ALZHEIMER

Diminuição de proteína na microglia associada a Alzheimer

Uma equipa internacional, liderada pelo investigador português João Bettencourt Relvas, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) e docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), demonstrou que a diminuição de uma proteína presente em células da microglia é suficiente para desencadear uma doença neurológica semelhante à doença de Alzheimer, a forma mais comum de demência em idosos.

Diminuição de proteína na microglia associada a Alzheimer

Este trabalho abre portas ao possível desenvolvimento de novas terapias para prevenir e/ou limitar o processo neurodegenerativo inerente à doença de Alzheimer.

O estudo, publicado na revista Cell Reports, reforça a ideia de que a disfunção microglial pode desempenhar um papel central no desencadear e/ou na progressão da doença neurológica, distanciando-se assim de uma visão mais clássica, que associa as patologias do sistema nervoso central quase unicamente à disfunção neuronal primária.

Microglia são as principais células imunes do sistema nervoso central, que inclui o cérebro, a medula espinal e a retina. Estas células fazem a vigilância ativa do cérebro verificando, por exemplo, se as comunicações entre os neurónios estão a funcionar corretamente, ou identificando alterações patológicas ou infeções por microrganismos.

Quando é detetado um dano, as células da microglia são ativadas e passam a funcionar como células imunes inatas, eliminando microrganismos patogénicos e resíduos celulares, e promovendo a regeneração e a restauração do equilíbrio dos tecidos.

No entanto, a ativação prolongada da microglia pode desencadear ou acelerar danos neuronais, num contexto de doença neurológica, ou atrasar a recuperação do sistema nervoso após lesão, ou seja, esse aumento continuado no tempo torna-se tóxico, causando disfunção neuronal. Algo que se sabe que acontece no envelhecimento normal e num vasto número de doenças neuropsiquiátricas.

A equipa de investigadores liderada por João Bettencourt Relvas diminuiu uma proteína das células de microglia adulta, e chegou à conclusão que a perda desta proteína, denominada RhoA, é suficiente para iniciar espontaneamente a ativação imune da microglia e para provocar neuroinflamação.

Renato Socodato, primeiro autor do artigo, acrescenta que “a perda desta proteína pode desencadear um quadro de doença neurodegenerativa bastante semelhante ao que se observa na doença de Alzheimer, incluindo a formação e deposição de espécies tóxicas de origem amilóide, perdas sinápticas e neuronais, e de memória”.

O que é inédito e muito interessante, sublinha João Bettencourt Relvas, “é que conseguimos induzir doença neurológica mexendo unicamente na microglia. Depois fomos comparar com um ratinho com doença de Alzheimer e percebemos que, logo numa fase inicial da doença, já se verifica uma redução da atividade da proteína RhoA”. Além disso, acrescenta, “já testámos quatro outras proteínas parecidas da mesma família, mas nenhuma delas, quando diminuída, provoca doença de Alzheimer”.

Num futuro próximo, explicam os investigadores, “vamos tentar perceber porque é que só a perda de RhoA e não de outras proteínas da mesma família resulta no desenvolvimento de uma doença neurológica semelhante à doença de Alzheimer. Vamos também manipular a expressão desta proteína na microglia de modelos pré-clínicos de Alzheimer para tentar prevenir a progressão da doença”. 

Em colaboração com o Banco Português de Cérebros, sediado no Centro Hospitalar Universitário do Porto (Santo António), “vamos também usar material humano para confirmar que a função desta proteína e de proteínas associadas está efetivamente comprometida na microglia do cérebro do doente com Alzheimer”, acrescenta Renato Socodato.

Para os investigadores, aprofundar o conhecimento sobre a relação entre a regulação da imunidade inata pela proteína RhoA e o início e/ou progressão da doença de Alzheimer “poderá abrir perspetivas interessantes para podermos pensar em novas abordagens terapêuticas para prevenir e/ou limitar o processo neurodegenerativo inerente à doença de Alzheimer”.


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