DEPRESSÃO

Intervenção de saúde mental no ensino artístico reduz depressão

Um projeto de investigação da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC) na área da intervenção de saúde mental no ensino artístico surge como um complemento do programa de prevenção de comportamentos suicidários em meio escolar.

Intervenção de saúde mental no ensino artístico reduz depressão

A intervenção, que visa promover o bem-estar e prevenir comportamentos suicidários em alunos do ensino artístico, realizou-se, no último ano letivo, em três escolas portuguesas (Coimbra, Lisboa e Faro), abrangendo cerca de 120 adolescentes (7.º ao 10.º ano de escolaridade), mostrou-se eficaz ao reduzir em mais de dez pontos percentuais a sintomatologia epressiva moderada e grave identificada em cerca de 30 por cento da amostra estudada, revela a instituição.

Sendo também um projeto de investigação longitudinal, o denominado “Tela de Emoções”, surge como um complemento do já muito disseminado programa de prevenção de comportamentos suicidários em meio escolar (3.º ciclo do ensino básico e ensino secundário), + Contigo, mas enquanto abordagem específica inerente aos alunos de cursos artísticos, que, segundo os promotores deste trabalho, constituem um “grupo com maior vulnerabilidade em termos de saúde mental”.

“Aqui, além das questões específicas da adolescência, emergiram questões ligadas ao corpo, identidade de género e capacidade para lidar com a frustração”, explica José Carlos Santos, coordenador deste projeto, que, como entidades promotoras, envolve a ESEnfC, a Administração Regional de Saúde do Centro e a Associação Honorífica da ESEnfC (Capítulo Phi Xi da Sigma Theta Tau International), juntando-se-lhes, na qualidade de entidades parceiras, o Departamento de Psicologia e Ciências da Educação da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve e os serviços de Pedopsiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e do Hospital Dona Estefânia (Centro Hospitalar Lisboa Central).

“Apesar do cuidado necessário na interpretação destes resultados”, e de “não poderem ser generalizados para todas as escolas de ensino artístico”, ressalva José Carlos Santos, coordenador deste projeto de investigação-ação financiado pela Direção-Geral da Saúde, o também professor de Enfermagem de Saúde Mental da ESEnfC considera que eles “não podem ser ignorados e devem de ser tidos em conta com planos específicos de intervenção”.

Quanto ao + Contigo, no ano letivo 2018-2019, foram 7 301 os adolescentes que nele participaram, dos quais “29,5 por cento apresentam sintomatologia sintomatologia epressiva e cerca de dez por cento estão em risco elevado de ter comportamentos suicidários”, refere o coordenador do projeto, segundo o qual “várias centenas de pais, professores e assistentes operacionais foram sensibilizados para a saúde mental”, com os alunos participantes a verem “aumentar o seu bem-estar e autoconceito e a diminuir a sua sintomatologia sintomatologia epressiva. Nenhuma estratégia será efetiva se a acessibilidade não for assegurada”.

O coordenador destes dois projetos, que interveio na sessão de abertura do I Encontro Tela de Emoções e do VIII Encontro +Contigo, na ESEnfC, entende que “o trabalho desenvolvido apela a uma maior necessidade de presença de profissionais de saúde mental nas escolas, sejam psicólogos ou enfermeiros de saúde mental, mas também de maior interligação entre a escola e as instituições de saúde”.

Para José Carlos Santos, “o estigma, os processos de negação, de vergonha, de medo, de incompreensão e de falsos conceitos estão ainda presentes e dificultam intervenções atempadas no início do período crítico pós comportamento”.

Sucede que, para o investigador da ESEnfC, “a rede de apoio especializado continua a ser escassa” e, “apesar de algumas melhorias registadas na cobertura de serviços especializados, continua a ser difícil compreender a defesa de um olhar sistémico quando o profissional especializado e o internamento está a centenas de quilómetros de distância, dificultando a acessibilidade, o acompanhamento e a participação dos pais”.

José Carlos Santos diz mesmo que “nenhuma estratégia será efetiva se a acessibilidade não for assegurada na fase de identificação de risco, assim como de pós-prevenção”, além de que “intervenções terapêuticas centradas na narrativa do adolescente e pouco espaçadas no tempo são mais eficazes que intervenções pouco frequentes e centradas nas normas institucionais”.

Ao cabo de uma década de intervenções, usufruíram do programa + Contigo mais de 35 mil adolescentes e perto de 400 agrupamentos escolares. Paralelamente, receberam formação mais de 600 dinamizadores de norte a sul do país, tendo sido encaminhados para cuidados especializados cerca de 400 adolescentes.

“O número de comportamentos suicidários entre os adolescentes tem aumentado na maioria dos países. Fenómeno a que não serão alheias questões como a forma de utilização das redes virtuais, problemas como o sono, a vivência da puberdade, o acompanhamento após a crise, o pouco envolvimento dos pais no processo terapêutico ou o fenótipo digital”, adverte, ainda, José Carlos Santos.

Para este responsável, “o aumento de casos de comportamentos autolesivos constatado no dia-a-dia, os casos de suicídio que infelizmente se tornam famosos, nem sempre bem tratados pela comunicação social, apelam à necessidade da continuidade e afirmação de projetos similares”.

No terreno desde 2009 – então iniciado pela ESEnfC e pela Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro –, o + Contigo, que dispõe de uma considerável rede de parceiros de norte a sul de Portugal, é reconhecido como uma boa prática por parte do Programa Nacional de Saúde Mental, continuando a contar com o seu financiamento no presente ano letivo.

O programa trabalha aspetos como o estigma em saúde mental, o autoconceito e a capacidade de resolução de problemas, devidamente enquadrados na fase da adolescência.

Fonte: ESEnfC

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