ESTATÍSTICA

Espondilite anquilosante custa quase 640 milhões de euros por ano

A espondilite anquilosante (EA) tem um impacto económico total anual de 639 milhões de euros em Portugal. O valor, apurado pela Nova IMS no âmbito do projeto arEA - avaliação de resultados em Espondilite Anquilosante, inclui os custos para os doentes e para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) com a patologia, assim como o impacto económico dos dias de trabalho perdidos devido à EA.

Espondilite anquilosante custa quase 640 milhões de euros por ano

Os resultados do estudo, uma parceria da universidade com a Novartis, e que contou com o apoio da Sociedade Portuguesa de Reumatologia, Associação Nacional de Espondilite Anquilosante, Liga Portuguesa contra as Doenças Reumáticas, Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Unidade de Saúde Familiar – Associação Nacional revelam ainda que a espondilite anquilosante leva cada um dos doentes portugueses a perder um total de 110 dias de trabalho, todos os anos.

Para Luís Cunha Miranda, presidente da Sociedade Portuguesa de Reumatologia, o elevado impacto económico da EA é extensível às restantes doenças reumáticas e está diretamente relacionada com a acessibilidade dos doentes ao reumatologista.

“Assistimos a um impacto de 639 milhões de euros apenas de uma única doença reumática, com um impacto importante a nível económico para o país. Para preencher as vagas de reumatologia no SNS e aumentar exponencialmente o acesso dos doentes à especialidade seriam precisos quatro milhões de euros”, adianta.

O especialista sublinha ainda os dados referentes aos custos da EA para o SNS, salientando que são demonstrativos da falta de planeamento na gestão da doença.

“Os custos da EA para o SNS incluem 12 milhões de euros em internamentos e três milhões de euros em urgências. São 15 milhões de euros que poderiam ser poupados, dado que esta é uma doença que não tem que ter recurso à urgência e não tem que ter internamento se os doentes estiverem a ser corretamente referenciados e seguidos na reumatologia”.

A EA é uma doença reumática inflamatória que afeta as articulações da coluna vertebral e em alguns casos também as articulações periféricas. Estima-se que afete 56 mil pessoas em Portugal. Normalmente os primeiros sinais aparecem entre os 20 e os 30 anos e afeta sobretudo os homens, caracterizando-se a evolução da doença por perda de mobilidade.

De acordo com o estudo apresentado na Conferência Doença Crónica – Saúde, Trabalho e Sociedade, da Nova IMS, Novartis e Expresso, a patologia tem um impacto importante nos doentes, não só no que respeita à sua qualidade de vida, mas também, e sobretudo, na sua capacidade para se manterem profissionais ativos.

Este impacto demonstrou ser tanto maior quanto maior foi a demora na referenciação para seguimento na especialidade – Reumatologia – e no acesso a medicação adequada ao estadio da doença.

Em média, cada doente com EA perdeu 37 dias de trabalho no último ano, em dias de dispensa de trabalho ou de baixa relacionados com doença. A estes somam-se, em média, 73 dias perdidos por falta de produtividade – dias de trabalho perdidos que representam um impacto económico anual de 437 milhões de euros. 

Relativamente à perspetiva dos inquiridos, 37 por cento refere que a doença representou um problema razoável no local de trabalho enquanto que 34 por cento referiu que a doença teve um grande impacto no trabalho.

Quando ao impacto reportado, 48 por cento refere que a doença contribuiu para reduzir a produtividade e 36 por cento faltou ao trabalho para ir às consultas. Quase um quarto dos doentes, 24 por cento, refere que teve dificuldade em cumprir o horário de trabalho.

Em consequência, 46 por cento dos inquiridos perdeu o emprego ou deixou de trabalhar devido à doença. Para 69 por cento, o impacto da EA traduz-se mesmo numa situação de baixa de trabalho permanente ou pré-reforma, em média, há nove meses.

