produzido principalmente pela queima de combustíveis fósseis em veículos, centrais elétricas e processos industriais.
Segundo Felipe Castillo Aravena, médico e autor principal do estudo, mesmo em níveis baixos de exposição, a poluição do ar está associada a uma maior acumulação de placas nas artérias coronárias.
De um modo geral, nas tomografias computorizadas cardíacas uma maior exposição prolongada à poluição do ar foi associada a maior incidência de doença arterial coronária tanto nas mulheres como nos homens.
Nas mulheres, a exposição prolongada a partículas finas esteve relacionada a valores de cálcio mais elevados e a um estreitamento mais grave das artérias. Nos homens, uma maior exposição prolongada a partículas finas esteve associada a valores de cálcio mais elevados e a uma maior carga de placas.
A exposição ao dióxido de azoto foi associada à doença arterial coronária em homens e mulheres.
No estudo, os investigadores analisaram dados de adultos que realizaram tomografias computorizadas cardíacas entre 2012 e 2023 em três grandes hospitais de Toronto.
Foram estabelecidas relações entre os códigos postais residenciais dos doentes com os dados de qualidade do ar para estimar a exposição média de cada pessoa à poluição do ar durante o período de 10 anos anterior à tomografia.
Foram avaliados três marcadores de doença arterial coronária: o valor de cálcio, a carga total de placas e a estenose obstrutiva (estreitamento da artéria).
Por cada aumento de 1 micrograma por metro cúbico na exposição prolongada a PM2,5, observou-se um aumento de 11% na acumulação de cálcio nas artérias coronárias, 13% mais probabilidades de maior formação de placas e 23% mais probabilidades de doença obstrutiva. A exposição ao dióxido de azoto apresentou tendências semelhantes, embora com efeitos menores por cada aumento de 1 parte por bilião.
Para o Dr. Castillo, são necessárias mais investigações para compreender os mecanismos exatos e estabelecer a causalidade, mas as diferenças biológicas, sociais e comportamentais, juntamente com as características das placas ateroscleróticas, podem contribuir para as diferenças observadas entre homens e mulheres.