DPOC

Maioria dos doentes com DPOC em tratamento permanece sintomática

Tendo em conta que há um elevado número de doentes tratados que, embora fazendo a medicação, não têm a doença controlada, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) lançou uma campanha que pretende chamar a atenção para o papel determinante dos profissionais de saúde na identificação destes doentes e alertar para a necessidade de uma mudança de abordagem comunicacional ao doente, contribuindo para o aumento da qualidade de vida das pessoas com doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC).

Maioria dos doentes com DPOC em tratamento permanece sintomática

“Sabemos que mais de 50 por cento dos doentes com DPOC estão medicados e mantêm-se sintomáticos”, sublinha Paula Pinto, médica pneumologista e vice-presidente da SPP.

“Muitas vezes, é o próprio doente que não faz a medicação, ou não a faz corretamente, saltando tomas ou cometendo erros cruciais na técnica inalatória. Por outro lado, os próprios profissionais de saúde, por vezes, não sabem valorizar as queixas do doente”, frisa a especialista, “pois se o médico perguntar somente “Sente-se bem?”, o doente vai responder sempre que sim”.

Porquê? José Alves, presidente da Fundação Portuguesa de Pneumologia, explica que “estes doentes não reconhecem os sintomas, primeiro porque os querem negar, e, segundo, porque quando os doentes crónicos têm sintomas persistentes e contínuos ao longo do tempo, habituam-se e deixam de os valorizar”.

De facto, “quando se usam métodos de controlo, sejam da variação da função respiratória ou da avaliação dos sintomas, chegamos quase sempre à conclusão de que os doentes se sentem bem, mas não estão verdadeiramente bem. Portanto, existe a necessidade de reavaliar a qualidade de vida do doente a todo o momento”, alerta o médico pneumologista.

Segundo o painel de peritos envolvidos nesta campanha, é preciso investigar regularmente a rotina do doente e fazer as perguntas certas para perceber se o doente está, de facto, controlado, ou se a sua qualidade de vida está aquém do que um tratamento efetivo e um estilo de vida ativo poderiam proporcionar.
Esta necessidade é sentida particularmente entre os médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF), que lidam com doentes com múltiplas comorbilidades, a somar ao tempo escasso da consulta.

“Sentimos muitas vezes uma dificuldade na comunicação, pois o doente nem sempre partilha limitações da sua vida diária, que o tornam mais sedentário e com pior qualidade de vida, o que representa um maior risco de mortalidade, de descompensação da DPOC e de internamento, ao mesmo tempo que, nós, médicos, ficamos muitas vezes por perguntas fechadas e demasiado genéricas”, explica Rui Costa, médico de MGF.

O especialista considera que “o médico de família tem de ser assertivo, fazer as perguntas certas ao doente, procurando saber se sente alguma dificuldade respiratória ou algum cansaço durante o dia, durante a noite ou nas suas atividades do dia-a-dia”.

Na opinião do coordenador do GRESP da APMGF, “em poucos segundos, fazendo três questões simples, podemos avaliar o controlo da doença. Identificar um doente tratado que permanece sintomático, permite-nos ajudá-lo a melhorar essa sintomatologia e a viver melhor”.

Também a Enfermagem pode ter um contributo ativo na melhor abordagem dos doentes com DPOC, na ótica da enfermeira Carmo Cordeiro, “já que o enfermeiro tem um papel crucial nesta gestão da doença, na referenciação do doente, na identificação das suas necessidades e dos seus problemas reais”.

Desta forma, é possível “identificar estes doentes, por exemplo, numa consulta de hipertensão, numa consulta de diabetes, na visita domiciliária, na comunidade: com a abordagem certa ao doente e com atenção aos pequenos sinais, percebemos que aquele doente tem a sua DPOC não controlada”, descreve a representante da Enfermagem de Reabilitação nesta campanha.

António Santos, da associação Respira e doente com DPOC, é da mesma opinião, reforçando que “é fundamental que os profissionais de saúde saibam o que é que a pessoa com DPOC faz habitualmente – se caminha, se faz alguma atividade, e se sente cansaço e/ou respiração alterada ao longo do dia ou durante a noite”.

O painel de peritos da campanha, após dois momentos de reunião, debate e definição de consensos, está a desenvolver um modelo de avaliação da qualidade de vida dos doentes com DPOC, que a curto prazo será apresentado, divulgado e distribuído aos profissionais da área.

Ao mesmo tempo, a campanha procura lançar um alerta global para esta patologia responsável por 20,7 por cento das mortes por doenças respiratórias em Portugal, representando a segunda causa de internamento neste grupo de doenças, segundo o Observatório Nacional das Doenças Respiratórias 2018.

Assim, foi criada uma página de Facebook dirigida a profissionais de saúde, doentes, cuidadores e público em geral, onde são partilhadas informações, esclarecimentos dos peritos envolvidos neste projeto, bem como desafios para uma vida mais ativa e feliz.

“Já perguntou ao seu doente com DPOC o que fez hoje?” é o mote da campanha de sensibilização para a DPOC promovida conjuntamente pela Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), a Fundação Portuguesa do Pulmão (FPP), a Respira – Associação Portuguesa de Pessoas com DPOC e outras Doenças Respiratórias Crónicas, e o Grupo de Doenças Respiratórias (GRESP) da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), com o apoio da Menarini Portugal.

Fonte: Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP)

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