Também as relações sociais são fortemente afetadas: 32 por cento considera que a doença teve grande impacto na sua vida social e 35 por cento considera que teve um impacto razoável. São as relações com os colegas de trabalho as mais afetadas (23 por cento dos casos), mas também as com os amigos (21 por cento) e as com os cônjuges (20 por cento).

Não admira, portanto, que, no caso dos 49 por cento de inquiridos que referem terem comorbilidades associadas à EA, 27 por cento refira ansiedade e 25 por cento depressão.

“As pessoas com doenças reumáticas sofrem uma enorme pressão e não é sem razão que a estas estão associadas patologias como ansiedade e depressão. A incerteza em relação à situação no trabalho é enorme pela dificuldade em manter a atividade profissional e pelas consequências desta dificuldade, dado porque os dias de baixa representam uma enorme perda de rendimento para estes doentes. Se juntarmos a isto o impacto na vida social e familiar, vemos que o impacto na saúde mental é também importante”, considera Elsa Frazão Mateus, presidente da Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas.

Tanto como os custos indiretos causados pela EA, os custos diretos, para os doentes e para o SNS, são também elevados. Cada doente tem custos anuais com EA na ordem de 1 786 euros, com consultas, exames, deslocações e medicamentos.

Tendo em conta o universo estimado de 56 mil doentes no país, este valor representa um gasto de 84 milhões de euros em Portugal. Para o SNS, o impacto com consultas, meios complementares de diagnóstico, internamentos e episódios de urgência atinge 118 milhões de euros.

O estudo revelou ainda a relação entre o impacto da EA e o tempo decorrido entre os primeiros sintomas e o diagnóstico. Em média, os doentes apresentaram os primeiros sinais da EA aos 27 anos, mas apenas tiveram diagnóstico aos 34 anos, sete anos depois das primeiras manifestações.

“O atraso no diagnóstico tem diversos fatores e um impacto importante nos resultados que assistimos. Desde logo, os primeiros sintomas da EA são desvalorizados, confundidos com simples dores nas costas, o que leva a um atraso na procura do doente por uma primeira consulta. Depois, quando o doente chega ao médico nos cuidados primários, há uma demora em perceber que não se trata de uma dor nas costas normal, é específica, o que atrasa a referenciação. E soma-se a isto a deficientíssima cobertura de reumatologistas a nível nacional o que faz com que uma primeira consulta de reumatologia demore em média 9 meses. O facto é que este atraso no diagnóstico vai ter as consequências que assistimos no estudo”, refere Filipe Araújo, reumatologista.

O tempo para diagnóstico foi, de resto, uma das variáveis com mais impacto nos principais outcomes da EA, nomeadamente o estado de saúde dos doentes, o custo para o SNS e o impacto na economia.

Além do tempo que intermedeia sintomas e o diagnóstico, foram testadas variáveis como o tipo de medicamento com que o o doente está a fazer tratamento, o sistema de saúde utilizado (público, privado, misto ou nenhum) e o género. Fica patente que doentes que tiveram um tempo de diagnóstico superior a um ano apresentaram resultados mais conservadores.

“Foram identificados os principais fatores que influenciam os resultados da EA em Portugal – o estado de saúde dos doentes, custos para o SNS e impacto na economia. E aquilo que concluímos foi que factores como a rapidez do diagnóstico, o tipo de medicamento a que o doente tem acesso, e o recurso ao SNS em simultâneo com os serviços privados de saúde têm um impacto substancial. Só no caso da economia nacional, por exemplo, o impacto da EA pode ir de um máximo de 471 milhões de euros para um mínimo de 129 milhões de euros, em doentes diagnosticados em menos de um ano, tratados com medicamentos biológicos e que complementem o recurso ao SNS com serviços privados de saúde”, explica Pedro Simões Coelho, professor da NOVA-IMS e coordenador do estudo.

Fonte: press release

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